
(Foto: Tânia Rego/Agência Brasil)
O Sudeste brasileiro voltou a enfrentar enchentes de grandes proporções. Em Minas Gerais, cidades como Juiz de Fora e Ubá registraram volumes de chuva que resultaram em dezenas de mortos e milhares de desabrigados. O cenário remete à tragédia ainda recente do Rio Grande do Sul, onde a catástrofe de maio de 2024 deixou um rastro de destruição cujos impactos sociais e econômicos ainda estão sendo dimensionados.
As enchentes que periodicamente paralisam as cidades brasileiras não são desastres naturais no sentido estrito do termo. Elas expressam, antes de tudo, a forma como o espaço urbano foi historicamente produzido no país: um modelo de urbanização excludente, financeirizado e ambientalmente insustentável, cujas contradições emergem com força a cada temporada de chuvas.
De acordo com o Censo 2022 do IBGE, cerca de 87,4% da população brasileira vive em áreas urbanas. Desse total, quase 4 milhões de pessoas residem em áreas classificadas como de risco para deslizamentos ou inundações (2023). O dado não revela apenas vulnerabilidade física, mas a materialização espacial da desigualdade.
O discurso dominante costuma atribuir as enchentes à “chuva acima da média” ou aos “eventos extremos” associados às mudanças climáticas. Embora o aquecimento global intensifique a frequência e a intensidade das precipitações, reduzir o problema ao fator climático despolitiza a questão urbana e desloca o debate das escolhas estruturais que moldaram as cidades.
Essa operação de despolitização não ocorre apenas no campo das decisões administrativas ou do planejamento urbano. Ela é também reforçada pela forma como as enchentes são narradas publicamente. A cobertura midiática dominante tende a enquadrar esses episódios como eventos essencialmente climáticos, enfatizando volumes recordes de precipitação, imagens de impacto e relatos dramáticos de perdas individuais. Embora tais elementos componham a dimensão concreta da tragédia, a centralidade conferida a eles desloca o debate das condições estruturais que tornam o desastre recorrente.
A lógica narrativa é previsível: helicópteros sobrevoam bairros alagados, apresentadores destacam a “força da natureza”, repórteres contabilizam prejuízos materiais. O fenômeno aparece como exceção, como ruptura inesperada da normalidade urbana. Pouco se investiga, contudo, a história da ocupação do solo naquela área, as alterações no leito dos rios, a impermeabilização progressiva ou a execução orçamentária destinada à prevenção. A ênfase recai sobre o momento do colapso, não sobre o processo que o produziu.
Essa atribuição de protagonismo à chuva pode ser observada nas manchetes publicadas durante os episódios recentes em Minas Gerais: O portal Metrópoles estampou que a “Chuva deixa mortos em Ubá (MG); vídeos mostram caos e destruição” (BATISTA, 2026), enquanto o G1 publicou: “Tragédia vista de cima: fotos mostram destruição causada pelas chuvas na Zona da Mata” (TRAGÉDIA, 2026).
O que chama a atenção na primeira manchete é que o sujeito da ação é a “chuva”, é ela quem “deixa mortos”. A natureza aparece como agente ativa, dotada de força causal direta. O espaço urbano e suas formas de produção desaparecem da frase. Não há referência à ocupação do solo, ao planejamento territorial, à infraestrutura de drenagem ou à execução orçamentária. A responsabilidade se dissolve na meteorologia. Já na segunda manchete, a “tragédia vista de cima”, privilegia o impacto visual da destruição sob a perspectiva panorâmica de enxergar a cidade em paisagem devastada, quase abstrata. O foco desloca-se da história da produção daquele território para a estética do desastre. A enchente converte-se em espetáculo de imagens.
Em ambas as formulações, o evento aparece como ruptura inesperada da normalidade urbana, o que se enfatiza é o momento do colapso, não a longa duração das escolhas territoriais que o antecederam.
Assim sendo, a imprensa transfere à natureza e relega a segundo plano as escolhas políticas que permitiram a ocupação do leito maior dos rios ou a supressão de áreas de drenagem natural. A cidade surge como vítima de um evento externo, quando, na realidade, foi construída de maneira a transformar ciclos hidrológicos previsíveis em catástrofes sociais.
Ao naturalizar o desastre, o discurso midiático contribui para consolidar a percepção de inevitabilidade. A enchente passa a ser vista como fatalidade climática desvinculada da forma como ocorreu a apropriação do solo, como o orçamento foi executado ou como o planejamento urbano foi capturado por interesses privados. Essa operação protege o modelo de desenvolvimento urbano de questionamentos profundos, tratando a enchente como inevitável para blindar o modelo de cidade que a produz.
As enchentes não resultam apenas da chuva que cai, mas da forma como o território foi organizado ao longo do tempo. A geógrafa Odete Seabra, no documentário Entre Rios, afirma que “a urbanização ocupou o lugar do rio e a enchente é coisa que nós inventamos”. A provocação é direta: trata-se menos de um fenômeno meteorológico e mais de um fenômeno socioambiental historicamente produzido.
O padrão de ocupação urbana reflete a herança de um urbanismo periférico, no qual a população de baixa renda foi empurrada para várzeas, encostas e margens de rios. Essas áreas, frequentemente desprovidas de infraestrutura adequada, tornam-se as primeiras a sofrer com alagamentos. Ao mesmo tempo, os investimentos públicos tendem a se concentrar em regiões centrais e valorizadas, reproduzindo um ciclo persistente de desigualdade territorial.
Esse processo não é casual. Ele está profundamente ligado à lógica de valorização imobiliária e à financeirização do espaço urbano. A cidade, tratada como ativo econômico, prioriza projetos de alto retorno, como condomínios fechados, shopping centers, grandes obras viárias, em detrimento de políticas estruturais de adaptação climática.
Os efeitos dessa lógica tornam-se evidentes na fragilidade das políticas preventivas. O caso recente de Minas Gerais é ilustrativo: a gestão do governador Romeu Zema executou menos de 5% do montante previsto para ações de prevenção e mitigação de danos causados pelas chuvas (2026). A distância entre planejamento formal e execução orçamentária evidencia que a prevenção raramente ocupa posição central na agenda pública.
Muitas vezes, o que classificamos como “área de inundação” corresponde, na realidade, ao leito maior do rio, espaço integrante de sua dinâmica natural, ocupado pela água apenas em períodos de cheias intensas. Ao permitir construções nessas áreas, o poder público ignora essa função ecológica e expõe populações e infraestruturas a riscos previsíveis. Não se trata de um comportamento inesperado da natureza, mas de uma escolha territorial equivocada. Em termos claros: não é o rio que invade a cidade; é a cidade que, ao ignorar o curso da natureza, invadiu o espaço do rio.
Se as enchentes são produzidas por um modelo urbano que transforma o território em mercadoria, sua recorrência como “tragédia natural” também depende da forma como são narradas. Ao atribuir protagonismo à chuva e reduzir o evento ao instante do colapso, parte da cobertura jornalística contribui para obscurecer a historicidade da produção do risco.
A imprensa não cria a desigualdade territorial, mas pode reforçar sua naturalização ao enquadrar o desastre como fatalidade climática. Ao deslocar o foco das escolhas políticas, orçamentárias e imobiliárias que estruturam a cidade, o discurso midiático ajuda a consolidar a ideia de inevitabilidade. Questionar esse enquadramento não significa negar a dimensão climática das chuvas intensas, mas recolocar o debate no campo das responsabilidades públicas e da produção social do espaço. Enquanto a cidade for tratada prioritariamente como mercadoria, e não como bem comum, a vulnerabilidade socioambiental continuará a ser distribuída de forma desigual, recaindo sobre aqueles que menos se beneficiam do crescimento urbano, e o modo como essa realidade é narrada publicamente seguirá sendo parte central da disputa sobre como compreendê-la e transformá-la.
Bibliografia
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Moraes, André Fleury . Gestão Zema usou menos de 5% do previsto por ano para contenção de encostas em Minas Gerais. Folha de S. Paulo, São Paulo, 27 fev. 2026. Disponível em:
https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/02/gestao-zema-usou-menos-de-5-do-previsto-por-ano-para-contencao-de-encostas-em-minas-gerais.shtml. Acesso em: 27 fev. 2026.
Schuquel, Thayná . Chuva deixa mortos em Ubá (MG); vídeos mostram caos e destruição. Metrópoles, 2026. Disponível em: https://www.metropoles.com/minas-gerais/chuva-deixa-mortos-em-uba-mg-videos-mostram-caos-e-destruicao. Acesso em: 4 mar. 2026.
TRAGÉDIA vista de cima: fotos mostram destruição causada pelas chuvas na Zona da Mata. G1, Belo Horizonte, 26 fev. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2026/02/26/tragedia-vista-de-cima-fotos-mostram-destruicao-causada-pelas-chuvas-na-zona-da-mata.ghtml. Acesso em: 4 mar. 2026.
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Mauricio Alfredo é Mestre em Educação, Professor de Geografia, Geopolítica e Atualidades no Ensino Médio e Superior.
