Quinta-feira, 5 de novembro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1413

Flávio venceu: os escândalos de corrupção viraram nota de rodapé

( Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

A família Bolsonaro é sim golpista, homofóbica, misógina, autoritária e com ímpetos genocidas. Mas vale sempre lembrar que é também corrupta. E antes que advogados de reputação ilibada e notório saber jurídico, como Frederick Wassef, Flávio Granado, Willer Tomaz e o próprio Flávio Bolsonaro, tentem me processar, ressalto que a afirmação não é minha: é a conclusão óbvio do ótimo livro “O negócio do Jair”, de Juliana Dal Piva.

Jair Bolsonaro foi preso por tentativa de golpe. E foi bom que isso acontecesse alguma vez na história de um país onde generais e torturadores de 1964 morreram em casa, sem enfrentar esse inconveniente de pagar por crimes contra a humanidade. Só que nenhum deles pagou também por negócios escusos. Como diria Elio Gaspari, quem acredita no papo de que não havia roubalheira no regime militar ganha uma caixa de DVDs do programa “Amaral Neto Repórter”.

Flávio fugiu do país após ser derrotado por Lula e explodiram piadas sobre o Guaidó de Hospício ou a Viúva Porcina da República, o presidente que foi sem nunca ter sido. Ele está adorando. Quer mais é que continuem falando sobre brasões, “Brazil com Z” e outras maluquices que não o levarão jamais para a cadeia.

Como disse Octávio Guedes na Globo News, acredita quem quiser que o político de um partido que fez uma bancada imensa no Congresso e elegeu sua madrasta e seu irmão para o Senado é também foragido de um regime que frauda eleições. O problema é que mesmo quem não acredita fez o jogo dele durante a semana que se seguiu ao segundo turno presidencial de 2026. Se falou de tudo, menos do que importa: os crimes comuns de Flávio e cia.

Ditaduras são o cenário dos sonhos de qualquer corrupto. Quem não quer um regime em que o Congresso é fechado, o Supremo é entupido de nomes indicados por você, a imprensa é censurada e o mercado financeiro elogia a previsibilidade do cenário político? Fora a imunidade eterna que o cargo vitalício lhe confere. Isso vale para o Brasil, Cuba, Venezuela, países do leste europeu e sheiks do Oriente Médio.

Transição de poder é um inferno para quem montou sua barraquinha de “tenebrosas transações” em Brasília. Na eleição de 2014, um colega ouviu o seguinte de um empresário: “Sou de direita, mas não quero mudança de governo não. Já tá tudo montado. Se mudar o presidente, vou ter que refazer todos os meus lobbies”.

Ironicamente, Flávio perdeu através dos votos de quem gosta sim de mudança de poder. Afinal, de um lado, havia a continuidade de Lula com longevos 80 anos. Do outro, um político jovem, com aspirações golpistas, o Congresso na mão, a boa-vontade do empresariado, uma imprensa simpática a suas promessas de “ajuste fiscal” e a possibilidade de modelar o STF aos seus desejos. Entre mais 4 anos de PT e talvez uns 30 de um regime bolsonarista autocrático, o segundo soou como um salto para o abismo.

Enquanto Dudu e Flávio interpretam os papéis de foragidos cubanos na Flórida, as perguntas necessárias seguem não sendo feitas com a ênfase necessária pelos jornalões: como uma loja de chocolate que nem vendia tanto assim na Páscoa rendeu tanto dinheiro? Por que uma família que finge ter inventado o Pix fazia tantos negócios em dinheiro vivo? Como alguém compra uma mansão e uma ilha com um salário de parlamentar? Tudo isso já foi pauta algum dia, mas se perdeu no que Alexandra Moraes, ombudsman da Folha de S. Paulo, definiu como o método Steve Bannon de “encharcar o terreno”: um escândalo sucede outro e todos terminam esquecidos (menos os do PT).

Quando articulistas afirmam que Flávio fugiu e Michelle se tornou a novidade na direita, parecem esquecer que a futura senadora recebeu, no mínimo, R$ 89 mil em cheques do miliciano Fabrício Queiroz. Em qual gabinete mesmo ele trabalhava?

Até o morticínio da pandemia tinha método, para usar um bordão do meu colega de faculdade Carlos Andreazza: Jair não comprou vacinas por puro sadismo ou por que negociava com fornecedores para receber um por fora?

A imprensa ri da suposta maluquice do candidato derrotado. Com um imenso patrimônio imobiliário e um patrocínio generoso de Daniel Vorcaro (roubado dos aposentados) no bolso, Flávio Bolsonaro é que deve estar rindo da gente.

 

Rafael Simi é jornalista formado pela PUC-Rio. Trabalhou nas redações do Grupo Globo e escreveu o livro “De volta para o passado – O Brasil de 1985 e o que fizemos depois”. Mais recentemente, publicou “Einstein e Exu – Reflexões para você perder tempo e ganhar o dia”.