Tuesday, 05 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

O “apocalipse esquerdista”, com o governo Lula 3, não aconteceu (nem acontecerá)

Foto: Ricardo Stuckert/PR

Durante a campanha eleitoral para o cargo de Presidente da República, realizada em 2022, as seguintes afirmações (e tantas outras) foram lidas e ouvidas de forma recorrente dentro e fora das redes sociais:

a) as crianças passarão a ser “propriedade do Estado” ao completarem cinco anos;

b) as igrejas serão fechadas;

c) rádios e TVs religiosas serão estatizadas;

d) a leitura da Bíblia será proibida;

e) as poupanças serão confiscadas;

f) o comunismo será implantado;

g) os imóveis com mais de 60 m2 serão divididos com os “sem-teto”;

h) o Brasil será transformado numa Venezuela;

i) caberá ao Governo decidir sobre a sexualidade das crianças;

j) o “kit gay” será amplamente distribuído em escolas;

k) mamadeiras eróticas serão distribuídas em creches;

l) as empresas demitirão milhões se a esquerda ganhar;

m) os feriados cristãos serão abolidos;

n) a bandeira colorida do movimento LGBT tremulará junto com a tradicional bandeira brasileira;

o) a pedofilia será legalizada;

p) será produzido um kit satânico para ampla distribuição entre os jovens;q)

os empresários deixarão o Brasil levando seus patrimônios;

r) serão iplantados banheiros unissex nas escolas e repartições públicas;

s) o PIX será extinto

Evidentemente, nada disso ocorreu. Nem ocorrerá. Somente as mentes mais delirantes, completamente desconectadas da realidade social, econômica, política e institucional, cogitariam de alguma dessas sandices, também conhecidas como “fake news”.

Aliás, as “fake news” (ou mentiras deslavadas), que alguns tentam absurdamente legitimar como manifestações da liberdade de expressão, figuram como uma das maiores ameaças ao convívio humano civilizado, respeitoso, tolerante, plural e democrático. Giuliano Da Empoli, no livro “Os engenheiros do caos”, destacou: “Para combater a grande onda populista é preciso, primeiro, compreendê-la e não se limitar a condená-la ou liquidá-la como uma nova ‘Idade da desrazão’, como faz George Osborne, o último chanceler do tesouro de David Cameron, no título de seu livro mais recente. O Carnaval contemporâneo [referência a festa que tem por hábito virar o mundo de cabeça para baixo] se alimenta de dois ingredientes que nada têm de irracional: a cólera de alguns meios populares, que se fundamenta sobre causas sociais e econômicas reais; e uma máquina de comunicação superpotente, concebida em sua origem para fins comerciais, transformada em instrumento privilegiado de todos aqueles que têm por meta multiplicar o caos”.

Impressiona o fato de que dezenas de milhões de brasileiras e brasileiros, aparentemente no pleno gozo das faculdades mentais e com um mínimo de cultura e informação, admitam que a vontade (“tresloucada”, quem sabe), a simples vontade de um Presidente eleito (“possuído pelo maligno”, provavelmente), seja capaz de implementar alguma dessas “medidas”.

O senhor Luís Inácio Lula da Silva e o seu grupo político (que não compreende todo o PT, menos ainda os apoiadores de sua última eleição) são portadores de inúmeros defeitos, mas não são a encarnação do mal (do Capiroto ou do Tinhoso) na face da Terra. Com muito favor, encarnam uma vertente das mais recuadas das esquerdas. Ouso afirmar que seriam classificados como uma das sociais-democracias mais atrasadas se atuassem no ambiente europeu. Curiosamente, nossa indigência intelectual e atraso civilizatório são tão acentuados que eles podem ser vendidos como representantes da extrema-esquerda ou algo parecido.

Também é profundamente preocupante como milhões de pessoas são capturadas pela manipulação mais elementar e rasteira possível no mundo da política. A realidade complexa e multifacetada é reduzida ao confronto simplista entre o bem e o mal. Trata-se de uma opção fácil e preguiçosa. O caminho da leitura, do estudo, da reflexão e da crítica é substituído, com entusiasmo, pela adesão a um conjunto de “verdades” postas e supostamente representativo do lado certo de uma guerra santa em curso.

No limite, com um verdadeiro exército de “soldados do bem contra o mal”, seria viável arregimentar sustentação política, em largas camadas da sociedade, para implementar qualquer aventura governamental, notadamente de cunho autoritário. Tudo em nome de combater o sistema que, em última instância, financia e instrumentaliza o movimento desses mesmos “homens e mulheres de bem”.

Enquanto os incautos brigam por seus mitos, os donos do Brasil literalmente deitam e rolam. Com expressões financeiras na casa dos bilhões e trilhões de reais, bem longe do noticiário da grande imprensa e do cotidiano da imensa maioria dos brasileiros, prosperam, entre outros: a) o rentismo alimentado pelos maiores juros do planeta; b) a perversa administração da dívida pública; c) subsídios de diversas naturezas; d) planejamentos tributários cuidadosamente construídos; e) sonegação tributária em níveis estratosféricos; f) tributação pautada na injustiça econômico-contributiva; g) uso intenso de paraísos fiscais; h) benefícios tributários para inúmeros segmentos socioeconômicos; i) operações compromissadas realizados pelo todo-poderoso e “independente” Banco Central; j) transações de swap cambial; k) corrupção política em níveis consideráveis; l) especulação imobiliária em larga escala; m) regressão econômica para um modelo agroexportador com enfraquecimento da industrialização; n) margens de lucros exorbitantes em vários setores das atividades comerciais e de prestação de serviços; o) negócios “estranhos” (como a venda e subsequente aluguel de gasodutos pela Petrobrás); p) privatizações lesivas aos interesses públicos e dos usuários e q) modelos de negócios viabilizadores de ganhos absurdos em detrimento das condições de vida da grande maioria da população (como a recente formação de preços pela Petrobrás).

Não custa registrar que todos os governos brasileiros, sem exceções e independentemente das colorações partidárias, administraram, com maior ou menor intensidade, esses mecanismos de implementação e manutenção de uma das sociedades mais injustas do mundo. As profundas mazelas sociais brasileiras, com destaque para as acentuadas desigualdades socioeconômicas, são decorrentes de instrumentos cuidadosamente planejados e institucionalizados dentro e fora das esferas governamentais.

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Aldemario Araujo Castro é advogado, mestre em Direito e procurador da Fazenda Nacional