Wednesday, 06 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1195

Mas quem elegeu o capitão Desgraça?

Jair Bolsonaro

Isac Nóbrega/PR (Flickr)

Nas comemorações da passagem do ano, externei meu pessimismo diante da realidade de haver ainda um ano inteiro de Bolsonaro pela frente. Um ano é longo; é possível fazer muita besteira e, certamente, esse presidente fará.

Hoje, gostaria de fazer uma volta ao passado e lembrar como pôde acontecer essa desgraça: a eleição de um presidente incompetente, desqualificado para o cargo, sem classe alguma, sem cultura, que comprometeu mesmo o nome do Brasil nas grandes organizações internacionais como a ONU e como a Organização Mundial da Saúde.

Essa pergunta, “como aconteceu essa desgraça?”, todos nós já fizemos, inúmeras vezes, encontrando algumas respostas que nos ajudam a entender.

E, no processo, vamos nos lembrando de amigos que foram nos bloqueando por termos criticado o desmatamento da Floresta Amazônica. Como se para defenderem o capitão Desgraça precisassem também aceitar a destruição das árvores e os assassinatos dos indígenas lá vivendo.

Outros, fomos nós mesmos que bloqueamos, por se revelarem, ainda hoje, defensores da ditadura militar e do golpe de 1964. Amigos, parentes que, mesmo sabendo dos crimes e das torturas cometidos, de repente tomaram coragem de nos dizer que tinham apoiado e continuavam apoiando os gorilas de 64.

Esses três anos Bolsonaro têm sido anos de descobertas, tristes, porque nos mostraram a outra face de pessoas que faziam parte do nosso convívio, das nossas mesas. Pessoas que, de repente, sem vergonha de esconder, defendiam as prisões, o extermínio dos chamados esquerdistas, comunistas ou corruptos, apregoado por Bolsonaro, não só na sua campanha eleitoral como nos encontros com seus admiradores.

Mas como pudemos chegar a isso, se entre os defensores da linguagem do ódio havia frequentadores de igrejas, padres e mesmo pastores que conheci pessoalmente. Gente que se esqueceu daqueles episódios em que seus pais abrigaram ou tomaram conta de filhos pequenos de pessoas presas ou perseguidas pela ditadura. “Eu não acho que a ditadura tenha sido ruim ou perseguido pessoas inocentes”, me disse um deles, esquecido de que sua mãe guardara minha filha.

O que teria feito tantas pessoas comuns, amigas, frequentadoras dos mesmos cafés, missas e cultos, leitoras da Bíblia, se tornarem más, apoiarem as frases mais maldosas, as ameaças mais duras, o escárnio, a linguagem chula de um presidente sem formação moral, sem nenhum respeito sequer pelos mortos, tanto no início da pandemia, como ainda há alguns dias na tragédia que se abateu sobre a Bahia?

Por que se tornaram pessoas desumanas, maldosas, redistribuindo as mentiras cheias de ódio que mantiveram o apoio popular aos dois primeiros anos do governo do genocida? Quantos de nós se perguntam ainda hoje, nas reuniões com os amigos, que fatores levaram tanta gente boa a aderir à linguagem e à teoria do Mal? Mesmo pastores?

Todos nós chegamos a conclusões semelhantes, mas decidi tocar nesse tema ao me chegar um texto de um professor de sociologia, de uma universidade gaúcha, que sintetiza nossas respostas e as unifica quanto àquela questão: como pudemos chegar a isso? Trata-se do professor e doutor em Sociologia Política, Ivann Lago. Já reproduzi seu texto original no meu Facebook e aqui vou colocar algumas de suas frases que definem bem o quadro.

Faz-me lembrar do livro de Mário de Andrade, Macunaíma, o chamado herói sem caráter…

Para Lago, “Bolsonaro é uma expressão bastante fiel do brasileiro médio, um retrato do modo de pensar o mundo, a sociedade e a política que caracteriza o típico cidadão do nosso país.

Não a imagem romantizada pela mídia e pelo imaginário popular, do brasileiro receptivo, criativo, solidário, divertido e “malandro”.

No “mundo real” o brasileiro é preconceituoso, violento, analfabeto (nas letras, na política, na ciência… em quase tudo). É racista, machista, autoritário, interesseiro, moralista, cínico, fofoqueiro, desonesto.”

É esse brasileiro que se viu bem representado no Bolsonaro.

“Agora esse “cidadão comum” tem voz. Ele de fato se sente representado pelo Presidente que ofende as mulheres, os homossexuais, os índios, os nordestinos. Ele tem a sensação de estar pessoalmente no poder quando vê o líder máximo da nação usar palavreado vulgar, frases mal formuladas, palavrões e ofensas para atacar quem pensa diferente. Ele se sente importante quando seu “mito” enaltece a ignorância, a falta de conhecimento, o senso comum e a violência verbal para difamar os cientistas, os professores, os artistas, os intelectuais, pois eles representam uma forma de ver o mundo que sua própria ignorância não permite compreender.”

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI