Saturday, 02 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

Novo circuito eleitoral na América Latina: Atenção aos buracos na pista

(Foto: Pocosmocos)

Desde o restabelecimento da ordem democrática, a América Latina vive no ritmo de uma competição de ciclismo, alternando vitórias para competidores de direita e de esquerda. Esse movimento perpétuo alternado “explicaria” a vitória de escaladores progressistas do Brasil à Venezuela a partir dos anos 2000 e de sprinters de direita da Argentina ao Uruguai nos anos 2014-2017. Atualmente as equipes de esquerda têm acumulado vitórias por etapas nessa prova.

Esta imagem da prova de ciclismo tem o mérito da simplicidade. Todo mundo conhece as regras de uma corrida de bicicletas. Elas parecem fornecer as chaves para entender as questões eleitorais na América Latina. As diferentes equipes ou partidos em competição, se avaliadas segundo o crivo de um critério velocipédico, podem de fato ser agrupadas em duas grandes raias, a da direita e a da esquerda. Elas usariam alternadamente o colete vencedor, amarelo ou rosa. No entanto, ainda existem algumas questões que ofuscam em certa medida o raciocínio e engastalham a roda dos atletas. Os diferentes competidores são realmente compatíveis com uma ou outra das duas raias? Como entender as repetidas quedas aqui e ali dos candidatos, antes do fim do mandato?

A largada eleitoral nos últimos meses, de fato, deu grande satisfação aos pelotões progressistas. Vamos julgar, de norte a sul do subcontinente. A etapa mexicana foi vencida em 2018 por Andrés Manuel López Obrador, com a colete “Morena”, Movimento de esquerda. Em Honduras, Xiomara Castro cruzou a linha de chegada em primeiro lugar, em janeiro de 2022 com o colete “Liberdade e Refundação”. A da Nicarágua, em 7 de novembro de 2021, foi garantida, é verdade, menos por desempenho e mais por semear pregos na rota dos demais competidores, por Daniel Ortega, da “Frente Sandinista de Libertação Nacional”. Cuba está fora da competição. O Partido Comunista segura firmemente o guidão já há um bom tempo. O mesmo se pode observar com a Venezuela, com Nicolás Maduro. Do lado andino, surgiu uma concorrente surpresa, que venceu pela esquerda no Peru, em 6 de junho de 2021, Pedro Castillo. E na Bolívia, em 18 de outubro de 2020, assistimos ao retorno indiscutível do “MAS” (Movimento ao Socialismo) com Luis Arce, enquanto no Chile, sem doping, um velocista veloz, exibindo seu colete, surpreendeu em 19 de dezembro de 2021, Gabriel Boric Font. Do outro lado da Cordilheira dos Andes, Alberto Fernández, um guerreiro da estrada peronista, ocupa a Casa Rosada desde 10 de dezembro de 2019. O passeio pelo velódromo ainda está em vista dos resultados finais. Hoje a América Latina estaria em um ciclo de esquerda. O que deve ser fortalecido muito rapidamente na Colômbia e no Brasil, pela vitória dos candidatos Gustavo Petro em Bogotá, em 29 de maio, e Luiz Inácio Lula, em Brasília, em outubro, ambos previstos pelas pesquisas.

Mas, uma pergunta se impõe. É certo apresentar os resultados sem olhar para o bilhete de identidade de cada um dos participantes nesta corrida eleitoral? Os vencedores das consultas relatadas têm de fato o mesmo desvio progressista? O que há em comum entre a “esquerda” do chileno Gabriel Boric que aceitou submeter-se ao veredicto dos eleitores e aquela do inquebrantável comunismo cubano, hoje representada por Miguel Díaz-Canel? Qual é o ponto de encontro de Alberto Fernández, representante de uma corrente política, o Justicialismo argentino, incluindo dentro dele todo o espectro ideológico de seu país, e Andrés Manuel López Obrador que, do México, convoca a juventude a escolher a esquerda? O “Liberdade e Refundação” de Xiomara Castro, social-democrata hondurenha, pode ser colocado no mesmo circuito de ciclismo que o “FSLN” de Daniel Ortega, que prendeu seus principais adversários antes das eleições presidenciais? Podemos, enfim, passar um colete idêntico ao puro bolivariano Nicolás Maduro, que no passado “desencorajou” a participação eleitoral de seus adversários, e o peruano Pedro Castillo, que venceu com justiça, mas sob as cores de um marxista-leninista, “Peru Livre”, à qual não pertence? Dando um pontapé brasileiro a esse OPCI, Objeto Político Coletivo Indefinido, Lula fez uma declaração nos últimos dias que se soma à perplexidade: “Não tenho, disse ele, que ser de esquerda, direita ou de centro, tenho que ser presidente” [1].

Outra observação deve ser adicionada a esse caldo. Os ciclos relatados, sejam eles de esquerda ou de direita, são imperfeitos. Candidatos não partidários e de direita venceram as eleições no ciclo atual. Onde colocar os executivos recém-eleitos, listados aqui em ordem alfabética por país, na Costa Rica, Equador, Guatemala, Panamá, Paraguai, El Salvador e Uruguai? Uma observação idêntica poderia ter sido feita durante o ciclo de direita anterior com a vitória, de 2014 a 2017, de candidatos de esquerda na Bolívia (2014), Brasil (2014), Uruguai (2014) e Equador (2017). Os desvios observados, em um dos ciclos, como no outro, exigem o uso de outras lentes de aproximação. Como interpretar essas alternâncias que não são universais nem regulares ou previsíveis? Sem dúvida, é apropriado fazer um diagnóstico examinando o mais de perto possível a origem dos impulsos que embasam a mudança. Sua colocação em movimento deve-se muito mais ao fracasso dos governos locais em atender às expectativas e frustrações da maioria. A referência a um zeitgeist coletivo, mal definido ou indefinido, soprando em uma direção ideológica, depois na outra, não é convincente, em períodos e regiões, é claro, em que o jogo democrático é plenamente respeitado.

Esta observação faz com que, em conclusão, se pressione com os pneus presidenciais para verificar sua calibragem e identificar eventuais vazamentos. Também esbarra na qualidade desses pneus e de sua adequação para estradas que exigem recauchutagem de emergência. Os Chefes de Estado eleitos estão longe de ser os vitoriosos ciclistas de pista aplaudidos como tal pelos seus respectivos apoiantes. Os eleitores, nos países onde são livres para expressar suas escolhas, compartilham seus votos entre os candidatos que correm nas duas raias multiplicando as formas de sua convivência, enviando-dos para parlamentos constituídos de maiorias confusas ou opostas às opções do presidente eleito. Medimos as consequências dessas escolhas hoje da Argentina ao Peru, passando pelo México, e quem sabe amanhã pela Colômbia e pelo Brasil.

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Nota:

[1] Citado pela matéria da Carta Capital, 28 de abril de 2022.

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Texto publicado originalmente em francês, em 29 de abril de 2022, na seção ‘Actualités, Amérique Latine’, no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original “Nouveau cycle électoral en Amérique latine – Attention aux pavés”. Disponível aqui. Tradução de Thaís Pereira da Silva e Luzmara Curcino.

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Jean-Jacques Kourliandsky é diretor do Observatório da América Latina junto ao IRIS – Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, com sede em Paris, e responsável pela cobertura e análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É formado em Ciências Políticas pelo Instituto de Estudos Políticos de Bordeaux e Doutor em História Contemporânea pela Universidade de Bordeaux III. Atua como observador internacional junto às fundações Friedrich Ebert e Jean Jaurès. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014), e colabora frequentemente com o Observatório da Imprensa, em parceria com o LABOR – Laboratório de Estudos do Discurso e com o LIRE – Laboratório de Estudos da Leitura, ambos da UFSCar – Universidade Federal de São Carlos.