Monday, 22 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

Uma nova guerra fria, agora com bites e bits

A transição da era analógica para a digital está deixando de ser apenas um espetáculo de deslumbramento tecnológico para transformar-se também numa guerra onde a informação é ao mesmo tempo a grande arma e o grande objetivo. 

É  a conseqüência inevitável da materialização crescente das conseqüências e desdobramentos sociais de inovações eletrônicas que estão mudando a nossa forma de viver.  Repetindo o que aconteceu no inicio da era industrial, os interesses afetados pela mudança reagem e surgem os conflitos que começam econômicos, evoluem para o político e acabam no social.

As manifestações do confronto começam a pipocar em vários ambientes e pela primeira vez apareceu num grande evento político internacional há pouco mais de uma semana, na reunião do G 8, em Paris, quando o presidente francês , Nicholas Sarkozy,  pediu que a internet seja colocada sob o controle governamental, por meio de uma regulação que proteja os direitos autorais e a privacidade.

Esta foi a tônica central de seu pronunciamento tanto aos seus colegas do G8[1]como os principais empresários da internet mundial, mas a imprensa internacional  destacou apenas a frase  “Sarkozy faz chamada para liberar a rede”, numa suspeita quase unanimidade editorial.  O fato é que o presidente francês parece interessado em assumir a liderança da campanha para “domesticar” a internet mundial por meio de uma regulamentação imposta de cima para baixo.

Mas enquanto o G8 prepara o cenário para uma polemica mundial,  noutros segmentos da internet estão se multiplicando as jogadas estratégicas em busca de posições de força. Esta semana a Google voltou a acusar a China de invadir computadores da empresa norte-americana, ao mesmo tempo em que o Pentágono admitiu estar preparando uma força especial, ultra secreta, para lidar com o que chamou “invasores cibernéticos”,  numa linguagem típica da antiga Guerra Fria.

Os chineses  negaram ter violado as contas de correio eletrônico de altos funcionários do governo norte americano no Gmail. Mas o Departamento de Estado decidiu investigar a denuncia da Google,  segundo a qual a invasão teria sido feita a partir de uma escola de informática,  em Jinan, na região ocidental da China.

Na Inglaterra, o presidente da British Telecom, um dos maiores grupos de telecomunicações do mundo,  pediu a criação de um “tratado mundial de não proliferação de armas cibernéticas”.  Michael  Rake se disse assustado com a rapidez com que se multiplicam os ataques contra bancos de dados de empresas e governos.

Nos Estados Unidos, o jornal The Washington Post  revelou que um vírus para infecção de computadores chamado Stuxnet é a principal arma virtual do U.S.  Cyber Command  , cujas ações vão desde a invasão de computadores do programa nuclear iraniano até o bloqueio da página web da revista online Inspire, supostamente vinculada à Al Qaeda, de Osama bin Laden.

Depois de livrar-se de uma nova guerra mundial que seria travada no terreno nuclear, a humanidade está agora diante da possibilidade de um novo conflito planetário, desta vez no espaço virtual.  É um terreno completamente novo e cheio de paradoxos.  Uma internet tutelada por governos vai contra a liberdade de criação que é a base da nova economia digital, onde as inovações acontecem num ritmo muito mais rápido do que o da aprovação de leis e regulamentos.

Por outro lado, uma internet controlada e regulamentada pode ser boa para os governantes de turno na Europa e Estados Unidos, mas por outro lado oferece aos regimes autoritários de outras partes do mundo  um pretexto plausível para proibir o uso de ferramentas digitais como as que alimentaram os protestos populares em países como o Egito, Síria, Tunísia, Filipinas e Yemen.  

Além disso, os encarregados da guerra cibernética são, em geral, militares formados para enfrentar conflitos convencionais onde o inimigo é claramente identificado. Isto pode funcionar n o caso da Al Qaeda, mas fica difícil de imaginar quando o adversário são milhares de crackers [2]como os que simpatizam com o site Wikileaks, especializado em divulgar segredos diplomáticos, financeiros  e militares.

Outro diferencial muito importante é o fato de que a munição agora não são mais os explosivos, balas e mísseis, mas algo intangível como a informação. Ela pode não fazer vítimas diretamente, mas  provoca catástrofes inimagináveis quando usada para acionar dispositivos convencionais.



[1]Grupo inicialmente criado em 1975 pelas seis nações mais ricas do mundo (França, Estados Unidos, Inglaterra, Japão, Alemanha e Itália) aos quais se juntaram posteriormente Canadá e Rússia.

[2]Os crackers são programadores especializados em invadir computadores e quebrar códigos de segurança. As vezes são confundidos com os hackers, que são os descobridores de novos softwares.