Friday, 12 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1283

Caso News of the World mostra, mais uma vez, as consequências da promiscuidade entre polícia e repórteres

O escândalo Murdoch já mostrou muita coisa podre num dos maiores impérios jornalísticos do planeta, mas um item ainda permanece meio esquecido na avalancha de denúncias e suspeitas.
 

É a relação quase promíscua desenvolvida pelos jornalistas e editores do finado News of the World com a polícia londrina, como mostra o fato da rolagem de cabeças ter atingido tanto a redação do jornal sensacionalista como na cúpula da Scotland Yard.
 

A relação entre repórteres e policiais é um dos pontos mais delicados quando se discute a questão das fontes de informação no jornalismo. Da mesma forma que na economia e na política, quando se trata de crime, corrupção e delinqüência, o repórter depende de poucas fontes porque cada vez mais a informação está concentrada em órgãos públicos e privados.
 

Acontece que os detentores da informação passaram a usá-la como uma propriedade pessoal ou institucional, em vez de um bem público, que pode interferir na vida das pessoas.

E ao assumir esta postura, incorporam a ideia da permuta, o que geralmente se traduz no fornecimento de notícias em troca da construção de uma boa imagem da fonte no veiculo de comunicação jornalistica. Está ai a origem de todas as distorções na relação entre jornalista e polícia.

 

O manejo da informação como bem privado leva a polícia a uma posição de força na medida em que ela é, geralmente, a única fonte de informação sobre episódios delitivos, e pode manipular a competição pelo “furo” entre os repórteres para obter tratamento mais favorável na apresentação das ações policiais.

 

No caso do jornal do milionário Rupert Murdoch a promiscuidade informativa chegou a um ponto crítico porque a Scotland Yard “olhou para o outro lado” em episódios de violação da privacidade praticados pelos jornalistas envolvendo dois tabus na mídia britânica: a vida privada de membros da família real e de soldados ingleses no Afeganistão e Iraque.
 

É claro que o escândalo não surgiu de repente. Ele foi o resultado de doses homeopáticas de vistas grossas que foram se avolumando ao longo dos até chegar a uma impunidade acintosa que já não podia mais ser jogada para baixo do tapete. Aconteceu com o News of the World, mas quase todos os jornais mundiais, em especial os tablóides e publicações especializadas em crimes, escândalos e fofocas sociais também são obrigados a depender da polícia para vencer a concorrência.
 

É uma situação complexa porque o repórter é obrigado a confiar em versões ou representações de um fato, dado ou processo produzidas por outras pessoas, muitas das quais também não tiveram um conhecimento ocular. Isto coloca o policial numa posição privilegiada porque ele é a pessoa encarregada de ter um contato com os fatos brutos e as versões de acusados, vitimas e também das testemunhas.

 

Raramente o repórter tem tempo e condições para investigar por conta própria um assassinato, escandalo ou denúncia de corrupção. Com isto acaba sendo obrigado a aceitar a relação de dependência e com ela o risco de ir gradualmente transformando-se em cúmplice, como aconteceu com os profissionais do jornal de Rupert Murdoch.

 

O caso News of the World é um alerta para todos os jornalistas, não apenas os ingleses, porque as distorções no relacionamento entre polícia e jornalistas são quase uma regra em todo o mundo. Aqui no Brasil nós já tivemos o famoso caso da Escola Base, em São Paulo, em 1994. Os donos da escola foram acusados de abusos sexuais contra crianças numa denuncia mal investigada pela policia que acabou gerando histeria de pais de alunos e depredação da escola. Depois foi verificado que a denúncia não tinha fundamento e fora alimentada por um policial interessado em promoção.