Saturday, 25 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Corrupção rima com o quê?

Em entrevista ao Estado de S. Paulo de domingo (2/10), o historiador Marco Antonio Villa afirma, sem contestação do repórter, que a corrupção cresce no Brasil. Essa é a premissa de todo um raciocínio que vai se articular, na visão de Villa, à ausência de um projeto nacional. Acontece que não há como medir a corrupção, que não está registrada em livros contábeis (não, em todo caso, em contabilidade disponível para autoridades ou pesquisadores).


Essa polêmica vem do governo FHC, quando se fez confusão entre denúncias de corrupção, investigações sobre corrupção e corrupção propriamente dita. Em muitos casos, o que cresce é a democratização da sociedade e, portanto, a possibilidade de denunciar e apurar irregularidades e crimes.


O que a Transparência Internacional, por exemplo, mede não é a corrupção, mas como ela é percebida internacionalmente. No site da entidade informa-se que essa percepção não melhora nem piora há sete anos. Isso, segundo a Transparência, é ruim, mas não permite deduzir nem sequer que a corrupção estacionou em determinado patamar:


De acordo com a opinião de observadores internacionais, refletida no Índice de Percepções de Corrupção divulgado em 20/10 [de 2004] pela Transparency International, o grau de corrupção atribuído às relações entre o Estado e a sociedade no Brasil não se alterou em relação aos seis anos anteriores. O índice (que em 2004 inclui 146 países) classifica opiniões sobre o grau de corrupção nos países numa escala de 0 a 10, em que 10 corresponde ao menor grau de corrupção percebido e 0 ao maior grau.


O Brasil recebeu em 2004 a pontuação de 3,9, repetindo assim o desempenho do ano passado (este havia sido 4,0 em 2002 e 2001, 3,9 em 2000, 4,1 em 1999 e 4,0 em 1998). Isso indica que o país não tem piorado ao longo do tempo na percepção internacional sobre o grau de corrupção vigente – mas, também, assinala que não tem melhorado.


O Índice reflete opiniões sobre a integridade das relações mantidas por todas as instituições do Estado, em todas as esferas, e não corresponde apenas aos governos nacionais, embora as ações destes últimos sejam muito determinantes na formação da opinião internacional. Assim, quando um governo empreende um conjunto organizado de iniciativas anticorrupção e que seja percebido como significativo pela opinião internacional, isso tende a se refletir numa melhoria da pontuação atribuída ao país.


Países cuja classificação permanece inalterada são países que não são vistos pelos formadores de opinião internacionais como tendo empreendido medidas eficazes para reduzir as fraudes. É o caso do Brasil.”


O professor Villa constata, em sua argumentação, que a economia mexicana já passou a brasileira. De fato. Mas, salvo engano, o México consegue ser um país mais corrupto do que o Brasil. Nas Forças Armadas havia uma cadeia de propinas que subia em valor da base para o topo da pirâmide: em cada patamar, o corrupto pegava uma parte menor do que a parte destinava aos estratos superiores, até chegar ao alto comando. Nunca houve nada parecido no Brasil. Em todo caso, na percepção internacional o México é mais corrupto. Conferir em


http://www.transparencia.org.br/
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O México pôs em prática um projeto bastante elaborado de inserção no mercado comum da América do Norte (Nafta) e, ao mesmo tempo, de abertura comercial. Tem acordos comerciais com 33 países. Enfrenta melhor do que o Brasil a questão educacional. Mas ainda convive com níveis de corrupção e criminalidade dramáticos.


O Chile está melhor do que o Brasil, historicamente é menos corrupto, mas sua economia tem um PIB menor do que o da cidade de São Paulo.


O professor Villa escreveu um importante livro sobre a história da seca no Nordeste (Vida e Morte no Sertão; não li nenhum dos outros). Mas, quando estabelece correlações que não se sustentam, seu discurso tende para uma retórica abstrata. E o entendimento do quadro nacional não avança.