Quinta-feira, 5 de novembro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1412

Artigos de José Castello

Em busca do leitor

Volta e meia, me pergunto quem é o leitor. É uma pergunta que me angustia. É uma pergunta que inferniza a vida dos que escrevem: escrever, mas sem saber exatamente para quem. O leitor é um enigma – o leitor é a própria pergunta. Lendo um ensaio de Bartolomeu Campos de Queirós, encontro essa afirmação: […]


O escritor turrão

No ano de 1941, o repórter Paulo de Albuquerque, de A Gazeta, oferece a Graciliano Ramos a pergunta clássica: “Como se faz um romance?”. A resposta o desarma: “Mas eu ainda não escrevi nenhum romance”. Àquela altura, Gracilano (1892-1953) já tinha publicado três romances: Caetés, de 1933, São Bernardo, de 1934, e Angústia, de 1936. […]


O fantástico Cortázar

Nascido em 26 de agosto de 1914, o escritor argentino Julio Cortázar considerava a literatura “uma empresa de conquista verbal da realidade”. Antes das palavras, a realidade é amorfa e difusa, não apresenta formas precisas, não tem um rosto. Só as palavras lhe conferem uma fisionomia. Mas é a literatura – palavras potencializadas em um […]


Míriam Leitão amplia perspectiva do presente

O passado ilumina o presente ou o ofusca? Em tempos intensos como os nossos, em que medida a memória nos ajuda a viver ou, ao contrário, nos serve de fardo? Perguntas difíceis surgem durante a leitura de “Tempos Extremos”, romance de estreia da prestigiada jornalista Míriam Leitão. Um romance delicado, escrito com leveza, que caminha […]


O golpe e o choque

1964, ano do golpe militar. Ano também em que Clarice Lispector lança o mais enigmático romance que escreveu: “A Paixão Segundo G.H.”. São dois universos destoantes. Mais que isso: em conflito. De um lado, a agitação das ruas, a efervescência política, o choque social e, ato contínuo, a chegada à ditadura. De outro, pela primeira […]


Entre dois séculos

Algumas impressões me assombram durante a releitura de O desatino da rapaziada, a magnífica crônica de Humberto Werneck (Companhia das Letras, 1992). Elas me obrigam, por contraste, a pensar, com indisfarçável incômodo, no século solitário em que vivemos. Elas o iluminam melhor, lhe emprestando uma forte – ainda que brutal – nitidez. Reafirmam a ideia […]


A ficção que sente vergonha

Os críticos literários não suportam a ideia de que a crítica literária é, ela também, um tipo (ainda que envergonhado) de ficção. A hipótese os horroriza, pois desmorona a torre de conceitos e preconceitos desde a qual eles observam, com a postura de metódicos cientistas, a produção literária. Afasta-os das garantias de verdade que eles […]


A morte e a morte de Millôr

A morte de Millôr Fernandes, na noite de terça-feira (27/03), no Rio, põe em dúvida a própria noção de morte. Millôr, que tinha 88 anos, foi, sem dúvida, um homem de seu tempo, que viveu aferrado ao presente e à força, nem sempre doce, das circunstâncias. Nos anos 1930, não tinha nem 10 anos de […]


Autorretrato de um tímido

A crônica pode ser uma espécie envergonhada, ainda que involuntária, de autorretrato. A ideia se confirma durante a leitura de Bom Dia para Nascer (Companhia das Letras, 440 págs., R$ 49,00), reunião das crônicas que o escritor mineiro Otto Lara Resende (1922-1992) publicou no início da década de 1990 na Folha de S. Paulo, acrescidas […]