Monday, 26 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

Bancada evangélica quer intervir nas festas populares

(Foto: Reprodução)

O novo líder da bancada evangélica, Eli Borges, é um deputado federal do Tocantins que se notabilizou, há duas semanas, por ameaçar processar a escola de samba corintiana Gaviões da Fiel, a pretexto de terem sido sacrílegos no samba-enredo “Em nome do Pai, dos Filhos, dos Espíritos e dos Santos”.

No que teria consistido o sacrilégio? De acordo com o pastor, que é também agropecuarista e tem curso de contador, os sambistas teriam ofendido a chamada Santíssima Trindade, na qual convivem figuras chamadas de Pai, Filho e Espírito Santo, segundo uma decisão do Concílio de Nicéia, em 325 depois de Cristo. É o caso de se perguntar por que só no quarto século cristão se chegou à conclusão de que Deus é só um, mas dividido em três, o chamado mistério da Trindade?

Por quê? Pela simples razão de que não havia antes essa ideia de Trindade entre os primeiros cristãos e de que muitos cristãos não aceitavam essa versão teológica. Ou seja, não havia consenso. O debate começou no terceiro século cristão e acabaram vencedores os teólogos criadores da Santíssima Trindade. Mas transformada essa teoria em dogma, tornaram-se apóstatas todos quantos dele divergissem, mesmo se fossem bons cristãos. Pode-se mesmo imaginar essa apostasia punida na fogueira.

Teria sido influência dos pagãos, em cujas religiões já existia o conceito de deuses tríplices? No Egito, havia Hórus, Ísis e Osíris; na Grécia, Zeus, Maia e Hermes; na Índia, Brahma, Vishnu e Shiva e, em Roma, Júpiter, Juno e Minerva.

Onde teria sido cometido o sacrilégio ou a ofensa pelos carnavalescos Gaviões da Fiel? Ainda segundo o pastor Eli Borges, que se investiu da missão de defensor da fé cristã, os foliões macularam a fé dos cristãos desfilando pelas ruas com esse samba enredo!

Ah, bom, o sacrilégio não foi cometido dentro de igrejas?

Não, os sambistas desfilavam cantando nas ruas decoradas para o Carnaval e no Sambódromo? Bom, então neste caso, não houve sacrilégio e nem desrespeito. O ilustre deputado federal precisa deixar de lado a Bíblia e ler a Constituição, na qual se afirma ser o Brasil um Estado laico.

Além disso, nem dentro do cristianismo existe uniformidade a esse respeito. É o caso dos chamados unicistas e de denominações cristãs como a Igreja de Deus do Sétimo Dia e as Testemunhas de Jeová. Na verdade, Borges deve ter um problema com a escola de samba Gaviões da Fiel desde quando, no ano passado, desfilou contra o racismo, fascismo e outras formas de opressão e incluiu no desfile um Bolsonaro gay.

Mesmo se a bancada evangélica cresceu e transformou uma parte do Congresso em igreja, com culto e orações, desrespeitando a separação entre o poder político e o chamado poder religioso, é bom assinalar não haver ainda no Brasil uma maioria evangélica suficiente para instaurar uma teocracia autoritária no modelo iraniano.

Qualquer bloco carnavalesco pode usar um enredo religioso, se quiser, sem que isso seja desrespeito. Mas é um desrespeito à Constituição ameaçar com processo um grupo carnavalesco que, usando do sincretismo religioso, canta o entendimento e a união entre as crenças, numa espécie de ecumenismo unindo as fés religiosas africanas com as indígenas e com a fé trazida da Palestina e Roma pelos colonizadores.

O Jornal da Bandeirantes, com Reinaldo Azevedo, se revoltou contra essa tentativa de controle religioso inclusive da festa popular do Carnaval, fazendo literalmente uma “pregação” contra a tentativa intolerante do deputado líder da bancada evangélica no Congresso de censurar e intervir na inspiração de poetas e compositores de samba-enredo numa festa popular.

Felizmente ainda não somos obrigados a cantar só o gospel dos evangélicos, mas o risco existe de muitos Eli Borges se transformarem numa pressão contra a liberdade de pensamento e de quererem impor seu culto, seu credo e suas canções beatas religiosas e sem inspiração, a maioria nem composta por brasileiros, mas traduzida do original norte-americano, não só dentro de suas igrejas, mas mesmo nas ruas, talvez numa tentativa de acabar com a alegria do povo no Carnaval. Como disse Azevedo, “os Gaviões da Fiel não invadiram nenhum templo religioso para cantar sua música, não condenam ninguém ao inferno, nem à morte e nem à danação”.

É importante também assinalar que embora a Bíblia seja considerada pelos cristãos como a transcrição da palavra de Deus, isso é um dogma religioso sem qualquer tipo de prova, que as pessoas podem aceitar pela fé ou simplesmente rejeitar. Por isso, por exemplo, o fato de a Bíblia condenar o homossexualismo não justifica que os evangélicos sejam homofóbicos dentro de nossa sociedade laica, e com isso se coloquem em confronto com a lei brasileira, que pune a homofobia e a apologia da homofobia.

Entretanto, quem quiser seguir literalmente o livro tido como sagrado deveria ter aplicado na vida real as palavras do apóstolo Paulo e do próprio Cristo, de que o cristão deve cumprir as leis do país, e não ter aceitado a ilegalidade pregada pela maioria de seus pastores e seus líderes, como Silas Malafaia e Cláudio Duarte, nas redes sociais, seguida da tentativa de golpe contra a Constituição, que culminou com o ataque do 8 de janeiro em Brasília. Fica aí o recado ao líder da bancada evangélica.

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro sujo da corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A rebelião romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de LisboaCorreio do Brasil e RFI.