Quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1374

O Agente Secreto e a crítica em confronto

(Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)

A recepção crítica ao filme O Agente Secreto (2025), dirigido pelo cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, configura um caso exemplar para a análise dos pressupostos normativos que orientam o discurso crítico cinematográfico contemporâneo. O filme tornou-se um marco histórico para o cinema nacional na temporada de premiações de 2025/2026, acumulando dezenas de honrarias globais.

O longa igualou o recorde do filme Cidade de Deus (Fernando Meirelles e Kátia Lund, 2002) com quatro indicações ao Oscar 2026: Melhor Filme; Melhor Ator (Wagner Moura); Melhor Filme Internacional; Melhor Direção de Elenco (Casting), em categoria inédita para Gabriel Domingues. Anteriormente, fez história ao ser o primeiro filme brasileiro indicado em três categorias principais do Globo de Ouro 2026, vencendo em duas: Melhor Filme em Língua não Inglesa, Melhor Ator em Filme de Drama (Wagner Moura), indicação de Melhor Filme de Drama. O filme teve sua estreia mundial na competição oficial do Festival de Cannes 2025 e foi o mais premiado da edição: Melhor Diretor, Melhor Ator (Wagner Moura), Prêmio FIPRESCI, Prêmio AFCAE.

Kleber é um dos principais cineastas brasileiros contemporâneos, atuando como diretor, roteirista, produtor, crítico e programador de cinema. Nascido e profundamente ligado à capital pernambucana, construiu uma obra marcada pela observação crítica das dinâmicas urbanas, sociais e históricas do Brasil, frequentemente tendo Recife como cenário e personagem central. Antes de se dedicar integralmente à realização cinematográfica, formou-se em jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco e consolidou uma reconhecida trajetória como crítico e curador, escrevendo para importantes veículos e atuando como programador de cinema.

No cinema, destacou-se inicialmente com curtas-metragens premiados e, a partir de O som ao redor (2012), alcançou ampla aclamação internacional. Seus longas seguintes, Aquarius (2016), Bacurau (2019) e Retratos fantasmas (2023) foram exibidos e premiados nos maiores festivais do mundo, incluindo Cannes, onde venceu o Prêmio do Júri e, posteriormente, o prêmio de Melhor Diretor. Reconhecido por um estilo autoral que mescla crítica social, memória, resistência e hibridismo de gêneros, o cineasta é uma figura central na projeção internacional do cinema brasileiro, combinando engajamento político, rigor estético e forte diálogo com o público.

A polarização das avaliações a respeito do filme O Agente Secreto, longe de constituir mera divergência de gosto, evidencia tensões estruturais entre diferentes concepções de cinema político, de articulação narrativa e de função crítica. Este artigo examina como a obra em questão opera como dispositivo de fricção que expõe os limites interpretativos da crítica, revelando suas expectativas frequentemente não declaradas sobre o que deveria constituir um filme politicamente engajado e esteticamente coerente.

O filme é ambientado em Recife, no ano de 1977, durante o período da ditadura civil-militar brasileira. A narrativa acompanha Marcelo, ex-professor universitário que busca reconstruir sua vida após experiências de perseguição política e perda familiar. A estrutura narrativa se caracteriza pela fragmentação temporal, pela multiplicação de linhas dramáticas aparentemente desconexas e pela alternância entre registros diversos: o cotidiano burocrático, o Carnaval, manifestações de violência abrupta, elementos de humor grotesco e referências a lendas urbanas como a Perna Cabeluda.

Essa construção formal recusa deliberadamente os protocolos convencionais do thriller político e do drama histórico, pois a ditadura não é apresentada como sistema inteligível a ser explicado pedagogicamente, mas como atmosfera difusa que permeia gestos cotidianos, relações afetivas e espacialidades urbanas. A opressão se manifesta menos através de grandes eventos do que por meio de sua incorporação à experiência sensorial e afetiva das personagens. O desfecho elíptico, que evita a resolução narrativa convencional, reforça essa recusa ao fechamento interpretativo.

A crítica favorável identifica nessas escolhas estéticas uma poética deliberada da memória marcada por lacunas e ruídos. Segundo essa perspectiva, a fragmentação narrativa e a coexistência de registros heterogêneos – o erótico, o cômico, o violento, o absurdo – não constituem falhas de articulação, mas procedimentos formais coerentes com a representação de uma experiência histórica atravessada pela opressão. O filme não seria “sobre” a ditadura no sentido de um objeto externo a ser analisado, mas uma obra atravessada por ela, incorporando à sua própria forma a complexidade contraditória da vida social sob regime autoritário.

A vertente crítica que manifesta reservas, embora reconheça qualidades específicas, como a sequência de abertura no posto de gasolina, elogiada por seu domínio da sugestão, identifica problemas de excesso, desarticulação entre linhas narrativas e mudanças abruptas de tom. Essas leituras frequentemente acusam o filme de diluir seu impacto dramático através de diálogos excessivamente informativos que explicitam o que anteriormente era apenas sugerido. Além disso, apontam para uma suposta simplificação de conflitos históricos e construção esquemática de antagonistas, o que comprometeria tanto a densidade psicológica quanto a inteligência política da obra.

A análise detida dessas reservas revela pressupostos normativos raramente explicitados. As críticas negativas parecem operar a partir de expectativas específicas sobre o que deveria ser um cinema político: clareza expositiva, coesão narrativa, eficácia pedagógica e precisão historiográfica. Ao cobrar articulação linear, vilões psicologicamente complexos e conflitos bem delimitados, parte significativa da crítica pressupõe que o filme deveria aspirar à forma do thriller político clássico ou do drama histórico convencional.

Essa postura converte escolhas estéticas deliberadas em falhas técnicas. A fragmentação, o excesso, a opacidade, procedimentos formais centrais à poética do filme, são frequentemente tratados como deficiências que só seriam legítimas se explicitamente marcadas como experimentalismo. Estabelece-se assim uma hierarquia implícita em que determinadas convenções narrativas – linearidade, transparência causal, fechamento dramático – são naturalizadas como padrão de qualidade, enquanto desvios desse padrão exigem justificação especial.

Similarmente, a avaliação política revela um modelo restritivo de engajamento cinematográfico, pois ao exigir maior complexidade ideológica e precisão histórica, certos críticos adotam uma concepção de cinema político ancorada na racionalidade discursiva e na explicação analítica. O filme, contudo, opera através da experiência sensível da opressão, apresentando o poder como presença difusa, frequentemente grotesca, mais próxima do abuso cotidiano que da elaboração doutrinária. A crítica que interpreta isso como empobrecimento político reafirma um modelo em que a força estética e afetiva é subordinada à clareza analítica, ignorando que a experiência histórica da repressão frequentemente se caracteriza justamente pela opacidade, pela fragmentação e pela coexistência contraditória de registros diversos.

Outro aspecto revelador é a hierarquização que subordina imagem, ritmo, textura sonora e humor à primazia do roteiro. Quando a riqueza sensorial do filme é tratada como ornamento ou exotismo, evidencia-se um viés literário persistente na crítica cinematográfica, pouco disposta a aceitar que o sentido possa emergir do atrito entre elementos heterogêneos e não da organização linear da narrativa escrita.

A oposição recorrente entre a sequência inicial, celebrada por sua sutileza, e o restante do filme, acusado de excesso explicativo, pressupõe uma unidade estilística ideal que a própria obra parece questionar. A alternância entre silêncio e verborragia, entre sugestão e explicitação, pode ser lida não como inconsistência estilística, mas como reflexo formal de uma sociedade sob vigilância, na qual certas verdades circulam apenas obliquamente enquanto outras são repetidas até a saturação. Essa alternância constituiria, portanto, uma estratégia formal coerente com o objeto representado, e não uma falha de execução.

A insistência crítica em responder definitivamente à pergunta “quem é o agente secreto?” sintetiza o desejo de fechamento interpretativo. A revelação irônica de que o único agente secreto seria uma personagem fictícia de um filme francês funciona como comentário metaficcional central, já que não existe herói claro, missão definida ou triunfo narrativo. O que existe é a sobrevivência precária de indivíduos comuns, envolvidos em redes de medo, solidariedade e acaso.

A crítica que busca um núcleo estável de sentido frequentemente ignora essa recusa programática do fechamento, interpretando como deficiência narrativa o que constitui princípio formal deliberado. Essa expectativa de resolução definitiva revela uma concepção instrumental da narrativa cinematográfica, segundo a qual o filme deveria fornecer respostas claras às questões que levanta, oferecendo ao espectador uma posição confortável de domínio interpretativo.

O Agente Secreto funciona não apenas como objeto artístico a ser avaliado, mas como dispositivo que testa os limites e pressupostos do próprio campo crítico. A obra provoca porque se recusa a atender às expectativas dominantes de clareza, equilíbrio e inteligibilidade linear. A recepção crítica, ao reagir a essa recusa, expõe suas próprias normas frequentemente naturalizadas e suas resistências a procedimentos formais que desafiam convenções estabelecidas.

O valor analítico do filme reside precisamente em sua capacidade de tensionar o discurso crítico, obrigando-o a confrontar suas categorias de avaliação. Ao retratar um passado autoritário através da ambiguidade, do excesso e do grotesco, a obra não apenas revisita a história brasileira, mas problematiza, no presente, os modos pelos quais ainda tentamos compreendê-la criticamente. A polarização da recepção não indica, portanto, simplesmente a existência de um filme controverso, mas a presença de uma obra que funciona como espelho invertido, pois ao ser julgada, expõe os critérios mesmos do julgamento.

Essa análise da recepção crítica revela a necessidade de reflexividade metodológica permanente no exercício da crítica cinematográfica, pois os pressupostos normativos que orientam a avaliação – expectativas sobre clareza narrativa, coesão formal, pedagogia política – devem ser explicitados e problematizados, reconhecendo-se que constituem construções historicamente situadas e não critérios universais de excelência. O desconforto provocado pelo filme de Mendonça Filho em parte significativa da crítica é, nesse sentido, sintoma produtivo, indica o ponto em que as categorias estabelecidas encontram seus limites, abrindo espaço para a elaboração de novos instrumentos conceituais mais adequados à compreensão de obras que operam fora dos protocolos convencionais.

Referências:

https://www.omelete.com.br/filmes/criticas/agente-secreto-wagner-moura

https://www.adorocinema.com/filmes/filme-1000009761/criticas/espectadores/

https://piaui.folha.uol.com.br/quem-e-o-agente-secreto/

https://www.planocritico.com/critica-o-agente-secreto-2025/

https://oca.observatorio.uff.br/?p=8587

https://blog.lumine.tv/uma-analise-de-o-agente-secreto/

https://veja.abril.com.br/cultura/a-critica-negativa-que-fez-o-agente-secreto-perder-pontos-no-rotten-tomatoes/

https://www.nytimes.com/2025/11/26/movies/the-secret-agent-review.html

https://diplomatique.org.br/opacidade-dos-trapos-e-da-morte-em-o-agente-secreto/

https://www.lefigaro.fr/cinema/notre-critique-de-l-agent-secret-bons-baisers-de-recife-20251215


***

Ramsés Albertoni é professor de Artes, Pesquisador de Pós-doutorado em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF), Pesquisador do Grupo de Pesquisa Arte & Democracia.