Thursday, 13 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1291

Índios e imagem no exterior

O leitor Paulo Bagdonas escreveu:


‘Um correspondente estrangeiro [vide ´O Brasil visto no exterior´] contou que seu editor não quis publicar a notícia da morte de crianças indígenas Guarani-Kaiowá, do MS, porque elas não estavam morrendo de fome, mas de desnutrição [o correspondente usou o termo malnutrição]. Ao se acompanhar os desdobramentos do caso, a notícia torna-se mais interessante: no dia 15/dezembro a polícia despejou 700 índios Kaiowá, esses mesmo cujas crianças morreram de fome, das terras onde estavam. Essas terras haviam sido homologadas pelo governo, ou seja, já reconhecidas como indígenas e sem a necessidade de nenhum procedimento adicional para que eles vivessem lá. Porém, uma daquelas inexplicáveis decisões judiciais determinou que as terras fossem devolvidas a um fazendeiro. Para completar o ´interesse´ pela notícia, no processo de expulsão dos índios pela polícia foram presos dois jornalistas holandeses que registravam o fato. E as casas dos índios foram queimadas, antes mesmo de terminado o despejo.


Talvez com esses elementos a notícia fique mais interessante. É triste reconhecer, mas creio que só pressão internacional pode resolver a situação dos índios Guarani-Kaiowá. Quando suas crianças começarem a morrer às pencas de novo, a notícia parecerá requentada, e provavelmente não será publicada. Link com notícia: Folha. Radiobrás [ver abaixo transcrição].’


Fazendeiros queimaram casas de índios antes de desocupação, denuncia liderança


15/12/2005, 18:52
Alessandra Bastos
Repórter da Agência Brasil


Brasília – Antes mesmo da ação de reintegração de posse da terra Nhande Ru Marangatu no Mato Grosso do Sul, fazendeiros atearam fogo em casas dos indígenas Guarani-Kaiowá. A denúncia foi feita em entrevista exclusiva à Agência Brasil pela professora guarani Leia Aquino Prado e confirmada pelo assessor da presidência da Funai, Odenir Oliveira, que acompanha a ação nas fazendas a cerca de 340 quilômetros de Campo Grande.

‘Não conseguimos retirar quase nada. Pegamos um pouco das coisas, levamos pra estrada e quando voltamos para pegar mais, já estavam queimando. Tem família que não conseguiu tirar nem o documento pessoal’, conta a professora, uma das principais lideranças do povo Kaiowá.

De acordo com a assessoria de imprensa da Polícia Federal, o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Mércio Pereira Gomes, o procurador da República, Charles Pessoa, representantes do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e jornalistas foram pela manhã ao local para acompanhar de perto a retirada dos índios.

Mas a ação teria acontecido por volta das 11 horas, quando as autoridades e a imprensa já tinham saído da área. Segundo Leia Aquino, o próprio proprietário da Fazenda Morro Alto e outros três peões começaram a atear fogo nas casas. Na fazenda Ita-Brasília, ‘uma senhora e mais dois homens entraram e queimaram as casas com tudo o que tinha dentro’, relata a professora.

O assessor da Funai Odenir Oliveira explicou que tinha um acordo com o advogado dos três fazendeiros para eles não modificassem a área até que uma equipe do governo fosse avaliar as fazendas. ‘Eles não cumpriram esse acordo’, disse ao citar que seguirá até Ponta-Porã para questionar os motivos do rompimento do trato.

Uma senhora Guarani-Kaiowá passou mal e desmaiou. ‘Quando eles chegaram aqui já tínhamos desocupado a área, só faltava tirar as nossas coisas das casas. A gente não ia voltar para as casas, só pedimos para retirar as nossas coisas de lá em paz. A gente achava que ia dar tempo de desmontar as nossas casas e trazer para a beira da estrada’, relata a professora.

Segundo a professora, os fazendeiros iam começar a queimar uma casa onde a mãe deixou o filho dormindo na rede porque ‘estava carregando as coisas dela’, quando a mãe ‘começou a gritar desesperada e os índios reagiram’. Os Guarani-Kaiowá teriam dito a polícia ‘ou a gente morre ou os fazendeiros morrem se vocês não fizerem eles pararem de queimar as casas. Nós vamos lutar. Aí os policiais pediram para eles pararem e acalmou o pessoal. A única coisa que eles fizeram foi pedir para os fazendeiros pararem’, destaca a índia.

Na terra, os índios viviam das plantações de mandioca, arroz, feijão, batata, melancia e milho. ‘Pelo o que a gente sabe quando tem uma reintegração de posse assim, é o policial que chega e faz as coisas e não o fazendeiro’.

Em março deste ano, decreto presidencial garantiu a posse da terra Nhande Ru Marangatu, que possue 9,3 mil hectares. A homologação foi suspensa por decisão do Supremo Tribunal Federal no dia 27 de novembro. Não há como recorrer da decisão judicial.