Tuesday, 25 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Elites da AL mais antiamericanas do que o povo

Uma pesquisa do Instituto Zogby que será divulgada quinta-feira na Conferência das Américas do jornal Miami Herald mostra as elites de seis países do continente mais antiamericanas do que o povo, informou o colunista do jornal Andres Oppenheimer. A pesquisa ouviu autoridades, homens de negócios, jornalistas e universitários no México, na Colômbia, no Chile, na Venezuela, no Brasil e na Argentina. O Zogby constatou que 37% das elites, Brasil excluído, apontam a Espanha como melhor amigo de seu país, enquanto 12% selecionam os Estados Unidos e 10% escolhem o Brasil. Uma pesquisa de caráter geral feita em 2004 pelo Instituto Latinbarómetro, do Chile, encontrou 28% para os Estados Unidos, 10% para a Espanha e 3% para o Brasil.


O Zogby é aquele instituto que errou fragorosamente a boca-de-urna da eleição americana de 2004 e levou a TV Globo e muitos outros veículos a anunciar uma possível vitória do democrata John Kerry. Oppenheimer checou os dados com Marta Lagos, do Latinbarómetro, que os validou e explicou: “É porque muitas políticas econômicas apoiadas pelos Estados Unidos não deram certo. E a abertura dos arquivos oficiais mostrou apoio americano a ditaduras no continente, o que afetou a imagem do país junto a pessoas que dão importância a esses fatos. Mas pessoas com níveis menos elevados de educação ainda acreditam no sonho americano, ainda acreditam que se pode nascer no Harlem e acabar na Quinta Avenida”.


Sobre a maneira de conduzir os conflitos internacionais – entre eles a invasão do Iraque sob a batuta do governo Bush – , 86% dos ouvidos entre as elites dos seis países manifestaram discordância. Entre os pesquisados pelo Latinbarómetro, esse número era de 66%. Quanto à autodefinição política, 28% se situaram à esquerda do centro e 23%, à direita. Entre a população em geral, 21% se diziam de esquerda e 20%, de direita.


Segundo Marta Lagos, “as elites tendem a ser mais de esquerda do que a população em geral, o que pode explicar por que muitas pessoas não se sentem bem representadas por seus líderes. Pode haver discrepância entre o que as elites pensam que o povo quer e o que o povo realmente quer”.


Oppenheimer não menciona a crise brasileira, mas é o caso de se pensar se isso não explica por que o presidente Lula até recentemente desfrutou de alta popularidade. O discurso era de esquerda, mas a prática, centrista. As denúncias de corrupção abalaram essa imagem.


Oppenheimer nota que uma maioria, em todas as classes sociais, critica a maneira como os Estados Unidos tratam das questões internacionais, o que deveria preocupar o presidente Bush. “Ainda por cima”, escreve, “como o governo americano reduz o intercâmbio estudantil e cultural, torna mais difícil para as pessoas da região obter vistos e realiza humilhantes revistas pessoais em dignitários latino-americanos que chegam aos aeroportos do país, é difícil imaginar de que modo a imagem dos Estados Unidos vai melhorar nos próximos tempos”.