Monday, 22 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

A crise na imprensa mundial e os negócios jornalísticos no Brasil

A semana de 14-20/10 vai ser lembrada pela indústria do jornalismo como uma das mais pessimistas para o setor desde que passou a enfrentar o dilema de mudar a receita de lucratividade devido ao surgimento da Web como uma nova plataforma de transmissão de noticias e informações.

A revista Newsweek comunicou o fim de suas edições impressas após 79 anos de circulação semanal (ver, no Observatório, “Revista estará apenas online a partir de 2013”). Aumentaram os rumores de que o jornal britânico The Guardian também trocará o papel pela internet e a “Dama Grisalha’ de Nova York, o New York Times, anunciou sua intenção de abrir uma edição brasileira online para tentar reduzir as perdas com a redução da circulação nos Estados Unidos.

São noticias ruins, mas já esperadas há pelo menos uma década. Este foi o tempo que as grandes empresas tiveram para tentar encontrar soluções para suas estratégias corporativas. A maioria tentou paliativos para minimizar prejuízos enquanto deslocava investimentos para outras áreas mais rentáveis. Um movimento para ganhar tempo, compreensível porque uma grande empresa não altera suas estratégias da noite para o dia.

As pequenas empresas são muito mais ágeis na hora de mudar, logo têm mais chances de sobreviver. Para as grandes, a mudança para sobreviver pode ser crítica – o grande “calcanhar de Aquiles”, seu ponto mais vulnerável apesar do poderio econômico e da enorme influência política.

A Newsweek optou por um modelo exclusivamente online com acesso pago e investimentos na área de eventos, coisa que os grupos RBS e Globo já fazem no Brasil. Mas a mudança de rumo da semanal norte-americana foi vista como uma aposta arriscada. Especialistas consultados por Sara Morrison, da publicação acadêmica Columbia Journalism Review, quantificaram como “zero as chances da revista sobreviver, mesmo na internet”.

Pouco antes de jogar a toalha, a Newsweek impressa adotou uma estratégia editorial e comercial similar a da Veja, com capas espalhafatosas, provocativas e um claro menosprezo por algumas regras básicas do jornalismo. Não deu certo. Agora ela vai apostar em edições especiais sobre temas polêmicos e na realização de eventos.

A vida digital da Newsweek online não será fácil, pois ela já enfrenta a concorrência da Quartz, lançada há semanas e que tem exatamente a mesma proposta: combinar informação online com eventos e edições especiais. Para Morrison, da CJR, o futuro das duas publicações está carregado de incertezas, o que complica terrivelmente a vida de ambas porque a sobrevivência delas depende de investidores e de público online, a grande incógnita ainda não decifrada no mercado jornalístico digital.

No caso do britânico The Guardian, a opção pelo digital puro já foi tomada, mas o problema é o timing. Os donos do jornal estão pressionando por uma mudança imediata de plataforma de publicação enquanto o editor chefe Alan Rusbridger quer consolidar primeiro a edição norte-americana, antes de fechar a edição impressa na Inglaterra. No meio de tudo isso está um prejuízo anual estimado em 143 milhões de reais.

O Guardian e o The New York Times são mundialmente conhecidos por sua busca de inovações na produção de notícias, mas os esforços feitos até agora não encontraram resposta no lado financeiro. O jornal inglês foi o primeiro a investir em mercados externos abrindo uma edição para a América do Norte, que é considerada um caso de sucesso em termos de prestígio. O Times anunciou recentemente que vai agora criar uma edição online para o público brasileiro.

É o segundo grande jornal mundial, depois do britânico The Financial Times, a investir no mercado jornalístico brasileiro atraído pela estabilidade econômica do país, enquanto a Europa vive uma montanha russa financeira. As expectativas dos estrangeiros são grandes, mas o caminho das pedras aqui no Brasil não será fácil porque, embora a situação não esteja tão crítica como na Europa e nos EUA, a indústria jornalística brasileira também terá que tomar decisões cruciais para a continuidade dos seus negócios.

A batalha pela sobrevivência lá fora vai aumentar a oferta informativa aqui dentro e tornar ainda mais dramática a concorrência interna.