Monday, 22 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

Gaffes da imprensa escrita tornam-se mais comuns por causa da internet

Esta semana dois grandes jornais ingleses publicaram manchetes anunciando a vitória de Barack Obama nas eleições primárias do Partido Democrata, no estado norte-americano de New Hampshire, quando a maioria dos seus leitores já sabia, via Internet, que a vencedora fora a senadora Hillary Clinton.


 


O fuso horário e a pressão do fechamento de edições sempre foram o Calcanhar de Aquiles dos encarregados das primeiras páginas de jornais, mas agora, na era da internet, as chamadas “barrigas”[1]  se tornaram ainda mais vexaminosas, por conta do acesso à informação em tempo real, em qualquer parte do mundo.


 


Ainda neste início da ano, a revista norte-americana de variedades Parade, cujos 32 milhões de exemplares circulam encartados em 400 jornais dominicais nos Estados Unidos, saiu com uma manchete sobre a ex-primeira ministra paquistanesa Benazir Bhutto, vários dias depois dela ser assassinada.


 


A matéria com a entrevista foi impresssa no dia 21 de Dezembro, o atentado terrorista aconteceu no dia 27 e a edição circulou no dia 6 de janeiro. Foi uma gaffe involuntária e imprevisível , mas gerou uma onda de ironias por parte de blogueiros e explicações relutantes de editores.


 


Os embaraços enfrentados pelos jornais The Independent e Telegraph, ambos de grande circulação e credibilidade, são o resultado de uma espécie de recaída na velha cultura do “furo” jornalístico, típica da época em que a imprensa escrita era a dona absoluta da notícia.


 


Quando a televisão e o rádio tiraram dos jornais a primazia na divulgação de fatos relevantes, tornou-se obvio que os veículos impressos teriam que compensar a sua lentidão operacional com maior contextualização das informações.


 


Mas a cultura do furo estava entranhada demais na rotina das redações e mais de 50 anos depois, ela ainda continua forte, tanto que é comum os editores das primeiras páginas apostarem na previsão com forma de concorrer com a radio e TV.


 


Com o advento da internet e das notícias em tempo real, via web com alcance planetário, a televisão convencional também perdeu o privilégio do furo jornalístico, aumentando o dilema dos jornais impressos.


 


Diante da avalancha informativa gerada pela internet parece não restar aos jornais outra alternativa senão trocar a excitação da novidade pela preocupação com o contexto. Já que os jornais não podem mais ser os primeiros, sua opção deveria ser pela qualidade, ou seja, pela informação com causas, conseqüências, beneficiados e prejudicados.


 


Só que isto exige mais massa cinzenta e experiência do que sola de sapato e preparo físico. Exige mais pesquisa, equilíbrio e reflexão do que adivinhação e especulação. O problema é que a maioria dos jornais prefere os baixos salários de profissionais em inicio de carreira do que remunerar a experiência e qualificação, notoriamente mais caras.


 


Contextualizar a informação significa reduzir a preocupação com o imediatismo para apostar na investigação jornalística de causas e na exploração dos desdobramentos, na identificação dos responsáveis e na sinalização dos beneficiados, diretos e indiretos.


 


Para que isto possa ser feito em ritmo de jornal diário, as redações devem ser novamente infladas, porque com os efetivos atuais, mal dá para atender à frustrante rotina de buscar o ineditismo. O perfil do profissional de jornal deve também mudar para refletir a preocupação com o conteúdo informativo, em vez da inútil correria atrás de noticias que os blogueiros divulgam em questão de minutos.


 

Os jornais impressos têm sim seu lugar na comunicação. Só que este lugar não é mais o de donos da noticia e muito menos do ser o primeiro. Enquanto a imprensa escrita não se libertar totalmente da cultura do furo, ela vai travar uma batalha perdida com a internet e perder a chance de reconquistar leitores ao oferecer a eles uma qualidade informativa que os demais veículos de comunicação tem mais dificuldades para produzir. Este é o grande diferencial, que a imprensa escrita ainda não conseguiu incorporar ao seu dia a dia, como mostram as gafes nas primeiras páginas, aqui e lá fora.






[1] Jargão jornalístico para informação errada ou desatualizada