Friday, 12 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1283

Qual o interesse não revelado do pastor Malafaia na manifestação de Bolsonaro?

(Foto: Nelson Almeida / AFP)

Não existe manifestação pública de bolsonaristas sem cartazes pedindo golpe de Estado, xingando os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), defendendo os torturadores do golpe militar de 1964, distorcendo salmos da Bíblia, espalhando fake news e atacando os partidos de esquerda, em especial o PT. Esse tem sido o roteiro seguido ao logo das mais de três décadas de vida política do ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL).

O que se assistiu no domingo (25/02) na Avenida Paulista, centro de São Paulo, foi uma manifestação pensada e organizada pelo pastor neopentecostal Silas Malafaia, 65 anos, da igreja Assembleia de Deus em Cristo. Ele convenceu Bolsonaro a fazer a manifestação e deu um roteiro de “bom comportamento” para ser seguido pelo ex-presidente. Com o argumento de que os ministros do STF não poderiam ser atacados e muito menos os agentes da Polícia Federal (PF) que estão trabalhado no caso da conspiração do golpe de Estado. Bolsonaro seguiu o roteiro. Enquanto isso, Malafaia aproveitou-se do prestígio do ex-presidente para atirar pedras no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Por ser um hábil negociador dos interesses econômicos e políticos dos seus colegas neopentecostais, Malafaia não falava pelo ex-presidente quanto atirou pedras no governo Lula e nos ministros do STF. Falava por ele próprio e pelos seus interesses. Lembro que o fato dele ter sido mentor e organizador da manifestação de domingo deu-lhe um capital político que será usado em futuras negociações econômicas e políticas. O que escrevi não é opinião. São fatos que temos publicado nas nossas matérias sobre Malafaia. Dito isso, vamos conversar sobre a manifestação. A ideia inicial era reunir 700 mil pessoas. Não existe um número oficial de quantas pessoas estiveram na Paulista. Mas foram muitas. Escrevi que considerava irrelevante o número de pessoas presentes na manifestação, o que interessa é se elas prosseguirão e conseguirão se firmar como símbolo da resistência do ex-presidente contra a montanha de provas que o STF tem envolvendo-o na conspiração da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.

A maioria das provas foi produzida pelo próprio ex-presidente e seus seguidores, como o vídeo de uma reunião de ministros apreendido pela PF na casa do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro. Cid fez deleção premiada para a PF. Aqui é o seguinte. Uma coisa é conseguir mobilizar a opinião pública contra uma injustiça cometida por um ministro do STF. Outra é mobilizar contra uma prova verídica. São duas coisas bem diferentes. O que isso significa? Que o caminho escolhido pelo ex-presidente para pressionar o STF pode se virar contra ele. Mais uma vez digo que não é opinião. Mas fatos que estamos publicando, ditos por advogados especializados.

O que deu para ver na manifestação de domingo é que aliados do ex-presidente estão sugando com uma voracidade imensa o seu prestígio político. Como são os casos do seu afilhado político e governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. E do governador de Goiás, Ronaldo Caiado. Já escrevi que Bolsonaro não é um gênio da política. Mas é um cara esperto, que tem um tino de sobrevivência política muito apurado. Ele sabe que o seu prestígio tem prazo de validade e que, quando esse prazo vencer, será deixado à beira da estrada pelos companheiros. E que seu atual momento é muito delicado. E que uma mudança depende de conseguir derrubar a sentença do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que o tornou inelegível por oito anos. Hoje são mínimas as chances de derrubar a sentença do TSE. Mas a história ensina a nós repórteres que a disputa política dá muitas voltas. Quando assumiu o governo, em 2019, Bolsonaro estava cercado por generais e empresários que acreditavam que conseguiriam manobrá-lo, tornando-o uma espécie de rainha da Inglaterra, uma metáfora usada para designar um governante cujo poder é apenas simbólico e que, na prática, não manda. Logo no início do segundo ano de mandato, o então presidente da República conseguiu recuperar o poder, demitiu mais de 10 generais e expurgou vários empresários do seu convívio. Os que ficaram no governo seguiram as ordens de Bolsonaro, que desde o início sempre defendeu um golpe de Estado. Trabalhou para que isso acontecesse. Deu no que deu.

Durante a manifestação, Bolsonaro pediu anistia aos presos, condenados e aos que ainda respondem a processos pelo envolvimento nos atos golpistas de 8 de janeiro, quando seguidores do ex-presidente invadiram e quebraram tudo que encontraram pela frente no Palácio do Planalto, no STF e no Congresso, em Brasília (DF). Há duas investigações da PF sobre o caso, as operações Lesa Pátria (está na sua 23ª fase), que investiga os financiadores do quebra-quebra em Brasília, e a Tempus Veritatis, a hora da verdade em latim, que apura a arquitetura da conspiração dos golpistas.

Por todas as informações disponíveis a respeito da tentativa de golpe, tudo indica que o pedido de anistia do ex-presidente não será considerado. Nós jornalistas precisamos ficar atentos aos movimentos do pastor Malafaia na arena da disputa política. Ele investiu muito tempo e dinheiro no evento. Claro que não fez tudo isso por simpatia ideológica com o ex-presidente. Malafaia tem os seus próprios interesses. Sempre teve e lutou por eles. É o que a história do pastor nos ensinou.

Reportagem publicada originalmente em Histórias Mal Contadas.

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.