Friday, 01 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Ataques a base do Ibama é a reação dos garimpeiros à presença das tropas federais?

A omissão do governo de Roraima no caso yanomami pode incentivar a radicalização dos garimpeiros? (Foto: Ibama/Divulgação)

O que encorajou os donos de garimpos a organizar e executar dois ataques, na quinta-feira (23/2), a uma base do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) na aldeia Palimiú, dos índios yanomami, às margens do Rio Uraricoera? Foram os mesmos motivos que levaram bolsonaristas radicalizados a realizar os atos terroristas de 8 de janeiro em Brasília? Estou propondo aos meus colegas, em especial aos jovens repórteres que trabalham no noticiário do dia a dia nas redações, e aos demais leitores para refletirmos sobre esse assunto. Aprendi nessas quatro décadas de profissão que sempre que um repórter para para refletir, todo mundo ganha, inclusive ele.

Vamos aos fatos. A investigação da Polícia Federal (PF) sobre o 8 de janeiro ainda não terminou. Mas o que já foi apurado nos permite afirmar que os atos terroristas aconteceram devido a uma cadeia de omissões das autoridades de Brasília, que funcionou como incentivo à ação dos vândalos. Antes do 8 de janeiro, já haviam ocorridos dois ataques de bolsonaristas radicalizados, em dezembro de 2022. No primeiro (12/12), tentaram invadir o prédio central da PF para libertar o cacique indígena José Acácio Serere Xavante, que estava preso preventivamente por se envolver em atos antidemocráticos. Não conseguiram invadir o prédio e saíram pela cidade quebrando e colocando fogo em tudo que encontraram pela frente, principalmente em veículos, como foi o caso de um ônibus – há matéria na internet. No segundo (25/12), colocaram uma bomba em um caminhão-tanque carregado com mais de 60 mil litros de querosene de avião. A bomba não explodiu por uma falha técnica e foi descoberta pelo caminhoneiro. Um dos responsáveis pelo atentado foi George Washington Macedo de Souza, um bolsonarista raiz do Pará, que estava no acampamento dos apoiadores do então presidente da República Jair Bolsonaro na frente do Quartel-General do Exército, em Brasília. No dia 8 de janeiro, os bolsonaristas estavam decididos a derrubar o recém-eleito presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Não conseguiram. Mas quebraram tudo que encontraram pela frente no Congresso Nacional, no Palácio do Planalto e no Supremo Tribunal Federal (STF) – há matérias e imagens disponíveis na internet. Várias autoridades foram punidas e estão sendo processadas por terem sido omissas, permitindo a ação dos terroristas, entre elas o governador do Distrito Federal (DF), Ibaneis Rocha, o então secretário da Segurança Pública do DF, delegado federal Anderson Torres, além de oficiais da Polícia Militar e das Forças Armadas. O governador foi afastado por 90 dias do cargo pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF. Torres cumpre prisão preventiva e vários oficiais perderam seus cargos. Alguns deles foram presos e atualmente respondem o inquérito em liberdade. Entre os que praticaram os atos terroristas, 1.028 pessoas estão cumprindo prisão preventiva, sendo 637 homens detidos no Complexo da Papuda e 391 mulheres, na Penitenciária Feminina.

Todas essas pessoas que estão cumprindo prisão preventiva, que perderam os seus cargos ou que estão respondendo a processos em liberdade são fiéis seguidores de Bolsonaro. Mas não foram punidas por serem seguidores do ex-presidente. Ora, no segundo turno das eleições presidenciais de 2022, 58,2 milhões (49,1%) de brasileiros votaram em Bolsonaro, que com seu prestígio político ajudou a eleger dezenas de senadores, deputados (estaduais e federais) e governadores. Só para lembrar: a Constituição garante ao brasileiro o direito de ter as suas simpatias políticas. Portanto, não é por isso que as pessoas que se omitiram do seu dever e permitiram acontecer o 8 de janeiro estão tendo problemas com a lei. Elas estão tendo problemas porque se organizaram e praticaram vários tipos de crimes que permitiram a destruição de salas do Congresso, do Palácio do Planalto e do STF.

Esse mesmo pensamento se encaixa no caso do ataque dos garimpeiros à base do Ibama. O governador de Roraima, Antonio Denarium, os deputados (estaduais e federais) e os senadores eleitos por Roraima são bolsonaristas raiz. Eles trabalharam fortemente pela reeleição de Bolsonaro, tanto que no segundo turno das eleições o ex-presidente fez 76,08% dos votos válidos no Estado. Um dos motivos da identificação do governador e dos parlamentares com Bolsonaro é que ele incentivou a invasão das terras indígenas por parte dos garimpeiros. Foi uma espécie de oficialização de um crime que já vem sendo cometido pelos governos de Roraima há muito tempo. Só que invadir terra de índio é crime. E a maneira como os dirigentes políticos locais vêm tratando esse problema está sendo visto pelos garimpeiros como um incentivo para reagirem contra a presença das autoridades federais nas terras yanomami. Não é a primeira vez que os garimpeiros atacam bases do Ibama e de outros órgãos federais, como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), na imensidão da Floresta Amazônica. Mas é uma das raras vezes que chegam atirando e são recebidos a bala por fiscais da autarquia, soldados da Força Nacional de Segurança e agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Todo esse aparato de segurança na base do Ibama é porque o governo federal colocou em execução uma operação de retirada dos garimpeiros da terra yanomami, uma vasta área de 9,2 milhões de hectares em Roraima, na fronteira com a Venezuela. A invasão levou a fome para os indígenas, tornada pública ao redor do mundo pelas imagens de homens, mulheres e crianças reduzidos a ossos e pele devido à desnutrição. A base atacada é uma importante peça no esquema montado pelo governo federal para asfixiar a ocupação dos garimpeiros na área e obrigá-los a sair. Por ser o Rio Uraricoera a principal via de abastecimento de comida, peças e combustível dos garimpos, foram instalados cabos de aço para impedir a navegação. O primeiro ataque aconteceu durante a madrugada de quinta-feira (23/02). Sete “voadeiras”, como são chamadas na região as lanchas com motores possantes, de 12 metros de comprimento, carregadas com cassiterita, minério extraído ilegalmente na área indígena, e garimpeiros fortemente armados, tentaram furar o bloqueio atirando contra a base. Quatro voadeiras conseguiram passar e as outras foram detidas. Um garimpeiro, Gelson Barbosa Miranda, 32 anos, ferido durante o tiroteio, foi hospitalizado e preso. O outro ataque aconteceu horas depois e foi efetuado por seis homens em uma voadeira. Foram presos e levados para a Delegacia da Polícia Civil, de onde foram libertados. Se o ataque à base do Ibama é uma reação dos garimpeiros contra as tropas federais na terra yanomami incentivada pela omissão do governo do Estado, ou é apenas um ato isolado, vamos saber nos próximos dias.

Texto originalmente publicado por Histórias Mal Contatas

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.