Friday, 21 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Os comandantes das milícias do Rio não são os suspeitos de sempre

Em uma noite quente dos primeiros anos da década de 90 eu estava em um boteco em Ipanema, no Rio de Janeiro, bebendo chope com uma turma de repórteres. Um eles, um carioca que fazia cobertura sobre segurança pública, teve a ideia de levar para a mesa três de suas fontes, todos delegados da Polícia Civil. Entre eles havia um que estava às vésperas da aposentadoria. O nosso objetivo era encher os “cana dura” (policiais) de chope com a esperança de que afrouxassem a língua e dessem alguma informação que facilitasse a nossa vida no dia seguinte, durante a cobertura da guerra entre os traficantes nas favelas que havia se tornado assunto nacional. Depois de muitas rodadas de chope, o delegado que estava se aposentado fez uma reclamação: “Vocês jornalistas ficam enchendo a bola da bandidagem, escrevendo que são do crime organizado. Não é bem assim. Se tirar as emendas (ligações) dos bandidos com os policiais, os políticos e os ‘capas pretas’ (juízes), eles não são nada, apenas um bando de assaltantes”.

Lembrei-me dessa historinha por conta da manchete dos jornais de segunda-feira (31/10). A notícia era sobre o miliciano Peterson Luiz de Almeida, o Pet, que cumpria prisão temporária desde o final de agosto no presídio José Frederico Marques, em Benfica, na Zona Norte do Rio de Janeiro (RJ). Pet é acusado de contrabando de armas e de ser um dos dirigentes da milícia de Luís Antônio da Silva Braga, o Zinho, aquele que em 23 de outubro mandou incendiar 35 ônibus, quatro caminhões e um vagão de trem, causando prejuízo de milhões de reais e transtorno para milhares de pessoas da Zona Oeste do Rio. A prisão de Pet foi transformada de temporária (por um período de cinco dias, renováveis) em preventiva (90 dias, renováveis). Trocando em miúdos: ele não podia sair da cadeia. Mas, graças a um suposto erro de informação entre o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) e a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap), no domingo (30/10) Pet foi libertado e saiu pelo portão da frente do presídio – há muitas matérias sobre o caso disponíveis na internet. Atualmente, está sendo procurado pela polícia. O que realmente aconteceu será esclarecido pela investigação policial. Se for sacanagem, há dinheiro envolvido. E foi por este motivo que recentemente foi firmado um acordo entre o governador do Rio, Cláudio Castro (PL), e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, que tem como objetivo sufocar as milícias e as facções dos traficantes. A coluna dorsal do acordo é a montagem de uma estrutura que facilite, para os agentes da Polícia Civil e da Polícia Federal (PF), seguir o dinheiro que circula entre os bandidos. Os caminhos percorridos pelo dinheiro sujo vão mostrar as fronteiras entre a bandidagem e as polícias (Civil e Militar), o Poder Legislativo e o Judiciário.

Saber onde está a fronteira entre os criminosos e os poderes do Estado é fundamental para o sucesso de uma política séria de segurança pública. Nos dias atuais, no Rio de Janeiro, não se sabe onde ficam essas fronteiras. Elas desapareceram nas últimas quadro décadas como somatório de uma série de iniciativas erradas para conter o crime, como foi a intervenção federal na segurança pública do Estado do Rio de Janeiro em 2018, no governo do presidente da República Michel Temer (MDB). No dia 16 de fevereiro de 2018, comandadas pelo general Braga Netto, tropas de infantaria do Exército, apoiadas por tanques e helicópteros, assumiram pontos estratégicos no Rio. A intervenção durou 11 meses e 15 dias e custou aos cofres públicos R$ 3,11 bilhões. E os resultados positivos foram muito modestos. O que ficou na história da época foi que, em 14 de março de 2018, apenas um mês e alguns dias depois do início da intervenção, a vereadora Marielle Franco e o seu motorista Anderson Gomes foram metralhados. Em 16 de abril de 2018, publiquei o post A vereadora carioca pode ter sido executada por contrariar os interesses imobiliários das milícias. Meses depois da publicação do post foram presos dois milicianos acusados de terem executado a vereadora e seu motorista: Ronnie Lessa e Élcio Queiroz. O mandante do crime ainda é desconhecido. As polícias Civil e Federal seguem investigando o caso. Nas últimas três décadas aconteceram várias intervenções das tropas do Exército nas favelas e na periferia da cidade do Rio. Todas fracassaram. Entre os motivos pelos quais fracassaram, um deles é o que acabamos de conversar: não se sabe onde ficam as fronteiras entre os criminosos e o Estado.

Há outros dois motivos para explicar o caos na segurança do Rio que merecem ser citados. O primeiro são os acordos de segurança pública que existem entre o Brasil e o Paraguai. Eles precisam ser revistos, porque o perfil dos criminosos daquele país mudou. Nas duas últimas décadas, as quadrilhas paraguaias desapareceram e o seu lugar foi ocupado pelas grandes organizações criminosas brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro. O PCC e o CV montaram bases no Paraguai, onde estocam a cocaína vinda da Colômbia, do Peru e da Bolívia que abastece o mercado brasileiro e é levada para os países europeus através dos portos e aeroportos do Brasil. Além da cocaína, o PCC e o CV também organizaram o contrabando de armamento pesado dos Estados Unidos para o Paraguai e, de lá, para as favelas cariocas e paulistas. Há ainda uma aliança das duas organizações com os fabricantes de cigarros paraguaios que são contrabandeados para o Brasil, causando um enorme prejuízo para o Fisco e a saúde pública – há matérias na internet. Conheço profundamente a região, por onde circulo de dois em dois anos, desde 1983, coletando material para reportagens e livros, entre eles País-Bandido – Crime tipo exportação. Em agosto, assumiu um novo presidente do Paraguai, Santiago Peña Palacios, 44 anos. É uma oportunidade para aperfeiçoar e atualizar os acordos de segurança pública entre os dois países.

O segundo motivo que vou citar é o uso das Forças Armadas para fortalecer a segurança dos portos, aeroportos e fronteiras. Vão agir em parceria com as polícias civis, militares e a PF. O importante nessa história é que os serviços de inteligência das forças envolvidas troquem informações, a exemplo do que fizeram durante dois grandes eventos mundiais que aconteceram no Brasil, a Copa do Mundo, em 2014, e os Jogos Olímpicos, em 2016. Nessas duas ocasiões, a segurança pública funcionou como um relógio suíço, como diz um velho dito popular. Fechando a nossa conversa. Lembram da história que contei no início sobre tomar chope em Ipanema com colegas repórteres e delegados de polícia? Houve uma mudança do perfil das quadrilhas dos anos 90 para as de hoje. Uma delas foi o fortalecimento das milícias. Mas uma coisa não mudou. As “emendas” com os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário ainda são o ponto forte dessas organizações.

Reportagem originalmente publicada em “Histórias Mal Contadas”

Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.