Sunday, 23 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

A promiscuidade entre polícia e repórteres

O escândalo Murdoch já mostrou muita coisa podre num dos maiores impérios jornalísticos do planeta, mas um item ainda permanece meio esquecido na avalancha de denúncias e suspeitas.

É a relação promíscua desenvolvida pelos jornalistas e editores do finado News of the World com a polícia londrina, como mostra o fato da rolagem de cabeças ter atingido tanto a redação do jornal sensacionalista como na cúpula da Scotland Yard.

A relação entre repórteres e policiais é um dos pontos mais delicados quando se discute a questão das fontes de informação no jornalismo. Da mesma forma que na economia e na política, quando se trata de crime, corrupção e delinqüência o repórter depende de poucas fontes porque cada vez mais a informação está concentrada em órgãos públicos e privados.

Acontece que os detentores da informação passaram a usá-la como uma propriedade pessoal ou institucional, em vez de um bem público, que pode interferir na vida das pessoas.

E ao assumir esta postura, incorporam a ideia da permuta, o que geralmente se traduz no fornecimento de notícias em troca da construção de uma boa imagem da fonte no veiculo de comunicação jornalística. Está aí a origem de todas as distorções na relação entre jornalista e polícia.

Fonte privilegiada

O manejo da informação como bem privado leva a polícia a uma posição de força na medida em que ela é, geralmente, a única fonte de informação sobre episódios delitivos, e pode manipular a competição pelo “furo” entre os repórteres para obter tratamento mais favorável na apresentação das ações policiais.

No caso do jornal do milionário Rupert Murdoch, a promiscuidade informativa chegou a um ponto crítico porque a Scotland Yard “olhou para o outro lado” em episódios de violação da privacidade praticados pelos jornalistas envolvendo dois tabus na mídia britânica: a vida privada de membros da família real e de soldados ingleses no Afeganistão e Iraque.

É claro que o escândalo não surgiu de repente. Ele foi o resultado de doses homeopáticas de vistas grossas que foram se avolumando ao longo dos anos até chegar a uma impunidade acintosa que já não podia mais ser jogada debaixo do tapete. Aconteceu com o News of the World, mas quase todos os jornais mundiais – em especial os tabloides e publicações especializadas em crimes, escândalos e fofocas sociais – também são obrigados a depender da polícia para vencer a concorrência.

É uma situação complexa porque o repórter é obrigado a confiar em versões ou representações de um fato, dado ou processo produzidas por outras pessoas, muitas das quais também não tiveram dele um conhecimento direto. Isso coloca o policial numa posição privilegiada porque ele é a pessoa encarregada de ter um contato com os fatos brutos e as versões de acusados, vítimas e também das testemunhas.

Triste lembrança

Raramente o repórter tem tempo e condições para investigar por conta própria um assassinato, escândalo ou denúncia de corrupção. Com isso acaba sendo obrigado a aceitar a relação de dependência e, com ela, o risco de ir gradualmente transformando-se em cúmplice, como aconteceu com os profissionais do jornal de Rupert Murdoch.

O caso News of the World é um alerta para todos os jornalistas, não apenas os ingleses, porque as distorções no relacionamento entre polícia e jornalistas são quase uma regra em todo o mundo. No Brasil já tivemos o famoso caso da Escola Base, em São Paulo, em 1994. Os donos da escola foram acusados de abusos sexuais contra crianças numa denúncia mal investigada pela polícia, e que acabou gerando histeria de pais de alunos e a depredação da escola. Depois foi verificado que a denúncia não tinha fundamento e fora alimentada por um policial interessado em promoção.

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[Carlos Castilho é jornalista]