Wednesday, 24 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

Blogs criam a maior rede de solidariedade da história americana


Nunca os norte-americanos testemunharam um fenômeno de tal dimensão, segundo admitiu o respeitado professor de direito Glenn Reynolds, autor do blog Instapundit.


Ninguém sabe ao certo quantos weblogs se integraram à rede informal de ajuda às vitimas do furacão Katrina, responsável pela inundação da cidade de Nova Orleans, mas segundo dados divulgados pelo site Blogpulse  nada menos que 3% de todas as mensagens postadas diariamente em blogs, nos quatro primeiros dias de setembro, estavam relacionadas ao Katrina. Isto dá mais ou menos 110 mil mensagens (cálculo baseado em indicadores do relatório sobre os weblogs organizado pelo site Technorati).


O volume da ajuda, recolhida basicamente através dos blogs, superou folgadamente as doações feitas em tragédias anteriores como o atentado contra o World Trade Center e no socorro às vítimas do tsumani asiático. Em cinco dias, foram doados 400 milhões de dólares aos desabrigados de Nova Orleans, quase tres vezes mais do que no caso das torres gêmeas. A enorme diferença foi atribuida pelo Technorati à participação cada vez maior dos blogs na vida comunitária norte-americana.


Este fenômeno começa a mostrar uma cara desconhecida da blogosfera: sua espantosa capacidade de mobilização e de superação de barreiras ideológicas. Blogs conservadores como o de Michele Malkin e o esquerdista DailyKos  juntaram-se para organizar doadores para a Cruz Vermelha.


Mostrou também a capacidade inovadora das pessoas em situações dificeis. A internet foi invadida por uma série de sites com serviços inéditos desenvolvidos expontâneamente. Dois programadores de Nova Orleans criaram em três dias um sistema chamado Katrina Information Map através do qual os interessados podem conhecer a situação em cada quarteirão ou rua na zona inundada a partir de informações colocadas no site por moradores. Já o site Family Messages , usa o programa wiki (auto-edição) para dar às pessoas a possibilidade de colocar diretamente na rede recados para parentes e amigos.


O contraste com a grande imprensa norte-americana foi tão claro, que a BBC inglesa publicou uma matéria destacando que os blogs apostaram na solidariedade enquanto as grandes redes de TV e os principais jornais dos EUA transformaram a tragédia do Katrina num confronto com o governo Bush, acusado de omissão e desorganização. Uns trataram de salvar pessoas e encontrar desaparecidos, enquanto outros procuraram defender posições políticas.


A BBC batizou o caso como Katrinagate  e foi um dos raros órgãos da imprensa internacional a prognosticar que as inundações em Nova Orleans podem custar a perda da hegemonia republicana em Washington.


O episódio mostrou mais uma vez o crescente distanciamento entre as preocupações de uma parte considerável da população e as prioridades tanto do governo como da midia, num fenômeno que parece cada vez mais uma tendência mundial. Infelizmente, estamos sendo empurrados a confiar apenas em nós mesmos, e não nas autoridades que elegemos, quando se trata de emergências.


(Os parágrafos abaixo foram adicionados em 8/9/2005)
O dramático esforço para ajudar as vítimas do furacão também aguçou a cobiça dos espertalhões, como sempre acontece quando um evento movimenta a internet. A polícia norte-americana afirma que são falsos cerca de dois mil sites para coleta de donativos em dinheiro criados desde o dia primeiro de setembro.


Há casos como o de uma página falsa da Cruz Vermelha Internacional, que estaria recolhendo donativos para um endereço no Brasil conforme denúncia da empresa de segurança WebSense, e o do simpatizante neo-nazista Frank Weltner que criou quase uma dezena de sites de ajuda antes que eles fossem fechados pela polícia sob a acusação de beneficiar apenas famílias brancas desabrigadas em Nova Orleans.


Mas nem todas as denúncias de fraudes acabaram se comprovando. Na pressa por mostrar serviço, alguns orgãos do governo norte-americano criaram ainda mais confusão ao bloquear sites legítimos como o Hurricane Housing , criado por ativistas negros.


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