Saturday, 18 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

Debate interditado

Excelente síntese de assuntos incômodos faz hoje no Valor o colunista Cristiano Romero, sob o título ‘A verdadeira interdição do debate’. Romero contesta que haja veto ao debate sobre pontos a respeito dos quais usualmente se diz que há tal veto. ‘Dizia-se que era proibido criticar as reformas liberalizantes que todos os governos pós-ditadura militar, sem exceção, promoveram’. O mesmo foi alegado a respeito da política hoje em curso, continuação da que está em curso desde o início de 1999. Mas, diz Romero, ‘as críticas estão aí desde sempre’.  


Alguns pontos sobre os quais não há um verdadeiro debate foram listados pelo jornalista:


1) Papel dos banco públicos no Brasil.


2) Privatização (‘Em 1998, o governo privatizou o Sistema Telebrás, mas o processo jamais foi concluído, porque a Telemar, justamente a maior das empresas de telefonia fixa, tem em seu capital participações direta e indireta de entidades estatais’).


3) Sistema S (Sebrae, Senai, Sesc e assemelhados).


4) BNDES


5) Falsa progressividade do Imposto de Renda.


6) Aposentadoria integral dos servidores públicos.


7) Cobrança do imposto sindical.


8) Publicidade oficial.


9) Existência dos cartórios.


Romero diz claramente o nome do fenômeno que está por trás dessa interdição: ‘patrimonialismo’. Ele afirma que a palavra não existe em português. Não sei que dicionário consultou. No Houaiss ela existe, assim como existe no Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras. A definição dada pelo jornalista: ‘A arte de obter quinhões do Estado em detrimento da maioria. São privilégios,alguns herdados como dotes, que concentram renda e oportunidades nas mãos de poucos’. Dixit.


De volta ao texto, o jornalista do Valor conclui: ‘Quanto custa a interdição de todos esses debates e quem se beneficia dela? Uma indicação clara do banimento dessas questões e que nenhum dos pré-candidatos à Presidência tece considerações sobre elas. Preferem falar da elevada taxa de juros, do câmbio apreciado, do excesso de superávit primário’.


Pautas à vista


Os editores de Economia que têm juízo deveriam se apropriar logo dessas pautas, que formam um belo roteiro para se entender por que o ciclo de reformas brasileiro é tão incompleto e os governantes têm sempre a tentação de desfazer conquistas já obtidas. Mas isso implicaria uma renovação dos habituais suspeitos, perdão, das fontes contumazes. Dá  mais trabalho.


Há vinte anos, no Jornal do Brasil, todo e qualquer assunto era comentado por meia-dúzia de ‘personalidades’: um advogado, uma promoter, etc. A mesmice chegou a um ponto tal que, com a concordância do editor, Marcelo Pontes, foi proibido requisitar fotos dessas pessoas para ilustrar as famosas ‘repercussões’. Alguém bradou: Chega! Não agüento mais ver a cara de Fulano no jornal! E houve uma trégua. Mas provisória, claro.


Quem se candidata a fazer um censo das fontes citadas hoje em dia no noticiário econômico dos principais jornais e revistas? Seria útil para constatar certas aberrações.