Sunday, 25 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

Redução de desertos mostra força da imprensa na região Norte

(https://www.guiadoturismobrasil.com/roteiro/50/regiao-norte-do-brasil)

 

95 cidades deixam de ser desertos de notícias na região

  • Redução de 30% nos desertos de notícia na região Norte
  • Nenhuma cidade nortista se tornou deserto de notícias
  • Jornalismo local nortista realiza cobertura socioambiental e denuncia ataques a jornalistas em áreas de risco
  • Jornal impresso acreano, fundado na ditadura, retorna em versão digital
  • Tecnologia: agregador de notícias, Threads e doação via Pix aparecem no mapeamento

Com a maior extensão territorial do país, a imprensa nortista enfrenta, historicamente, desafios para cobrir as complexidades do território que abriga parte considerável da Amazônia brasileira. Levantamento da sexta edição do Atlas da Notícia aponta que a região Norte acumula 1.260 veículos jornalísticos distribuídos entre os sete estados – Acre, Amapá, Amazonas, Rondônia, Roraima, Tocantins e Pará. A pesquisa também indica redução de 30% na quantidade de municípios classificados como desertos de notícias na região Norte. Isso significa que das 450 cidades nortistas, agora são 189 que não contam com nenhum veículo de jornalismo local reportando informações de interesse público.

[Gráfico: Quantidade de desertos de notícias na região Norte ao longo dos anos]

Cidades e desertos região Norte considera apenas veículos jornalísticos abertos região

Desertos de notícias encolhem em 30% na região Norte

Os segmentos com maior crescimento nesta edição foram os responsáveis pela redução significativa de desertos de notícias na região Norte: internet e rádio. Com 78 novos registros, os veículos online seguem avanço apontado em levantamentos anteriores do Atlas da Notícia (2018 e 2021). A novidade é o mapeamento de 73 rádios nesta edição. Impresso teve apenas um novo registro e TV dois.

Todos os estados da região Norte, à exceção do Amapá, registraram pelo menos um município que deixou de ser deserto de notícias, chegando ao total de 95. Pará e Tocantins lideram na quantidade de municípios que progrediram para classificação de quase deserto (quando o município possui um ou dois veículos jornalísticos), seguido pelo Amazonas. Outro dado importante desta edição é que nenhuma cidade nortista se tornou deserto de notícias. Ou seja, além de avançar na redução de desertos, não notamos retrocessos na classificação dos municípios quase desertos.

[gráfico/mapa: quantidade de municípios que deixaram de ser desertos de notícias por estado]

Pará e Tocantins empatam na quantidade de municípios que deixaram de ser desertos de notícias

 

Os veículos não são necessariamente novos (fundados recentemente), muitos existem há décadas, como as rádios comunitárias mapeadas no estado do Tocantins. É normal que existam veículos antigos que ainda não foram mapeados pela pesquisa, pois nossa metodologia é baseada em levantamento de pesquisadores locais, capazes de compreender o ecossistema midiático de cada estado. Além disso, flexibilizamos os critérios para considerar rádios comunitárias como veículos jornalísticos, quando produzem conteúdo noticioso, por entender que esse tipo de veículo faz diferença no ecossistema de mídias em determinados contextos, como na Amazônia. Nas edições anteriores, os registros de rádios comunitários eram feitos como “não jornalístico” devido à natureza vinculativa desse tipo de veículo com organizações sociais, como instituições religiosas e movimentos sociais.

O jornalismo local nortista e as tecnologias

Durante a etapa de checagem das rádios, nos deparamos com a dificuldade de acessar conteúdo para verificar atividade e produção noticiosa. A principal barreira está relacionada à dimensão da pesquisa. Numa região tão vasta nem sempre é possível estar na área de cobertura de uma rádio e parte dos sites dessas rádios não são atualizados ou não oferecem o áudio da transmissão. Em alguns casos, os veículos até desenvolvem aplicativo para dispositivos móveis, mas que nem sempre funcionam. Isso nos diz que há uma disposição para aproveitamento da tecnologia para difusão de conteúdo, no entanto, persistem desafios que merecem aprofundamento de estudos.

Pouco usado pelo jornalismo local, o agregador de notícias do Google apareceu pela primeira vez no levantamento da região Norte. Em Filadélfia (TO), que deixa de ser deserto de notícias, o Jornal da Filadélfia utiliza a plataforma para distribuir conteúdo. E a recém-lançada Threads também já está sendo utilizada pelo jornalismo local nortista. O Portal Tailândia, da cidade Tailândia/PA, aproveita a rede social para interagir com o público e divulgar notícias do site.

Reportando questões amazônicas

O acirramento de tensões políticas e a crise ambiental que pesa sobre a região amazônica nos últimos anos provocaram o retorno do jornal Varadouro. Criado em 1977, na ditadura militar, com objetivo de “dar visibilidade aos graves conflitos sociais, econômicos e da luta pela terra vivida pelos povos da floresta”, as edições impressas circularam até 1981, devido a dificuldades políticas, econômicas e operacionais. Em 2023, o Varadouro volta com a mesma proposta editorial, baseada em densa cobertura socioambiental, mas adaptada às plataformas do nosso tempo – com produção e distribuição em diferentes canais e possibilidade de doação direta via Pix.

Jacareacanga está localizada no sudoeste paraense, onde houve crescimento de garimpos ilegais nos últimos anos e, consequentemente, danos ao meio ambiente e violência contra povos originários. No município, que deixa de ser deserto de notícia, identificamos a presença do Portal Buré, cuja cobertura acompanha o poder público, inclusive realizando denúncias de perseguição a jornalistas por políticos locais, mas que também se destaca por publicar matérias de cunho socioambiental, principalmente sobre questões indígenas e garimpo.

Outra pauta recorrente na cobertura socioambiental sobre Amazônia, os incêndios florestais são o foco do site e rádio Talismã, veículo sediado na cidade homônima no Tocantins – da preparação para temporada de incêndios até os primeiros registros. A partir deste levantamento, Talismã e mais 35 cidades do Tocantins deixam de ser desertos de notícias.

Cidades que deixaram de ser desertos de notícias

Acre: Capixaba; Plácido de Castro

Amazonas: Alvarães; Boa Vista do Ramos; Borba; Careiro da Várzea; Codajás; Nhamundá; Nova Olinda do Norte; Novo Airão; Novo Aripuanã; Pauini; Rio Preto da Eva; Santa Isabel do Rio Negro; Santo Antônio do Içá; São Sebastião do Uatumã; Silves; Urucará; Urucurituba

Rondônia: Alto Paraíso; Campo Novo de Rondônia; Seringueiras

Roraima: Pacaraima;

Pará: Abel Figueiredo; Afuá; Almeirim; Anapu; Brejo Grande do Araguaia; Breu Branco; Bujaru; Cachoeira do Piriá ; Colares; Curuá ;Dom Eliseu; Floresta do Araguaia; Garrafão do Norte; Igarapé-Miri; Jacareacanga; Jacundá; Limoeiro do Ajuru; Mãe do Rio ;Nova Esperança do Piriá; Nova Timboteua; Ourilândia do Norte; Palestina do Pará; Peixe-Boi; Piçarra; Porto de Moz; Prainha; Primavera; Rio Maria; Rurópolis; Santana do Araguaia; Santo Antônio do Tauá; São Domingos do Capim; São Geraldo do Araguaia; Terra Alta; Ulianópolis; Viseu

Tocantins: Abreulândia; Aguiarnópolis; Aliança do Tocantins; Almas; Araguacema; Araguaçu; Arraias; Axixá do Tocantins; Babaçulândia; Barra do Ouro; Buriti do Tocantins; Cariri do Tocantins; Combinado; Filadélfia; Goianorte; Itacajá; Itaguatins; Lagoa do Tocantins; Lajeado; Lavandeira; Luzinópolis; Mateiros; Maurilândia do Tocantins; Miranorte; Nova Rosalândia; Palmeirante; Pau D’Arco; Peixe; Pium; Ponte Alta do Tocantins; Praia Norte; Rio da Conceição; Rio Sono; Santa Fé do Araguaia; Taguatinga; Talismã

O Atlas da Notícia é um esforço coletivo. Nossos agradecimentos a quem colaborou com a pesquisa na região Norte:

Estudantes voluntários
Camila Pinheiro
Cleisson Vitor
Glenda Moura
Antônio Luiz Ferreira Sousa Filho

Instituições de ensino
Universidade Federal do Tocantins
Universidade Federal de Rondônia
Universidade Federal do Amazonas
Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará

Docentes
Professor Rafael Hoff (Ufam)
Professora Karolina Calado (Unifesspa)

Jornalistas
Allan Gomes
Eddie Alanis
Faber Teixeira
Sandra Rocha

***
Jéssica Botelho é doutoranda em Comunicação e Cultura na UFRJ, integrante do coletivo Centro Popular de Comunicação e Audiovisual, de Manaus/AM e coordenadora do Atlas da Notícia na região Norte.