O contraste profundo entre as reportagens baseadas em informações complexas, como faz o estatístico Nate Silver, do New York Times, e a cobertura tradicional de eleições destaca um problema crescente no jornalismo: o pouco conhecimento de jornalistas sobre como lidar com banco de dados. Isso afeta todas as notícias – nacionais, locais e hiperlocais.
Na semana passada, Mark Coddington, doutorando em Jornalismo da Universidade do Texas, observou:
“Se a informação dos jornalistas que cobrem política é avaliada por meio de uma opinião profissional/cultural subjetiva e nebulosa, a avaliação [de Nate Silver] é sistemática e com base em dados científicos. Também envolve opinião, mas, por ser baseada num processo científico, podemos acompanhar como ele utilizou essa opinião para chegar à sua conclusão. Porém, essas duas distintas formas de abordar o conhecimento resultam, inevitavelmente, em diferentes tipos de conclusão. As conclusões de Silver são, ao mesmo tempo, muito mais específicas e com muito menos certeza do que as dos especialistas em política. O processo da objetividade jornalística não tem como produzir esse tipo de especificidade; isso está além de suas capacidades epistemológicas. (…) O problema [dos jornalistas] não está apenas em como Nate Silver sabe o que sabe, mas também como o apresenta. Fundamentalmente, eles confundem especificidade com certeza.”
Resultados podem ser gratificantes
Aprofundando o assunto, o professor de Jornalismo Paul Bradshaw destacou:
“[Alguns jornalistas também demonstraram que] não conhecem os rudimentos de estatística e metodologia. Isso foi – para dizer francamente – constrangedor para a profissão. Os jornalistas que se diziam especialistas em política mostraram ser bem relacionados, talvez bem informados, mas – no que se refere àquilo que, em última instância, definiu o resultado: como as pessoas planejavam votar – despreparados. Limitaram-se a expor opiniões, enquanto Nate Silver e outros se baseavam em pesquisa. Nesta eleição, não foi o acesso que saiu ganhando, mas, em última instância, a análise, o conhecimento e a aquisição de dados. Os repórteres que não conseguiram administrar essa bruxaria acabaram com cara de bobo.”
Isso destaca uma oportunidade: os jornalistas, editores e diretores que fizerem um esforço para dominar o conhecimento de dados podem demonstrar uma vantagem competitiva para a comunidade que servem – e, indiretamente, para seus apoiadores, patrocinadores ou anunciantes. Se você estabelece uma reputação de ter uma análise útil e de boa qualidade das estatísticas e probabilidades do tema jornalístico que você cobre – não apenas eleições locais, mas também verbas para a educação, estatísticas de saúde, dados sobre emprego etc. – provavelmente mais pessoas da sua comunidade o irão procurar (e recomendar) em busca de uma nova percepção baseada na pesquisa. Talvez isso traga resultados gratificantes para o número de visitas à sua página – assim como o tráfego móvel para aplicativos com um objetivo especial, baseados em catálogos de informações úteis.
Analisar dados e entrevistar fontes
A reportagem com foco em dados também pode ser empacotada de várias maneiras, incluindo gráficos criativos e visualizações interativas de dados. Entre alguns grandes recursos, destacam-se:
>> Três passos para que o jornalista tenha conhecimento básico de dados. Nicolas Kayser-Bril sugere três perguntas fundamentais para serem feitas sobre qualquer estatística ou conjunto de dados: como os dados foram coletados? O que há para ser aprendido? O quão segura é a informação?
>> Manual de jornalismo de dados: o livro, de 2011, está disponível como e-book ou como livro impresso. Existe também uma edição gratuita na internet.
>> Procure a associação de repórteres investigativos e editores e compareça à sua conferência. Participe da lista de discussão.
>> Leia Um matemático lê o jornal, um livro clássico, de John Allen Paulos, de 1997. Veja também seu livro Innumeracy.
Amy Gahran [Knight Digital Media Center, 7/11/12] faz a provocação:
“Você fica irritado com a sugestão de que analisar dados pode ser tão válido (e, às vezes, produzir resultados mais úteis e precisos) quanto entrevistar fontes e escrever matérias num formato narrativo? Então talvez você também queira conhecer a ampla pesquisa sobre vários fenômenos psicológicos e sociais que, muitas vezes, levam pessoas inteligentes a descartar provas científicas e dados”.
E conclui:
"Não se trata de um problema para pais que optam por não vacinar seus filhos ou para ideólogos políticos. Os jornalistas também estão sujeitos a essas manias”.
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