Terça-feira, 6 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1408

Parem de usar “Malhação” para atacar Mário Frias

(Foto: Yaroslav Shuraev/Pexels)

 

O colunismo brasileiro tem vários vícios. Desde que o livro “Precisamos falar sobre o Kevin” foi lançado, quase todo dia tem alguma coluna afirmando que precisamos falar sobre alguma coisa. Precisamos mesmo?

Um outro exemplo é a frase eternizada por James Carville, marqueteiro de Bill Clinton, nas eleições de 1992: “É a economia, estúpido”. A referência é tão antiga e restrita a jornalistas, que não é raro que leitores se ofendam ao lerem um título em que, aparentemente, são chamados de idiotas.

Tempos mais recentes trouxeram um novo vício. Desde que Mário Frias deixou sua carreira artística para se tornar um político bolsonarista, não passa uma semana sem que seu nome venha acompanhado de “ator de Malhação”, “galã de Malhação” e outras variantes aparentemente irônicas.

Mas quem é Mário Frias? Produtor da biografia cinematográfica do pai de Flávio Bolsonaro, o deputado federal poderia tranquilamente transformar a vida de seu próprio pai em um longa-metragem.

Piloto de helicóptero, Mário Antônio Frias foi rendido no Aeroporto de Jacarepaguá, em 30 de agosto de 1987, por bandidos que tentavam resgatar vários comparsas do Complexo Presidiário da Frei Caneca. Entre eles, José Carlos dos Reis Encina, o poderoso criminoso conhecido como Escadinha.

O mesmo tipo de operação já havia sido bem-sucedido em 31 de dezembro de 1985, quando Escadinha, uma espécie de Marcola dos anos 80, foi retirado da Ilha Grande por comparsas sob hélices. Como desta vez a segurança estava mais esperta, o resgate falhou, causando a morte de alguns envolvidos. Entre eles, justamente o pai de Mário Frias, um cidadão honesto que se envolveu naquela aventura à revelia.

Tempos depois, os mais poderosos contraventores descobririam que emprestar jatinhos era muito mais útil para escapar da cadeia do que sequestrar helicópteros.

No caso de Mário Frias, o filho, a polícia suspeita que ele tenha atuado em atos ilícitos. Acusado de “rachadinhas”, desvios de emendas parlamentares e de produzir um filme cujo orçamento, turbinado por um banqueiro preso, parece servir a outros propósitos, as investigações indicam que seu currículo talvez tenha algumas manchas.

“Malhação” não é uma delas. Aliás, com alguns anos de serviços prestados ao jornalismo cultural, eu diria que é a melhor parte da sua trajetória pessoal e profissional. Para quem passou mais tempo acompanhando os bastidores de Brasília do que o bar Gigabyte, vale uma retrospectiva.

A novelinha adolescente estreou em abril de 1995 e durou até a pandemia de covid interromper a produção de dramaturgia no Brasil em 2020. Sim, foram 25 anos. Uma das histórias mais longas de sucesso da TV brasileira. Sua estreia já se deu com a responsabilidade de entregar uma boa audiência para uma novela das seis que se chamava nada menos do que “Irmãos Coragem”, uma refilmagem criada em homenagem aos 30 anos da TV Globo.

A inspiração para o folhetim da Globo mostra que o sarrafo já era alto desde o começo. Um ano antes, o público dos 13 aos 18 anos (eu incluído) ligava de segunda a sexta na TV Cultura para ver “Confissões de adolescente”, uma série que abordava com leveza os temas da juventude.

Num horário bem mais cedo, anteriormente ocupado por uma lista que ia de enlatados americanos à “Escolinha do Professor Raimundo”, e com a meta de atingir uma audiência misturando jovens e aposentados, optou-se por tramas com menos ousadia. Nada de uso de drogas, por exemplo. Curiosamente, logo no primeiro capítulo, uma cena de sexo no banheiro da academia causou um certo desconforto (e uma pesada multa).

Misturando açaí e Cássia Eller, a produção logo fez sucesso e transformou em celebridades atores como André Marques, o Mocotó, e Bruno de Luca, o Fabinho. No entanto, lá pro fim de 1998, tudo indicava que a fórmula havia se esgotado. Depois de uma tentativa frustrada de usar a interatividade da internet nas tramas, lembro-me de tratar o programa como candidato preferencial para sair do ar.

Então, 1999 trouxe uma temporada completamente transformada. A academia de ginástica deu lugar ao colégio Múltipla Escolha e Lulu Santos abriu espaço para Charlie Brown Jr. na abertura. A escola particular fundada pelo Professor Pasqualete (referência óbvia a Pasquale Cipro Neto) de Nuno Leal Maia, um craque em novelas com apelo jovem, trazia o universo clássico da high school norte-americana para o Brasil.

Apesar de formar par romântico com Priscila Fantin, Mário Frias não era o primeiro nome a subir nos créditos. Na verdade, era o sexto, sendo precedido por ninguém menos do que Lília Cabral, Paulo Gorgulho, Maria Padilha, o intérprete de Mocotó e Natália Lage. O elenco traria ainda os jovens Giovanna Antonelli, Daniel Oliveira e Robson Nunes. Ninguém parece se arrepender hoje em dia de ter feito parte daquele projeto.

Se havia algo de estranho ali, certamente era a idade de Mário Frias. Aos 28 anos e vivendo como vestibulando, ele não chegava a se equiparar aos atores de “Chaves”, mas demandava uma certa licença poética do público. Nada grave. Até porque o cantor Chorão era um ano mais velho e berrava dramas adolescentes na música-tema.

A temporada com Mário Frias e Priscila Fantin foi crucial para ampliar a vida ativa de “Malhação”. Posso dizer sem medo de errar que esse reinício em nova roupagem foi o que possibilitou que, depois, viessem o Cabeção, a Vagabanda e um prêmio Emmy quando a novelinha, enfim, se equiparou a “Confissões de adolescente”, tratando de temas delicados.

Então, vamos ironizar o Mário Frias por ter feito novela da Record? Bobagem. Ótimas atrizes, como Fernanda Nobre e Elisa Pinheiro, bateram ponto na trama jovem e nas produções do Recnov. Não deixaram de ser grandes talentos por isso.

Tá, mas vamos elogiar o Mário Frias? Aí, amigo colunista político, é com você. Mas posso garantir que esse caminho pseudofreudiano de enxergar nele um ódio a grandes artistas por supostamente ter feito produções menores é um péssimo conselheiro.

Nem precisamos ir tão longe para desmentir. Roberto Alvim, ótimo diretor de teatro, brincou de Goebbels no governo Bolsonaro. E Regina Duarte tem uma carreira que fala por si. Se ela insinuou que a ditadura militar foi boa porque era gostoso cantar “Pra frente, Brasil”, não foi por falta de papéis de destaque.

Bater em folhetins televisivos é um esporte nacional há muitos anos. O ótimo livro de Ernesto Rodrigues sobre a história da TV Globo mostra isso com detalhes. Talvez seja a hora de entender que maus políticos são apenas isso. Maus políticos. E as novelas não têm nenhuma culpa.

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Rafael Simi foi jornalista cultural nas redações do Grupo Globo e escreveu o livro “De volta para o passado – O Brasil de 1985 e o que fizemos depois”.