Wednesday, 24 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

Estrelas de Hollywood impõem normas de longo prazo à imprensa para publicação de fotos e entrevistas

Que as grandes estrelas de Hollywood condicionavam entrevistas a um tratamento positivo por parte de repórteres, a gente já desconfiava. Mas o casal Bratt Pitt e Angelina Jolie foi ainda mais longe ao impor um tratamento editorial favorável, a longo prazo, como uma das cláusulas para assinar um contrato de venda de fotos de seus filhos.


 


A informação foi publicada pelo jornal The New York Times, que garantiu sua veracidade apesar dos desmentidos do casal de atores. O jornal diz ter entrevistado vários amigos e conhecidos de Angelina Jolie que também confirmaram a exigência, explicando-a como uma preocupação da atriz com sua imagem pública.


 


O negócio fechado com a revista People, do grupo Time Inc. (que edita a revista Time), em meados de 2008, envolve, além de uma soma de 14 milhões de dólares, o contrato no qual a revista se compromete a submeter previamente a Angelina e Brad o plano editorial de todas as reportagens e artigos em que o casal for mencionado, ao longo dos próximos três anos. 


 


Em agosto deste ano, a People publicou as fotos dos gêmeos Knox e Vivienne e uma entrevista com os dois atores, que estão casados há cinco anos e que têm mais quatro filhos (três deles adotados). Em 2006, Angelina e Brad venderam à mesma revista People, por 4,1 milhões de dólares, as fotos do nascimento de sua filha Shiloh, cujo parto aconteceu na Namíbia, onde apenas os jornalistas autorizados pelo casal conseguiram obter visto de entrada neste país do sul da África.


 


Obviamente todos os acordos fechados com a revista foram cercados do maior sigilo, uma exigência de Angelina e Brad. Sua divulgação pelo The New York Times mostra até que ponto os grandes conglomerados da imprensa estão dispostos a trocar jornalismo por faturamento. A edição da People com as fotos dos gêmeos vendeu mais de 80 milhões de exemplares, recorde de vendagem da revista nos últimos sete anos.


 


Angelina e Brad alegam que o dinheiro que arrecadam com a venda de fotos e contratos de cobertura jornalística é todo transferido à fundação que o casal criou em 2006, para administrar doações para organizações humanitárias na África e no sudeste da Ásia.  A imagem de casal comprometido com a filantropia levou a Organização das Nações Unidas a nomear Angelina como embaixatriz humanitária, reforçando o marketing milionário criado em torno da atriz, que administra pessoalmente a sua imagem pública.


 


O que está em questão não é o que o mais badalado par de Hollywood faz com seu dinheiro, mas a crescente submissão da imprensa às personalidades que atraem compradores de jornais e revistas ou criam audiências milionárias para programas de televisão e rádio.


 


Angelina e Brad não são os únicos atores a cobrar e impor condições à imprensa para serem fotografados ou entrevistados. Segundo o The New York Times, este tipo de negócio ganhou proporções endêmicas nos Estados Unidos, envolvendo também atletas, cantores, escritores e personalidades da televisão. O pior de tudo é que os acordos são cercados de sigilo porque quem vende não quer ser visto como mercenário, enquanto quem compra não quer passar recibo de mercantilismo editorial.


 


A crise no modelo de negócio dos jornais, revistas e até mesmo da televisão empurrou as empresas rumo a uma corrida frenética em busca de receita publicitária alavancada por vendagem e audiências recordes. Estamos quase num vale-tudo pela sobrevivência de grandes e médios conglomerados da imprensa — e quem sai perdendo é o publico que ainda acredita que o que estão lhe oferecendo é informação jornalística.