Wednesday, 24 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

Festival de Cinema de Berlim: menos político, com mais paetês e glamour

(Imagem: Divulgação)

Terminou a 74ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, saem seus diretores por cinco anos Carlo Chatrian e Mariette Rissembee. O traço principal da Berlinale, como é também chamado o Festival, sempre foi de uma seriedade bem alemã e com preocupações políticas e sociais, na escolha dos filmes.

O cinema brasileiro sempre se beneficiou desse clima. Presenciei a conquista do Urso de Ouro, no 48º Festival de Berlim com Central do Brasil, de Walter Salles, e me tornei assíduo, entrevistando, durante esses anos, realizadores e atores brasileiros e criticando seus filmes.

De certa forma, acompanhei a carreira de Carlo Chatrian, até domingo o diretor artístico do festival. Conheci Chatrian como diretor do Festival de Cinema de Locarno, onde sou assíduo há uns 30 anos. Por isso, fui dos muitos que se surpreenderam com a decisão da ministra alemã da Cultura, Claudia Roth, de provocar sua demissão.

O término desta Berlinale talvez tenha sido o mais político desde sua criação, com realizadores e atores premiados utilizando o momento de receber seu prêmio para fazer declarações sobre a situação em Gaza, provocando reações do próprio prefeito de Berlim, Kei Wegner, dizendo ter havido antissemitismo nas declarações.

O realizador norte-americano Ben Russell falou em genocídio e outros criticaram os bombardeios na Faixa de Gaza. Com isso, roubaram as luzes do Urso de Ouro conquistado pelo filme Dahomey, da franco-senegalesa Mati Diop.

Antes mesmo de toda confusão criada no sábado, na entrega de prémios da Berlinale, a ministra Claudia Roth já havia declarado que a nova fase da Berlinale deverá ter mais paetês e mais glamour no tapete vermelho. Em outras palavras, deverá ser menos político e mais people. Veremos se a nova diretora, a norte-americana Trícia Tuttle, irá seguir nessa linha.

Curta-metragem ganhou Menção Especial

O curta-metragem brasileiro Lapso, da realizadora mineira Carolina Cavalcanti, selecionado entre centenas para a mostra juvenil Geração e competindo com outros 12 filmes, recebeu Menção Especial do júri.

O filme conta a história de dois adolescentes da periferia de Belo Horizonte, cumprindo pena socioeducativa por terem praticado atos de vandalismo.

A realizadora tem deficiência auditiva, assim como a atriz, e seu filme se baseia também nessa experiência pessoal de surdez, além do problema social da juventude que vive na periferia das cidades. Lapso tem como atores Beatriz Oliveira e Juan Queiroz.

O júri explicou sua escolha num texto divulgado pelo Festival. “Este filme é uma história de amor poderosa, mas única, de dois adolescentes. O que realmente brilha é a capacidade de inspirar o espectador a ter empatia por dois personagens que têm circunstâncias e desafios muito diferentes. Junto com eles, embarcamos numa jornada de aprendizagem que proporciona um vislumbre íntimo da vida de duas pessoas que o mundo não teve tempo de compreender. O filme é verdadeiramente uma celebração de como a coragem de compreender pode ser imensamente poderosa e superar barreiras”.

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.