Quinta-feira, 8 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1409

O STF, a imprensa e a disputa pela narrativa da democracia

(Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Há muitos motivos para discutir o protagonismo do Judiciário e, especialmente, do Supremo Tribunal Federal (STF) atualmente no país. Algumas decisões merecem crítica, certos excessos precisam ser enfrentados e ministros, como qualquer agente público, devem ser submetidos a investigação. O problema começa quando toda a crise institucional brasileira passa a ser explicada como se o STF tivesse, sozinho, decidido ocupar o centro da política. Não foi assim. O Supremo chegou a esse lugar depois de mais de uma década de crise de representação, judicialização dos conflitos e incapacidade das próprias instituições políticas de resolvê-los. E a imprensa participou desse processo.

Junho de 2013 abriu uma crise que rapidamente ultrapassou as reivindicações iniciais das ruas. A política passou a ser narrada cada vez mais pela chave da indignação, da corrupção e da desconfiança. Pouco depois, a Lava Jato encontrou o ambiente perfeito para uma narrativa de “regeneração nacional”. Juízes, procuradores e investigadores ganharam enorme protagonismo, enquanto delações, operações, prisões e processos passaram a organizar boa parte do noticiário político. A imprensa não inventou os crimes investigados, mas ajudou decisivamente a construir personagens, autoridades e referências morais no imaginário coletivo. Um juiz foi transformado em símbolo do combate à corrupção; depois deixou a magistratura para se tornar político e teve sua suspeição reconhecida pelo STF. Olhando para trás, é evidente perceber que não houve distância crítica suficiente.

O impeachment da presidente Dilma aprofundou esse ambiente. Crise econômica, Lava Jato, corrupção, manifestações e perda de apoio parlamentar passaram a compor uma mesma narrativa de colapso. Eram fatos, evidentemente, mas não custa lembrar que o jornalismo também produz sentido quando escolhe quem ganha voz e qual explicação recebe mais espaço. Foi nesse período que o país se acostumou a reduzir conflitos complexos a personagens capazes de encarnar, sozinhos, suas causas e soluções. E assim, a Justiça ocupou o lugar de herói que purificaria a política. Hoje, parece ocupar o lugar do grande vilão da República na narrativa midiatizada. 

Ao longo dos últimos anos, enquanto o Judiciário foi ganhando centralidade na pauta pública, outro movimento que avançou com bem menos atenção foi o fortalecimento do Congresso. Cresceu sua influência sobre o orçamento, aumentou sua capacidade de impor agendas ao Executivo e as emendas parlamentares se tornaram um dos principais instrumentos dessa força. Não por acaso, parte dos conflitos recentes com o Supremo envolve justamente transparência, emendas, limites constitucionais e competências de cada Poder. Quando se fala genericamente em “interferência do Judiciário”, portanto, é preciso olhar para o que está concretamente em disputa e quem se beneficia de cada limite removido.

Depois do primeiro turno dessa eleição de 2026, essa questão ganhou ainda mais peso. A nova composição do Congresso fortaleceu grupos interessados em pautas como anistia a condenados em atos antidemocráticos, impeachment de ministros do Supremo e mudanças nas competências da Corte. Tudo isso precisa ser noticiado, mas quando esses assuntos são tratados de forma corriqueira, superficial ou apenas como um cálculo de maioria, corre-se o risco de naturalizar mudanças profundas no equilíbrio entre os Poderes.

Não é que qualquer alteração no Supremo ameace a democracia. O problema é ignorar o contexto em que essas propostas aparecem. Quando forças políticas que já questionaram o sistema eleitoral, defenderam a tentativa de golpe de estado e atacaram os mecanismos de controle passam a reunir condições para enfraquecer a Corte que lhes impôs limites, não estamos diante de uma simples reorganização entre Poderes. Estamos diante de uma disputa sobre as regras do jogo democrático.

É nesse contexto que está uma das principais responsabilidades do jornalismo, em não apenas registrar o que os atores políticos fazem ou dizem, mas ajudar a compreender o que esses movimentos significam, sob o risco de naturalizar a ideia de que o Judiciário é o obstáculo a ser removido. A função democrática do jornalismo não está em proteger o Supremo da crítica, mas em evitar que a crítica, sem contexto e sem contraponto, acabe servindo para legitimar o enfraquecimento das instituições que existem justamente para conter abusos de poder.

Os ministros do Supremo serão cobrados pela forma como exerceram o poder. Os políticos serão lembrados pelas escolhas que fizeram. E a imprensa também será lembrada pela forma como contou esse processo enquanto ele acontecia. Foi assim em 2013. Foi assim na Lava Jato. Foi assim no impeachment. E em tantos outros momentos da história do país. E será assim quando olharmos para 2026. Preservar a democracia exige memória, contexto e alguma desconfiança diante das narrativas fáceis e dos heróis por circunstância. 

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Vitor Belém é Jornalista, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professor do curso de Jornalismo e do Programa de Pós-graduação em Comunicação na Universidade Federal de Sergipe. Foi repórter de TV e atua como pesquisador na área do jornalismo audiovisual. Lidera o grupo de pesquisa Jornau (UFS).