Tuesday, 16 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Meu pesadelo e Malafaia, o ambicioso

Estou cansado, não consegui dormir, tamanho foi meu pesadelo. Fiquei muito tempo vendo as reportagens sobre a tomada de Cabul pelos religiosos islamitas talibans. Deve ter sido isso.

Foto: Isac Nóbrega/PR

Mas no meu pesadelo, que me fez cair da cama, talvez como a Joyce Hasselman, não havia islamitas de turbante e barba, calçando sandálias. Estava mais para aqueles filmes bíblicos de Hollywood, reprisados pelos cinemas na Semana Santa. Com uma diferença, os seguidores do Cristo tinham se multiplicado e queriam se vingar, nada a ver com paz e amor. De repente, não havia mais barbudos no cortejo, os pastores de ovelhas tinham se transformado em pastores de igrejas, bem escanhoados e gritando as maldições do Apocalipse.

E, no meu pesadelo, mesmo dormindo e sem óculos, posso jurar ter visto o atual candidato a ministro no STF, André Mendonça, sentado ao lado do ministro da Educação, Milton Ribeiro. Eles eram doze, havia doze pratos com um pedaço de pão e doze copos de vinho.

A princípio pensei se tratar de uma versão moderna da Santa Ceia, mas fiquei na dúvida, pois na cabeceira da mesa, quem parecia ser o chefe, tinha uma linguagem destemperada. Porém, não havia nenhuma dúvida, era o Messias Bolsonaro, fazendo mais uma profecia de golpe – “um de vocês vai me trair”, disse olhando para um sujeito com uma camisa esporte quadriculada, de muito mau gosto. Houve um alvoroço, a mesa apoiada em dois cavaletes virou, caíram copos, pães e eu acordei suando com um dente quebrado, pois bati com o rosto na quina do criado-mudo.

Teria sido um sonho profético? Nos tempos atuais, de tanta crença e devoção, em que o presidente convida seus seguidores a dizer o Pai Nosso, no meio de uma entrevista, diante de uma câmera de televisão, tudo é possível. Nestes tempos em que muita gente anda com uma Bíblia, tradução Ferreira de Almeida ou Brasileira, chamando os outros de irmãos, até ateu pode ter sonho profético!

Me lembrei de uma conversa com um novilho, boi ou zebu, não me lembro direito, mas gado sem dúvida, me contando por que tinha se convertido ao Messias Bolsonaro. Dando mugidos e batendo a pata direita da frente no chão, explicou ter sido convencido pelo sobrenatural.

Zeus, o deus dos zebus, tinha agido nas eleições presidenciais de 2018, salvando o Messias de um atentado, e fazendo que fosse eleito mesmo com voto eletrônico.

Diante de minhas reservas, por não ver no Messias Bolsonaro um verdadeiro representante de Deus, o acima referido me deu razões consideradas irrefutáveis: no Velho Testamento bíblico, havia muita gente escolhida e abençoada por Jeová, nem sempre “clean”.

E um exemplo dessas estranhas escolhas teria sido o rei Davi, de Israel, que se apaixonara por uma bela mulher, Betsabá, e “dormira com ela” como se diz na Bíblia. Mas Betsabá (isso também deu filme) era casada e ficara grávida do rei Davi. Isso iria dar uma grande confusão. A menos que Davi preparasse uma cilada para Urias, o marido, morrer na guerra com os amonitas. Afinal Urias era um simples soldado. E assim aconteceu.

Portanto, se o Messias Bolsonaro tem muitos defeitos, isso não o impede ser o escolhido de Deus para salvar o Brasil de Lula e do comunismo. Azar do Urias por ter mulher bonita. Azar do Brasil, mesmo se, faz poucos anos, diziam ser Deus brasileiro.

Ainda antes de ir ao dentista para me dar um jeito no dente quebrado, vi no meu celular uma convocação feita por um pastor, digamos sacerdote, de nome Malafaia, para todos os crentes participarem das “manifestações pacíficas” em favor do Messias Bolsonaro, marcadas para a Festa Nacional Brasileira, o 7 de Setembro, antes ou logo depois dos desfiles militares, com ou sem fumaça.
Não sei se estou misturando pesadelo com realidade, mas a jogada dessas manifestações do 7 de 9, (esse número é cabalístico), é imitar, mas para valer, o que fizeram os seguidores de Donald Trump para vingar a derrota, mesmo com voto impresso, invadindo o Capitólio. Em Washington, os destemperados fanáticos trumpistas queriam pegar os senadores, mas eles se esconderam. Bom, 7 de 9 é feriado no Brasil, espero não haver ninguém fazendo hora extra no Congresso.

Estranha essa atitude de um pastor-sacerdote excitar as pessoas para um chamado “contragolpe”, depois de tantas ameaças golpistas do Messias, em lugar de pregar a paz e o entendimento. Ou será que nisso também tem fumaça?

Se o Messias quebrar a cara nesse contragolpe do 7 de Setembro, e for crucificado sem direito à ressurreição no terceiro dia, quem vai assumir suas dores? Seus seguidores evangélicos?

E agora me lembro, naquela mesa, o Messias olhava profeticamente para quem? Isso! Justamente! Adivinharam, o homem é ambicioso demais e ladino! Deus acima de tudo!

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.