Friday, 19 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Jair Bolsonaro e seu inesperado aumento de popularidade

(Foto: Carolina Antunes/PR)

Em 14 de agosto de 2020, do instituto de pesquisa Datafolha, de São Paulo, revelou um dado da opinião pública que ninguém havia previsto: o presidente Jair Bolsonaro nunca foi tão popular. O levantamento foi realizado nos dias 11 e 12 de agosto, é claro. Em um mês, Jair Bolsonaro passou de 32 para 37 por cento na taxa de opinião favorável a seu governo. Desde a sua eleição, essa taxa nunca esteve tão alta nas pesquisas.

A taxa de adesão às propostas do presidente segue a mesma tendência: 57% dos brasileiros confiariam em Jair Bolsonaro, número cinco pontos mais alto do que no final de junho. Um resultado inesperado, para dizer o mínimo, para aqueles que olham para o Brasil de um ponto de vista democrático e racional. O país se afunda cada vez mais na crise do coronavírus. A dança das cadeiras dos ministros da saúde é a prova cabal do grave descaso e indiferença do governo na assistência à saúde da população. Descaso e indiferença cinicamente assumidos pelo presidente, que mais de uma vez afirmou ser a morte uma fatalidade humana inevitável, o “destino de todo mundo”.

A marca de 100.000 mortos foi ultrapassada em agosto, e se encontra próxima de atingir o escandaloso número de 130.000 mortos, ainda na primeira quinzena de setembro. Como efeito colateral da pandemia, a economia roda em marcha lenta. A queda no PIB será significativa este ano, assim como a do número de empregos. A floresta amazônica encontra-se em evidente e acelerado processo de destruição. Tudo isto ocorre concomitantemente a uma série de escândalos e processos judiciais envolvendo sua família, justo ele, que fez da luta contra a corrupção seu cavalo de batalha eleitoral. Jair Bolsonaro parecia estar em apuros, tal como o seu mentor norte-americano, Donald Trump, e pelas mesmas razões. O seu negacionismo sanitário, a prioridade que deu à economia apesar das circunstâncias, a sua frivolidade na gestão do Estado e o seu estilo “machão”, todos esses aspectos juntos, nos faziam pensar que isso os condenaria ao opróbrio popular.

Esse diagnóstico permanece válido, ao menos até o final de agosto, no que diz respeito a Donald Trump. No entanto, o mesmo não se pode dizer em relação a seu clone brasileiro. Apesar das circunstâncias acima mencionadas, as enquetes pré-eleitorais para mensurar a simpatia e a opinião popular em relação à gestão da covid-19 pelo governo Bolsonaro têm sido favoráveis há pouco mais de um mês. O suficiente para ele retomar sua retórica pouco republicana. Mas quem, no Brasil, assume a retórica e defende as ideias republicanas? Para quem Jair Bolsonaro representa o mais desprezível de todos os presidentes do período democrático brasileiro, restaurado em 1985? Quem são os que querem tirar Jair Bolsonaro do Palácio do Planalto? As pesquisas indicam que são os negros e também os grupos mais abastados: 47% daqueles com rendimento 10 vezes superior ao salário mínimo, 47% dos brasileiros com um diploma universitário. De fato, a grande imprensa, que há três anos se mobilizou contra Lula da Silva e Dilma Rousseff, contra o PT, não é de longe tão crítica em relação a Bolsonaro. Os juízes, que fazem parte destes estratos privilegiados, têm acolhido as denúncias e condenado pessoas próximas ao presidente.

Mas os ricos, no Brasil como em outros lugares, são a minoria. O que leva a considerar uma hipótese inesperada: Bolsonaro, nessa sondagem recente, conseguiu captar votos a seu favor entre os mais desfavorecidos. Muitos da esquerda brasileira atribuíram isso à desinformação. Independentemente disso, esse aumento de popularidade é fato. E sobre isso, cada um tem dado diferentes explicações. Cabe aos diferentes grupos de esquerda, assim como de direita, da direita civilizada, tentarem organizar um contra-ataque.

Diante disso, a constatação unânime é a de que o Presidente conta com a gratidão dos mais desfavorecidos. Para eles, comer vem antes da prevenção ao covid-19. O auxílio emergencial de 600 reais (pouco mais de cem dólares) por família, proposto e aprovado pelo Congresso, em março deste ano, teve um impacto decisivo. São 66 milhões de pessoas beneficiadas, e se contarmos seus familiares, são 126 milhões de pessoas atendidas. Esse montante é superior ao pago pelo “Bolsa Família”. Situação paradoxal. Justamente Jair Bolsonaro se opôs abertamente à concessão deste auxílio emergencial neste valor. Concedida pelo Congresso, à revelia de Bolsonaro e sua equipe econômica, essa medida do auxílio emergencial torna, justo ele, o chefe de Estado mais liberal e menos social que o Brasil já conheceu, como aquele que neste momento teria reduzido, de modo radical, a pobreza no país.

Cultivando a sua imagem de “Salvador” da nação, com o mesmo tom religioso de que havia se valido durante sua campanha eleitoral, imagem que se consolidou com o apoio massivo dos evangélicos pentecostais e dos católicos carismáticos, ele aparece aos beneficiários do auxílio emergencial como aquele que (se) doa, à maneira de Jesus distribuindo os pães.

A taxa de rejeição de Bolsonaro caiu drasticamente no Nordeste, considerada região “petista” e terra dos mais pobres. Estima-se que a taxa de rejeição de Bolsonaro caiu de 52% para 35%, entre o final de junho e meados de agosto, nesta região. Para os mais pobres, em nível nacional, ela caiu de 44% a 31%. Isso gera uma profunda indignação na esquerda brasileira, já que foi graças à mobilização da esquerda que o auxílio foi aprovado no Congresso, em março deste ano, com aumento de seu valor em relação à proposta inicial. Tudo isso sob os protestos do presidente. O que é verdade. Isso mostra que há um outro problema grave a ser enfrentado pelos líderes dos grupos progressistas. Além dos “tweets” e “whatsapps” de indignação enviados aos quatro ventos, a mensagem parece não chegar mais ou chegar mal até os mais empobrecidos.

No final de julho, a turnê de Bolsonaro no Nordeste do país, reduto eleitoral da esquerda, foi um sucesso. Esta região foi uma grande beneficiária do auxílio emergencial. Auxílio estatal, auxílio votado por deputados e senadores de todos os partidos e convicções, auxílio pago pelo tesouro nacional. Ainda assim, no final das contas, foi atribuído ao presidente, que é quem aparece e recebe os louros de Salvador da Pátria. Tal como São Jorge em sua passagem pelo Piauí, ele desfilou a cavalo usando um típico chapéu de couro dos vaqueiros do sertão nordestino em meio à aglomeração de apoiadores, e, como tem feito sistematicamente em plena pandemia, sem máscara.

Deputados e Senadores críticos de primeira hora, e em bom som, de sua gestão da crise sanitária do coronavírus, estavam prontos para votar a sua destituição. Agora, exercem um silêncio aprovador. Jair Bolsonaro, ao suspender seus arroubos antiparlamentares, soube levar na conversa deputados meio reticentes, e cortejou com sucesso o grupo partidário majoritário no Congresso, o “Centrão”.

Outras pesquisas, como a realizada pelo Instituto Paraná Pesquisas, encomendada pela Revista Veja, também sondaram sobre as intenções de voto para as eleições presidenciais de 2022. É claro que os resultados dessa sondagem devem ser lidos com muita cautela, já que não sabemos os nomes daqueles que irão concorrer com Jair Bolsonaro. Seja com o ex-juiz Sérgio Moro (direita independente), com João Doria (atual governador de São Paulo, pelo PSDB, de centro-direita), com Fernando Haddad (candidato do PT em 2018), com Ciro Gomes (ex-governador do Ceará, pelo PDT, de centro), com Luciano Huck (centro-direita independente), ou com Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, Jair Bolsonaro sairia vencedor da disputa eleitoral com qualquer um deles.

Calculando o potencial de rentabilidade eleitoral desse auxílio emergencial, Jair Bolsonaro pretende manter esse auxílio, ao qual nomeará “Renda Brasil”, em substituição ao Programa “Bolsa família”, ainda que isso signifique desobedecer a lei do teto de gastos públicos, criada no governo Michel Temer. Para bom entendedor…

Texto publicado originalmente em francês, em 1 de setembro de 2020, na seção ‘Actualités-Brésil’ do Site Nouveaux Espaces Latinos: Sociétés et Cultures de l’Amérique Latine & des Caraïbes, de Lyon/França, com o título original “Jair Bolsonaro, un étonnant regain de popularité… Depuis son élection il n’a jamais été aussi haut dans les sondages”. Disponível em:<http://www.espaces-latinos.org/archives/92785>.

Tradução e revisão de Andrei Cezar da Silva, Luzmara Curcino e Pedro Varoni.

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Jean-Jacques Kourliandsky é diretor do Observatório da América Latina junto ao IRIS – Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, com sede em Paris e responsável pela cobertura e análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É Formado em Ciências Políticas pelo Instituto de Estudos Políticos de Bordeaux e Doutor em História Contemporânea pela Universidade de Bordeaux III. Atua como observador internacional junto às fundações Friedrich Ebert e Jean Jaurès. É autor, entre outros livros, de “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014).