Wednesday, 24 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

‘Notícias ruins’ fazem manchetes, mas o público comenta mais as ‘boas’

A famosa norma “se sangrar é manchete” [tradução da expressão inglesa if it bleeds, it leads, muito popular entre jornalistas norte-americanos] ainda não foi posta de lado pela maioria esmagadora dos jornais, revistas e programas jornalísticos na rádio e TV. Mas as pesquisas feitas em redes sociais mostram uma realidade bem diferente: o público comenta mais e retransmite com mais intensidade as notícias consideradas boas.

Pela primeira vez os fatos contradizem um comportamento, raríssimas vezes questionado nas redações, de que as pessoas têm uma atração especial pelo mórbido, violência, escândalo e pelo sexo. Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, examinaram durante seis meses as mensagens de correio eletrônico produzidas por leitores do jornal The New York Times e constataram que mais da metade delas se referiam a fatos e notícias sem qualquer conotação com atos de violência.

A grande surpresa foi que o número de comentários a propósito de notícias sobre ciência ou natureza superou todos os demais itens do cardápio informativo diário do jornal. Outra constatação feita pelos pesquisadores e pelos jornalistas do Times que analisaram o estudo foi a de que ao comentar uma notícia, a emoção é o fator determinante na iniciativa do leitor de compartilhar seus sentimentos com outros.

A suposta atração irresistível dos leitores pelas chamadas notícias ruins é, na verdade, uma estratégia comercial para atrair leitores com base na curiosidade e no voyeurismo visando vender jornais e revistas e ganhar audiência para programas de rádio e TV com o objetivo de valorizar o preço cobrado por espaços publicitários. Não tem nada a ver com o comportamento e interesses do público.

Mas o fato de abordar os resultados de uma armadilha publicitária como se fosse um padrão de comportamento fez com que a imprensa em geral deixasse de perceber que o público tem valores e preferências bem diferentes. É outro fator que contribuiu para o divórcio entre os veículos de comunicação jornalística e o seus leitores, ouvintes, espectadores e internautas. Só agora, e ainda assim de forma muito tímida e limitada, é que esse distanciamento começa a ser levado em conta.

A pesquisa mostrou que os comentários dos leitores estão voltados para a aproximação e compartilhamento com outros leitores, o que coloca o material jornalístico, em especial as notícias, num contexto colaboração. É o contrário do que acontece no noticiário atual, no qual se valoriza o confronto, partindo de um pressuposto, não comprovado pela prática, de que isso é o que as pessoas procuram.

O trabalho da Universidade da Pensilvânia mostrou também que o compartilhamento minoritário de notícias e fatos violentos, escandalosos ou mórbidos esteve sempre atrelado ao desejo de reforçar valores ou comportamentos de colaboração e solidariedade entre os leitores.

Mas outras pesquisas mostram outros comportamentos, como a tendência de as pessoas falarem mais sobre si mesmas – como ficou evidente numa investigação das trocas de mensagens no Facebook feita pela professora Emily Falk, com colegas das universidades de Michigan e Califórnia.A ênfase nas chamadas notícias boasé maior quando as pessoas se dirigem a grandes audiências, como nos comentários publicados em sites de jornais de grande circulação.

Todos esses fatores são relevantes para a imprensa mudar sua agenda noticiosa e os seus comportamentos com relação ao público. A era da autossuficiência e da arrogância informativa nas redações está custando caro demais porque gerou o que já conhecemos: o divórcio entre público e redações. A consequência foi a perda de audiência justo no momento de transição de modelos de negócios em que a imprensa mais precisa de usuários fiéis.

Pesquisas como as feitas pela Universidade da Pensilvânia e o New York Times talvez cheguem demasiado tarde para muitos jornais em dificuldades financeiras, mas podem contribuir decisivamente para o desenvolvimento de um novo modelo de negócios em que o público passe a ser um parceiro e não um personagem incômodo para a imprensa.