Monday, 22 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

Os leitores e a corrupção na Petrobras

Mais de sete mil leitores do Código recomendaram a leitura do texto sobre a corrupção na Petrobras e uma parcela igualmente importante de outras pessoas deve ter assumido uma posição crítica conforme se pode inferir dos comentários publicados. O fato evidencia a aguda polarização que ganha corpo na opinião pública brasileira e torna inadiável uma reflexão sobre o fenômeno.

A grande questão é se caminhamos para um entrincheiramento de opostos em torno de duas posições ou se enfrentamos o desafio de assumir que somos diferentes, que ninguém conhece toda a verdade e que para nos aproximarmos dela a melhor alternativa é diversificar a troca de dados e informações sobre o problema.

As opiniões expressadas pelos leitores deste blog refletem esta polarização, fato que não tem nada de extraordinário ou condenável. É natural e necessário que haja divergência porque nenhum de nós tem capacidade de captar toda a realidade que nos cerca. Mas a divergência pode seguir dois caminhos opostos: a aglutinação de pessoas com pensamentos semelhantes ou a interação entre opostos.

A primeira é uma tendência imediata fruto da facilidade com que se criam zonas de conforto entre opiniões similares. É uma tendência social gerada por uma educação familiar que prioriza afinidades. Já a segunda é mais complicada porque exige uma série de virtudes que muitas vezes vão contra os valores predominantes em nossa cultura. Dialogar com pessoas de pensamento contrário ao nosso requer tolerância, interesse e paciência, entre outras virtudes.

A tensão entre as duas tendências aumenta quando as questões em foco são complexas porque os argumentos em conflito não conseguem explicar de forma clara e imediata a natureza do problema. A incapacidade de impor pontos de vista de forma irrefutável e os naturais ruídos de comunicação geram impaciência e frustração, diante das quais ganha força a tendência à polarização e a formação de grupos beligerantes.

O nosso dilema atual diante da crise comportamental, econômica e política gerada pelos escândalos de propina e lavagem de dinheiro na Petrobras é evitar a opção fácil pela formação de facções e enfrentar o difícil desafio de buscar soluções reais para a corrupção no país por meio da troca de dados entre pessoas e instituições com percepções diferentes do contexto no qual está inserida a empresa.

Buscar a diversidade de opiniões como parte do esforço para achar uma solução não é uma atitude idílica e nem utópica. Ela é determinada pela própria realidade e seria aceita com muito mais facilidade se não fosse a luta pelo poder. É aí que o problema complica e onde o cidadão acaba virando peça de um jogo sobre o qual ele não tem controle e nem participação. A polarização só favorece quem tem interesses em jogo na política partidária. O eleitor não ganha nada com ela. Pior ainda, só perde.

Os leitores do Código estão vivendo este dilema. O blog é um espaço para conversas e troca de dados, percepções e opiniões. Eu sou apenas um motivador e moderador. Assumir uma postura facciosa na polêmica em torno do caso Petrobras é ir contra a complexidade dos fatos. Uma complexidade que vai muito além dos rótulos “culpado” ou “inocente”, porque envolve fundamentalmente perguntas como por que isto aconteceu, como foi possível, que fatores contribuíram para a generalização da prática da propina, qual a relação do escândalo com o sistema eleitoral brasileiro. São todas perguntas com respostas complexas e que ninguém as tem de forma completa.

Este texto dirige-se tanto aos que elogiaram a postagem anterior quanto aos que a criticaram. Não importa a posição que tenham assumido. Somos diferentes e o mundo em que vivemos não é menos diversificado. A unanimidade é desaconselhável porque conduz a visões distorcidas que alimentam a xenofobia e o sectarismo, não importa se contra ou a favor.