No antepenúltimo dos 10 parágrafos da matéria de hoje do Estado em que o governador tucano Aécio Neves se manifesta pela primeira vez sobre o mensalão mineiro – do qual teria sido um dos 159 alegados beneficiários, como candidato a deputado federal em 1998 – entra em cena o ex-ministro da Educação, Paulo Renato Souza, também do PSDB, com uma frase bombástica:
‘Não dá para indiciar o Azeredo [Eduardo Azeredo, então candidato a governador e atual senador] sem indiciar o Lula’, se ficar demonstrada a equivalência entre o mensalão de Minas e o mensalão do PT.
Pelo visto, faltou combinar com os russos, no caso com o próprio Azeredo. Ele aparece no Estado, discretamente, no parágrafo anterior àquele, e na Folha, destacadamente, numa entrevista exclusiva, envolvendo ninguém menos do que Fernando Henrique.
Ao Estado ele disse que, ‘para começar’, a campanha em questão ‘não foi minha, foi do PSDB todo, inclusive de Fernando Henrique à reeleição’ – o que o repórter Eduardo Kattah interpreta como uma cobrança de solidariedade.
Pode ser outra coisa. Quando o mensalão mineiro emergiu pela primeira vez, em 2005, Fernando Henrique foi o primeiro a pedir a saída de Azeredo da presidência do PSDB, que então ocupava.
Já na Folha, perguntado pela repórter Andreza Matais se o dinheiro de sua campanha ‘financiou a de FHC em Minas’, Azeredo não hesitou. ‘Sim, parte dos custos foram bancados pela minha campanha.’
E se pelo menos parte desses recursos teve a origem que lhe atribui agora a Polícia Federal – envolvendo dinheiro público ilicitamente arrecadado pelo publicitário e operador Marcos Valério, prefigurando a sua atuação no plano federal seis anos depois – o argumento de Paulo Renato teria de ficar assim:
‘Não dá para indiciar o Azeredo sem indiciar o Lula e não dá para indiciar o Lula sem indiciar o Fernando Henrique.’
Como é mesmo o ditado? Pau que bate em Chico bate em Francisco.
O observador de mídia só não entende por que a Folha, na chamada de 35 linhas de coluna que se segue à bem escolhida manchete de primeira página ‘Walfrido afirma inocência e diz que fica no ministério’, não incluiu nenhuma referência ao fato de Azeredo ter posto FHC na roda do infortúnio, na mesma edição.
De qualquer forma, a presença de Aécio, Azeredo e, por tabela, Fernando Henrique, no noticiário do dia sobre o mensalão 1.0 tira gás da teoria de que a mídia só fala de Walfrido – para atingir Lula, de quem é ministro, e proteger a tucanada, de quem seria cúmplice.
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