Monday, 22 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

Mundo financeiro dá como certo o desmembramento do império Murdoch

Uma grande contradição chamou a atenção na semana passada dos meios jornalísticos e financeiros na Europa e nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo em que se aprofundava a crise interna no megaconglomerado jornalístico chefiado por Rupert Murdoch, as ações da News Corporation subiam surpreendentes 46% na bolsa de valores de Nova York.

Ninguém entendeu o que estava acontecendo até o momento em que começaram a surgir as informações de bastidores vindas dos corredores de Wall Street. Os investidores já dão como certo o desmembramento do grupo News Corp. para isolar o lado podre formado pelos jornais controlados pela família Murdoch e que caíram em desgraça depois do escândalo de escutas telefônicas clandestinas no extinto semanário News of the World (NoW).

Enquanto os leitores de jornais na Inglaterra ainda discutem o que pode acontecer com tabloides sensacionalistas como o Sun, o pessoal das finanças já está especulando sobre quem comprará o quê no espólio jornalístico do homem que já foi considerado o mais influente barão da imprensa mundial. Na semana passada, James, o filho e herdeiro do império Murdoch, teve que renunciar ao seu cargo depois que ficou provado que ele sabia o tempo todo que os  editores e repórteres do NoW estavam metidos até o pescoço em escutas clandestinas e suborno de policiais da outrora ínclita Scotland Yard.

Mas essa dissonância informativa provocada pela ocorrência simultânea de dois fenômenos contraditórios mostra apenas que o verdadeiro jogo não é aquele que está sendo mostrado para a plateia, mas o que está sendo disputado nos escritórios dos executivos do Deutsche Bank.

A sucursal do banco alemão nos Estados Unidos é hoje um dos pesos pesados na briga de bastidores que está sendo travada entre Wall Street e a família Murdoch, tendo como alvo principal o controle de jornais como The Wall Street Journal e o New York Post. Há anos que os investidores alimentam desconfianças em relação aos Murdoch porque já conheciam as jogadas sujas dos jornais ingleses do grupo e temiam que algum dia elas fossem afetar a credibilidade do respeitado WSJ, comprado por Murdoch em 2007, por 5 bilhões de dólares.

O escândalo NoW deu ao mundo financeiro a chance de aumentar a aposta e, agora, sente-se em condições de começar a impor regras. O jornal The New York Times, que tem tudo a ganhar com a desgraça do seu principal concorrente em Nova York, afirma que Murdoch já perdeu 1 bilhão de dólares por causa do caso News of the World. É pouco, se comparado com o valor do conglomerado News Corp., avaliado em 46 bilhões de dólares, mas muito se contextualizado na continuidade das investigações judiciais em curso em Londres.

O peso dos investidores já se faz sentir no novo jornal lançado há um mês por Rupert Murdoch para preencher o vácuo deixado pelo NoW. Os editores do The Sun on Sunday se reportam agora diretamente ao czar financeiro do grupo News, Chase Carey, um homem de confiança de Wall Street.

A esta altura você deve estar se perguntando: o que isto tem a ver conosco aqui no Brasil?  Para quem acompanha as mudanças em curso na imprensa, é um alerta sobre a aceleração do processo de transferência de controle da imprensa para o setor financeiro, iniciado em meados dos anos 1990 por conta da alta rentatibilidade dos negócios no setor na época, e intensificado agora com o fim das vacas gordas na indústria do jornalismo impresso.

Esta transferência de controle é um fenômeno mundial, mais intenso em algumas regiões e menos noutras, como aqui, mas inevitável. O negócio do jornalismo deixou de ser altamente rentável e os grandes grupos familiares tratam de se desfazer de seus investimentos no setor para investir em entretenimento, antes que seja tarde demais. Murdoch era o maior grupo familiar na imprensa mundial. Sua arrogância era ilimitada e poucos acreditavam que um dia ele teria que jogar a toalha. Ele ainda não fez isto formalmente, mas em Wall Street os investidores já começam a festejar.