Friday, 19 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Fragmentos de paraíso na 47ª Mostra de Cinema de São Paulo

Alguns veem como diversão, outros, como objeto de crítica e análise, mas dependendo do recorte os documentários ou docu-dramas são a melhor janela para penetrarmos, através de uma câmera, na alma humana. E isso é um presente para quem acompanhou em 22 dias os 362 filmes inéditos de 96 países oferecidos pela 47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Faltam alguns dias para terminar e quem perdeu fique de olho, porque a Mostra deu a dica para os distribuidores do circuito comercial ou canais de streaming.

Como o israelense David Perlov, o lituano Jonas Mekas documentou sua vida em filmes-diários por mais de 70 anos, de 1949 quando chegou a Nova York depois de escapar da guerra e dos nazistas, até a morte em 2019. Este diário, Fragmentos do Paraíso, de KD Davison, revela como uma câmera Bolex ou Sony, o salvou no exílio, no desterro, na vingança contra os fascistas –a câmera como metralhadora, na solidão, na alegria, no desespero do reencontro com a mãe que não via há 25 anos.

“Acho que minha casa é o cinema”, ele diz, e quando a vida perde o sentido ele não se mata, mas tenta matar a câmera atirando-a no chão, “meu único amigo”. Nenhum dos dois morre, e Mekas segue documentando o dia a dia, criando filmes underground ao lado de Allan Guinsberg, Andy Warhol, Yoko, John Lennon, John Walker, Martin Scorsese “Não haveria cinema independente se não fosse por Jonas Mekas”, dizem. Com a câmera acoplada ao corpo, ele criou a arte de estar numa felicidade criativa, a arte de pescar a beleza no dia a dia, esses fragmentos de paraíso que sempre existem à nossa volta e insistimos em não ver.

“Estou celebrando a realidade”, ele ensina para quem imagina que ele apenas estivesse documentando a realidade. Este filme foi vencedor do prêmio de melhor documentário sobre cinema, na seção Venice Classics do Festival de Veneza.

Foi a câmera do jornalista chileno veterano Augusto Góngora, corajoso cronista dos crimes do regime de Pinochet no jornal Teleanálises, que registrou a realidade oculta nos canais oficiais. Tudo contado no livro “A Memória Proibida” e agora, quando Góngora foi diagnosticado com Alzheimer, no documentário A Memória Infinita, de Maite Alberdi. Os que têm memória têm coragem, ensina o documentário, e sua mulher atriz e ativista política Paulina Urrutia tenta recuperar para Góngora , com quem vive há 23 anos, seus livros, seus amigos, sua história de vida. O filme foi vencedor do Grande Prêmio do Júri da seção World Cinema Documentary Competition do Festival de Sundance.

É ainda a câmera de Mstlylav Chernov, e de um time de jornalistas também ucranianos encurralados na cidade de Mariupol, a arma que revela através da agência Associated Press as atrocidades da invasão russa na Ucrânia – todas as imagens negadas pelos russos que atribuem a montagens e fake news morte de pacientes num hospital arrasado por eles, incluindo crianças e uma mulher grávida. 20 Dias em Mariupol é um diário do horror da guerra, dos corpos pelas ruas, das valas comuns, da destruição. “Minha mente quer esquecer mas a câmera não deixa”, diz Chernov.

Os jornalistas tentam enviar as imagens colocando celulares nas janelas durante apagões causados pelos bombardeios, e conseguem. Depois tentam escapar de Mariupol o quanto antes pelo medo de serem apanhados pelos soldados russos que invadem a cidade. “Se os russos me pegam, vou ser obrigado a dizer que tudo o que filmamos era mentira, e o mundo não saberá verdade”, diz Chernov.

Conseguem escapar com a ajuda do chefe oficial de polícia que disfarça os jornalistas entre sua família no seu próprio carro, esconde as câmeras e os conduz até a Cruz Vermelha entre 2 mil carros que tentam fugir, entre 20 mil mortos. O policial corre um sério risco e no momento da entrega dos jornalistas agradece: “obrigado por contar o que acontece com a nossa cidade”.

O filme foi vencedor do Prêmio do Público na seção World Cinema Documentary do Festival de Sundance e do Prêmio Tim Hetherington no Festival de Documentários de Sheffield.

Exibido no Festival de Cannes, o documentário Anselm-O Barulho do Tempo de Wim Wenders, sobre os 50 anos de carreira de Anselm Kiefer, mostra a obsessão do escultor alemão pelos mitos da história – de Lilith aos heróis gregos. E foca na fixação de encarar de frente os anos do nazismo. Em uma de suas instalações, Kiefer se fotografa vestido com o uniforme da Wehrmacht do pai durante a guerra. A câmara de Wender mostra como Kiefer insiste em desvendar o filósofo alemão Martin Heidegger, que se filiou ao partido nazista em 1933 e aceitou ser reitor da Universidade de Freiburg pronunciando o discurso “A Autoafirmação da Universidade Alemã”, horrorizando os professores que tentavam boicotar o nazismo. E documenta como, ao mesmo tempo, Kiefer se fixa no poeta romeno Paul Celan, que diante do horror da internação num campo de concentração e do assassinato de seus pais, tenta resgatar detritos da memória nos versos, mas acaba se suicidando no rio Sena aos 49 anos, em 1970.

Dois uruguaios, César Charlone e Sebastían Bednarik, e um brasileiro, Joaquin Castro, acompanharam Fernando Haddad na campanha de 2018 em que o candidato à presidência da República rivalizava com um chegante, Jair Bolsonaro. Partido é uma interessante reconstrução do papel da imprensa que levou ao resultado final, e da reação civilizada de Haddad aos ataques, cuja eleição poderia ter evitado a catástrofe da eleição de Bolsonaro.

O vencedor do Urso de Ouro em Berlim foi o documentário sobre uma embarcação ancorada no rio Sena, Adamant, um centro psiquiátrico flutuante. Ali o cineasta Nicolas Philibert filmou No Adamant, ouvindo pacientes com transtornos mentais que tentam se manter na realidade com ajuda humanizada dos terapeutas e não escondem seus abismos. “Não gosto desse olhar”, diz um deles diante de sua própria fotografia. “Me lembra o hospital”. Diante da câmera de Philibert eles contam como se sentem sob o olhar dos outros, nós. “Talvez tenhamos rostos quebrados, as pessoas nos olham com curiosidade”

Não deixam de retratar a realidade, embora ficcionada, os docu-dramas da Mostra, como Maestro. Ao documentar e personificar a vida do maestro e compositor Leonard Bernstein, o ator hollywoodiano Bradley Cooper detalha a intimidade do ícone novaiorquino que morreu no mesmo edifício Dakota onde John Lennon foi assassinado. Mas isto não aparece no filme que acontece no recorte do relacionamento de Bernstein com Felicia Montealegre (a atriz Carey Mulligan), e com dúzias de rapazes, já que o maestro nunca escondeu que era gay. O docu-drama tem entre seus produtores Martin Scorsese e Steve Spielberg, e é uma produção da Netflix .

Outro que também utiliza atores é Mussum, o Films – já em cartaz. Ailton Graça faz o papel do comediante principal do grupo Os Trapalhões, e o diretor é o carioca Silvio Guidane. O filme retrata a vida de Antonio Bernardes Gomes, da carreira militar ao samba e à Mangueira, da pobreza ao sucesso nas telas. Junto com todos os elementos que fizeram sua história, Elza Soares, Alcione, Jorge Bem, Grande Othelo, Carlos Machado, Chico Anísio.

Estes, alguns exemplos dos filmes lançados na 47ª Mostra, este fragmento de felicidade a ser destrinchado.

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Norma Couri é jornalista.