Thursday, 25 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

Ao vencedor, as patadas

Um jornalista diz que outro é corrupto, golpista, pessoa de má índole, perverso, indecente, pedófilo, diuturnamente dedicado, desde muito antes de ter nascido, à promoção das elites em detrimento da população trabalhadora e empobrecida. Além do mais, foi ator pornográfico, tem um vizinho que não gosta dele e seu cachorro certa vez já foi visto mancando, o que pode indicar maus tratos.

O alvo das acusações entra na Justiça, prova que foi caluniado, injuriado e difamado e ganha uma indenização. Aí é atacado por esmagar a liberdade de imprensa e sufocar economicamente seus adversários.

Este colunista acha que os dois lados estão errados: um, por levar a paixão política ao campo dos ataques pessoais, achando que liberdade de imprensa significa imunidade à lei; outro, por pedir indenização em caso de ofensa à honra. Honra não tem preço: uma ação de indenização, por maior que seja seu resultado em dinheiro, estipula o preço pelo qual a honra atingida é avaliada. Se alguém acha que sua honra foi atingida, a reparação exige uma queixa-crime. Não é questão de dinheiro: é questão de demonstrar que houve um crime e puni-lo.

De qualquer forma, é preciso ter claro que liberdade de imprensa se refere à livre expressão de opiniões, e não se estende a insultos nem a violações de outras normas legais. Não há lugar no mundo em que uma pessoa tenha assegurada a liberdade de gritar “fogo” num recinto lotado e fechado. Não há lugar no mundo em que uma empresa possa anunciar determinadas medidas sem antes informar a Comissão de Valores Mobiliários ou entidades equivalentes. Não há lugar no mundo em que uma marca possa ser utilizada por produtos da mesma área, sejam ou não lucrativos, sejam ou não destinados a desmoralizar as atividades da empresa que é a dona da marca, sejam ou não apenas uma brincadeira.

E, especialmente, não há lugar no mundo em que as pessoas se juntem impunemente em bandos, uma repetindo e reforçando as informações da outra – sabendo de antemão que são falsas – com o objetivo de tentar desmoralizar colegas que discordam de suas posições políticas ou se recusem a contratá-los por algum motivo.

O restante é marola: campanhas de solidariedade, arrecadação de fundos, abaixo-assinados, queixas contra o poderio econômico. Contrariando o bom jornalismo, são polêmicas que geram muito calor e pouquíssima luz.

 

Informação?

Um dos mais importantes acontecimentos da atualidade está sendo tratado com grande superficialidade nos meios de comunicação: a extração de petróleo e gás de xisto nos Estados Unidos, com novas tecnologias de alta produtividade e baixo custo. A produção de combustíveis avança em alta velocidade e já derrubou consideravelmente o preço da energia. Os americanos voltam a investir em indústria (até Pittsburgh, que tinha sido abandonada pelos empresários da siderurgia, renasce com a produção de aço). Fábricas americanas instaladas na China, no México, na região dos tigres asiáticos, retornam à base. E empresas não americanas de grande porte, como a chinesa Lenovo (herdeira dos computadores pessoais da IBM), passam a produzir nos Estados Unidos. Para outros países, é dificílimo competir com indústrias que dispõem de energia abundante e muito mais barata e desfrutam de infraestrutura pronta para funcionar.

Não são informações secretas; também não deixaram de ser publicadas. Mas a análise do que está ocorrendo não foi feita até agora pelos meios de comunicação. Por exemplo, a redução da importância do petróleo do Oriente Médio para o Ocidente (países como Arábia Saudita e Emirados terão de buscar novas fontes de divisas; Iraque e Irã, embora tenham outras fontes e sejam altamente viáveis, perdem boa parcela de sua receita). Ou, o que nos atinge diretamente, entrou em jogo a viabilidade do pré-sal. É mais caro, muito mais caro, extrair petróleo da camada de pré-sal do que buscá-lo em rochas superficiais saturadas de combustível. Pode valer a pena, em termos geopolíticos (que provavelmente estão sendo estudados pelo governo brasileiro); em termos apenas econômicos, nas condições atuais, os riscos do investimento cresceram.

Outros fatores são tratados como banais pelos meios de comunicação, e não são banais. Convergem para transformar a energia cara em coisa do passado. O carro elétrico, hoje, ainda é caro; mas há muita gente trabalhando para que ganhe posição no mercado. A energia dos ventos cresce de importância (inclusive no Brasil). Muito dinheiro e talento está sendo investido na busca da energia do hidrogênio – gerada a partir da água e que, uma vez usada, volta a ser água.

A única explicação para o tratamento pouco profundo dispensado a estes fatores é a falta de percepção da imprensa. Existe gente especializada no tema (inclusive na Petrobras, inclusive na Agência Nacional de Petróleo, inclusive nas boas universidades brasileiras), existem publicações, fonte é o que não falta. O que falta é pauta; o que falta é disposição de não ser surpreendido por uma modificação na economia internacional que afetará, para o bem e para o mal, todos os brasileiros.

 

Investigação?

César Maia é político e tem seus interesses eleitorais. Era prefeito do Rio na época da construção do Estádio João Havelange, o Engenhão, e certamente não está gostando de assistir à avalanche de más notícias sobre a obra. Mas é também inteligente, bom analista, e tem demonstrado capacidade de encontrar novos aspectos em diversas situações que pareciam definidas. Merece ser ouvido.

Na opinião de Maia, há uma ligação entre a concessão do Estádio do Maracanã e os problemas do Engenhão. Afirma que, no estudo de viabilidade da concessão do Maracanã, salienta-se a necessidade econômica de que dois grandes clubes cariocas usem o estádio com exclusividade. O Fluminense e o Flamengo tinham assinado contrato de uso do Engenhão por dois anos. O Vasco tem São Januário. O Botafogo é o concessionário do Engenhão. E quem jogaria no Maracanã? O Olaria? E por que o clube deixaria seu estádio na rua Bariri para pagar aluguel num portentoso Maracanã que é grande demais para sua torcida?

Maia lembra que o prefeito carioca Eduardo Paes disse na TV que interditou o Engenhão antes mesmo de ver o relatório. E garante que o trecho com problemas poderia ser consertado com o bloqueio de, no máximo, 10 mil lugares – sem interdição e com a possibilidade de público de até 35 mil pessoas sentadas. Grosso modo, a capacidade do Estádio do Pacaembu, em São Paulo.

Correto, incorreto? Nada que uma boa reportagem não possa mostrar. Basta colocar bons repórteres por alguns dias buscando fatos. Se os meios de comunicação acharem que isso é caro demais, é sinal de que se tornaram inviáveis de vez.

 

Chá de Covas

A Câmara Municipal de São Paulo, num raríssimo momento de trabalho, mostrou a que veio: veio para tentar mudar o nome do tradicional Viaduto do Chá, cartão postal da cidade, para o aberrante “Viaduto do Chá Mário Covas”. Em poucos anos, se concretizada a bobagem, a população pensaria que Mário Covas foi algum rei iraniano, como o Xá Reza Pahlevi. E a canhestra tentativa de homenageá-lo mais uma vez (já existe em São Paulo o Rodoanel Mário Covas, já existe um Parque Mário Covas) acabaria por torná-lo desconhecido.

O fato é que a legislação municipal proíbe a mudança de nome de ruas, largos,praças, etc., exceto em três casos: existência de nomes iguais em logradouros diferentes, ambiguidade na identificação ou nome que, por alguma razão, possa causar constrangimentos aos moradores. No caso do Viaduto do Chá, a alteração viola a lei. Ponto final. O nome não é ambíguo, não existe outra via pública com o mesmo nome, os moradores não estão constrangidos – até porque não há moradores num viaduto. A propósito, alguma informação sobre isso já foi divulgada pela imprensa? Se foi, este colunista não a viu.

Um assíduo leitor desta coluna faz um comentário ácido e correto sobre o trabalho dos meios de comunicação ao acompanhar o caso: “A imprensa em peso, com raras exceções, limita-se ao papel habitual de papagaio letrado: registra fielmente a opinião deste ou daquele, mas silencia quanto ao fato de a lei proposta violar outra em vigor, como se isto fosse a coisa mais natural do mundo”.

 

Nóis falemo Portingrish

Placa de sinalização bilíngue no novo Estádio da Fonte Nova, em Salvador:

“Saída” – “Entrace”

“Saída” em português, e a tradução em inglês. Só que “entrance” quer dizer “entrada”, não saída. E a grafia certamente não é “entrace”.

 

Eles fala Ameriguese

Da lata de Coca-Cola:

“Quanto mais Tokio melhor”.

Eta, língua esquisita! Se é português, deveria ser Tóquio. Se é inglês, deveria ser Tokyo.

E pensar que o pessoal da empresa vai aos Estados Unidos toda hora!

 

Como…

De um grande portal noticioso, ligado a um jornal de circulação nacional:

** “Índia quebra patente de remédio para tratar câncer da (empresa X)”

E a gente nem sabia que uma empresa podia contrair a insidiosa moléstia!

 

…é…

De um grande jornal impresso, de circulação nacional, em reportagem sobre os gastos de publicidade do Governo paulista:

** “De 2009 a 2012 (…) a administração direta pagou R$ 710 milhões – média de R$ 117,5 milhões”.

Se não nos falha a calculadora, 710 dividido por 4 dá 177,5. Agora, qual informação está certa: a dos R$ 710 milhões em quatro anos, que dá R$ 177,5 milhões por ano, ou a dos R$ 117,5 milhões por ano, que daria R$ R$ 470 milhões em quatro anos?

 

…mesmo?

De um grande portal noticioso:

** “Na ocorrência, sete pessoas morreram e duas foram baleadas”

A frase permite imaginar que as duas pessoas baleadas não estão entre as sete que morreram. E estas sete terão sido assassinadas por facas, estiletes, pauladas?

 

A não notícia

Na foto, um rapaz branco torcendo uma corrente em torno do pescoço de um negro. A matéria informa que o próprio branco, um rapaz de 25 anos, neonazista, adepto da violência, publicou a foto no Facebook. Título: “Imagem de neonazista enforcando negro com corrente em Belo Horizonte provoca revolta”.

A dúvida, que a notícia não esclarece: o jovem negro que procurava escapar do enforcamento morreu? Está vivo? De que maneira conseguiu livrar-se?

Em suma, que é que aconteceu?

 

E eu com isso?

E chega de violência. Vejamos a boa vida (ao menos em público) das celebridades maiores, celebridades menores, gente conhecida.

** “Namorados, Mister Goiás e Miss Piauí World driblam nervosismo dos concursos”

** “Sienna Miller faz careta para fotógrafos”

** “Débora Nascimento pedala pela Barra”

** “Katy Perry se encontra com atriz de Glee em passeio de bike”

** “Pe Lu corta o cabelo”

** “Harry Styles quer comprar casa em Malibu”

** “Raica aparece sem umbigo em ensaio”

** “Ryan Gosling tem ataque de ciúme por causa da namorada, Eva Mendes”

** “Manoel Carlos passeia no shopping com a mulher”

** “Antonelli posa com decotão para revista”

** “Brooklyn Beckman é flagrado tomando sorvete com a gatinha”

Tomar sorvete com a namoradinha deve ser um crime, tanto que o filho de Victoria e David Beckham foi flagrado, apanhado em flagrante, clicado em pleno ato. Tadinho, tão jovem!

 

O grande título

Há certos tituleiros que descobrem novidades onde ninguém as imagina. Veja como se esquenta uma notícia:

** “Bombas atômicas podem devastar todo o mundo”

E há tituleiros maliciosos, que se divertem com fatos exóticos. Por exemplo, noticiando uma participação de Thammy, filha de Gretchen, na novela das 9:

** “Thammy vira mulher gostosa para se infiltrar na Turquia”

Mas, como diz o provérbio, duas cabeças pensam melhor do que uma. Temos duas versões, de fontes diferentes, para o mesmo fato, as mudanças no tradicional O Estado de S. Paulo. A primeira é do jornalista Tão Gomes Pinto:

** “Confirmado: Passaralho baixa no Estadão e leva vinte”

A segunda é do próprio jornal:

** “Estado estreia novo projeto gráfico dia 22”

Como comentou brilhantemente um leitor, tucanaram as demissões.

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Carlos Brickmann é jornalista, diretor da Brickmann&Associados Comunicação