Monday, 15 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1283

Berlinale ainda sem filme brasileiro na competição principal

(Foto:Berlinale Press Service)

Começou o 74º Festival Internacional de Cinema de Berlim – Berlinale e irá até 25 de fevereiro. Ainda em consequência da péssima política cultural do ex-presidente Jair Bolsonaro, que retirou apoio ao cinema, não há também neste ano filme brasileiro na grande categoria do Berlinale, a Competição Principal da qual participam 20 filmes de países diferentes.

Um destaque é para o cinema iraniano, mais uma vez enfrentando a opressão exercida pela teocracia islâmica fundamentalista do Irã. Os realizadores do filme My Favourite Cake, Maryam Moghaddam and Behtash Sanaeeha, tiveram seus passaportes retirados, foram proibidos de ir a Berlim participar da apresentação do seu filme no Festival, sendo ambos objeto de processo relacionado com a realização do filme.

O filme conta a história de uma mulher idosa, que ousa viver os seus desejos num país onde os direitos das mulheres são frequentemente restringidos.

Outro destaque foi a decisão da direção do Festival de Berlim, Berlinale, de retirar os convites de acesso ao festival, recebidos por dois deputados do partido da extrema-direita alemã.

O 74º Festival de Berlim é também o quinto e último festival em Berlim do diretor artístico Carlo Chatrian, o competente cinéfilo italiano, ex-crítico de cinema, que havia dirigido o Festival Internacional de Cinema de Locarno. Produtores, realizadores e artistas protestaram, em setembro, diante da incompreensível demissão de Chatrian pela ministra alemã de Cultura, Claudia Roth. Alguns vaticinam que, diante do escândalo provocado, o Festival de Berlim, também sujeito a cortes financeiros, poderá enfrentar boicotes e perder parte de sua importância, a partir de 2025. A nova diretora da Berlinale será a norte-americana Tricia Tuttle.

Filmes brasileiros em Berlim

São quatro os filmes brasileiros no Festival Internacional de Berlim. Para quem já esqueceu, o cinema brasileiro ainda é convalescente e está começando a se recuperar da falta de apoio, durante os quatro anos do governo Bolsonaro. Embora não esteja participando da competição principal, o Brasil participa do evento nas mostras Panorama, Forum Expanded, Geração e Encontros.

Betânia

(Foto: © Felipe Larozza / Salvatore Filmes)

Cena de Betânia – um dos filmes brasileiros no Festival de Berlim 2024 – https://www.berlinale.de/en/

A maranhense Diana Mattos é a principal atriz do filme Betânia, de Marcelo Botta, na mostra Panorama do Festival de Berlim.

Depois de perder o marido, a parteira Betânia, de 65 anos, é persuadida pelas filhas a deixar a sua aldeia remota. Ela se aproxima das dunas dos Lençóis Maranhenses, no norte do Brasil, e se aventura num novo começo.

Na mostra Forum Expanded será exibido o curta Quebrante, da realizadora Janaína Wagner. A partir da viagem de Erismar, professora aposentada e espeleóloga que percorre as cavernas, ruínas e fantasmagorias da Rodovia Transamazônica no Brasil, o filme mergulha fundo na história e no presente desse projeto infraestrutural, iniciado na ditadura militar.

Na Mostra Geração estará competindo o curta da realizadora Carolina Cavalcanti, Lapso, com Beatriz Oliveira e Juan Queiroz. Dois adolescentes da periferia de Belo Horizonte, no Brasil, se encontram enquanto cumprem medidas socioeducativas. Através das experiências partilhadas de repressão por parte das autoridades estatais, aproximam-se lentamente.

Enfim, na mostra Encontros, concorre o longa-metragem Cidade; Campo, da realizadora brasileira Juliana Rojas, contando histórias de pessoas que migram da cidade para o campo e vice-versa. Atuam no filme as atrizes Bruna Linzmeyer, Mirella Façanha e Fernanda Vianna.

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.