Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

2021, Um 12 de Outubro em versão remodelada

Foto: Alex Pascual Guardia

Todos os anos, no dia 12 de outubro, a comunidade ibero-americana celebra os seus denominadores comuns. O ano de 2021 mudou um pouco esse cenário em especial graças a dois grandes choques centrífugos. O primeiro, veio dos Estados Unidos, país que protagonizou uma vasta onda de contestação em relação aos aportes históricos espanhóis nas Américas. Essa onda de contestações foi assumida pelo presidente mexicano Andrès Manuel Lopez Obrador e seu homólogo peruano, Pedro Castillo. O segundo, veio da negociação de um acordo comercial entre Uruguai e China, que materializou claramente a atuação comercial chinesa no continente, que tornou evidente a atração por parte da China, o que aliás afeta quase todos os latino-americanos.

Em 12 de outubro de 2021, o presidente Joe Biden celebrou uma jornada dedicada aos povos indígenas. Até então, nesta mesma data, os Estados Unidos comemoravam a primeira viagem de Cristóvão Colombo às Américas. Esta decisão acompanha um movimento revisionista que afetou vários estados e cidades da América do Norte. As estátuas e monumentos dedicados a Cristóvão Colombo, e a outras personagens ligadas à colonização espanhola, foram objeto de disputas e de degradações, o que aliás vem ocorrendo há alguns anos, em especial, nos Estados da Federação anteriormente colonizados por Madrid. Essas releituras da história foram igualmente levadas a cabo por alguns Chefes de Estado latino-americanos. O mexicano Andrés Manuel López Obrador foi, e ainda é, o mais ativo e criativo nesta reavaliação do passado. Ele também celebrou os 500 anos de resistência indígena.

Esse desengavetamento da “lenda negra”, inventada no século XVI pelos concorrentes europeus da Espanha alijados dos despojos das terras americanas, sem dúvida alguma nos interpela, não sobre os malefícios da colonização espanhola, mas sobre a ausência de denúncias das responsabilidades dos outros colonizadores que atuaram nas Américas e na África. A atuação espanhola quanto as políticas de extermínio dos povos indígenas, de Norte a Sul das Américas, é tão historicamente inaceitável quanto aquelas referentes ao tráfico de escravos negros, ambas perpetuadas também pelos governos americanos que se tornaram independentes, de Washington a Montevidéu. Os épicos cowboys conquistadores do “Oeste” americano ou os gaúchos, do Sul argentino são representados, segundo a versão dominante, como heróis responsáveis pela expansão da civilização, enquanto a “lenda negra” recairia com a força de um opróbrio sem tréguas somente sobre a colonização espanhola.

Gabriela Ribeiro, artista uruguaia, inaugurou há alguns dias em Pequim uma exposição de obras colocadas sob o signo da “Rota da Seda”, cara aos governantes chineses, poetas de uma geopolítica intrusiva. Paralelamente, um “oriental”, o fotógrafo Luis Favisi, expôs em Pequim. Este outubro cultural uruguaio de nova inspiração veio coroar uma decisão estratégica de grande importância para este país.

Em 7 de setembro de 2021, Luis Lacalle Pou, presidente da República Oriental do Uruguai, anunciou a abertura das negociações comerciais com a China. Este anúncio não é surpreendente. Desde 1985, data da ruptura das relações entre Montevidéu e Taiwan, o Uruguai, lentamente, mas com segurança, tem se aproximado da China. Isso foi feito, em primeiro lugar, ao reconhecer Pequim, em 1988, como a única representante internacional da China. Em seguida, em 2016, consolidando esta amizade com a viagem oficial realizada pelo presidente Tabaré Vásquez. Por último, estabelecendo laços comerciais cada vez mais estreitos. Isso, a tal ponto que o Império do Meio se tornou hoje o seu principal parceiro econômico, com 30% das exportações uruguaias destinadas à China, portanto, à frente do Brasil e dos Estados Unidos. O atual chefe de Estado, Luis Lacalle Pou, no final das contas, apenas confirmou uma opção feita por Luis Alberto Lacalle Herrera, seu pai, que publicou em 2016, América Latina entre Trump y China, un cambio esperado (América Latina entre Trump e China, uma mudança esperada). A decisão uruguaia suscitou muitas interrogações por parte de seus parceiros do Mercado Comum do Sul (Mercosul). O tratado, que liga, desde 1991, a Argentina, o Brasil, o Paraguai e o Uruguai, exclui, com efeito, qualquer acordo de comércio livre bilateral. A iniciativa de Montevidéu, anunciada no último 7 de setembro, pode fazer implodir esse tratado de integração latino-americana pioneiro e em grande medida modelar.

As diversas festas e comemorações nacionais têm um forte valor simbólico. Elas recordam e confirmam os compromissos e os parentescos. O balanço de 2021 revela uma falha na propulsão desse continente. Washington, seguido do México, pôs em causa o denominador comum herdado de uma história de sombras e luz, afastando sem matizes as luzes em que se baseava o parentesco “hispânico”. O anúncio feito pelo chefe de Estado uruguaio, em 7 de setembro, sanciona o poder da atração chinesa: a de uma América Latina, palco de uma “Rota da Seda” construída pela China e para a China.

Texto publicado originalmente em francês, em 15 de outubro de 2021, na seção ‘Analyses’, no site IRIS Institut de Relations Internacionales et Stratégiques, Paris/França, com o título original « 2021, un 12 octobre en version corrigée ». Tradução de Thaís Pereira da Silva e Denise Aparecida de Paulo Ribeiro Leppos. Revisão de Luzmara Curcino.

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Jean-Jacques Kourliandsky é diretor do Observatório da América Latina junto ao IRIS – Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, com sede em Paris, e responsável pela cobertura e análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É formado em Ciências Políticas pelo Instituto de Estudos Políticos de Bordeaux e Doutor em História Contemporânea pela Universidade de Bordeaux III. Atua como observador internacional junto às fundações Friedrich Ebert e Jean Jaurès. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014), e colabora frequentemente com o Observatório da Imprensa, em parceria com o LABOR – Laboratório de Estudos do Discurso e com o LIRE – Laboratório de Estudos da Leitura, ambos da UFSCar – Universidade Federal de São Carlos.