Sunday, 14 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Fake news em tempos de coronavírus

(Foto: Freepik)

É plausível afirmar que não há um brasileiro sequer que não tenha ouvido falar sobre a pandemia do novo coronavírus (e a doença por ele causada, a covid-19). A maioria da população (mais de 70%, segundo pesquisa do Datafolha) está com medo da pandemia e concorda com medidas que restrinjam a circulação de pessoas com o objetivo de evitar a propagação do vírus. A preocupação é perfeitamente compreensível. Estamos apenas no início dessa grave crise de saúde pública, que só deverá se amenizar, de acordo com as estimativas mais confiáveis, nos primeiros meses do próximo semestre.

Em períodos como o atual, os meios de comunicação de massa (desde os mais tradicionais, como o rádio, chegando aos mais modernos, como a internet) tornam-se essenciais. Eles levam informações para a população, proporcionam entretenimento para quem está em quarentena e facilitam as interações entre familiares e amigos fisicamente distantes.

Se, em outras épocas, a relação entre emissor e receptor era estanque – isso é, a imensa maioria das pessoas era somente consumidora de conteúdos midiáticos -, atualmente, qualquer indivíduo, desde que tenha acesso à internet, pode compartilhar e/ou produzir informações em larga escala (independentemente da veracidade de seus conteúdos).

Nesse sentido, tem sido extremamente preocupante o elevado número de fake news ligadas à pandemia do coronavírus presentes no espaço virtual (somente a pesquisadora da Agência Lupa, Cristina Tardáguila, contabilizou mais de mil). “A difusão de informações nas mídias sociais está muito ligada a emoções fortes. Por medo, por causa de uma pandemia, as pessoas apertam muito rapidamente o botão de compartilhar, sem pensar”, explicou Pablo Ortellado, especialista no monitoramento de redes sociais, em entrevista ao Jornal Nacional.

Compartilhadas por ingenuidade, má-fé, fanatismo ideológico ou mesmo desconhecimento sobre a realidade, as informações equivocadas podem causar pânico, superlotar unidades de saúde, provocar a falta de determinados produtos nas prateleiras dos supermercados, comprometer os atendimentos em hospitais e incentivar sentimentos negativos como xenofobia, “turismofobia” e preconceito de classe.

Nos últimos dias, circularam no WhatsApp correntes com links para a obtenção de vinte gigabytes de dados da internet sem qualquer recarga e acesso gratuito ao conteúdo da plataforma Netflix durante o período de isolamento social. No entanto, conforme apurou o jornal O Estado de S.Paulo, tratavam-se de links maliciosos, com características de phishing – golpe para roubar dados pessoais, como CPF ou senhas.

Nessa mesma rede social, um áudio atribuído ao ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, trazia o seguinte alerta: “Esta semana [entre os dias 21 e 29 de março] é a mais crítica para a transmissão. É fundamental o isolamento social. Ninguém sai na rua. Se a gente conseguir isolamento esta semana, talvez consiga virar o jogo. Espalhe isso. Esta informação é fundamental”.

Em entrevista coletiva, o próprio ministro desmentiu o ocorrido: “Eu não mando áudio. Nem sei como se faz isso”.

Na leva do fanatismo religioso, há várias mensagens alegando que a pandemia do coronavírus é uma “praga divina” contra os chineses – que mataram milhares de cristãos após a revolução comunista – e um “castigo” aos brasileiros, pois “zombamos de Deus” em paradas gays, telenovelas, escolas e desfiles carnavalescos. Em um áudio que teve grande circulação no WhatsApp, o pastor evangélico Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), pedia que a população não se preocupasse com o coronavírus, pois a crise de saúde pública seria “uma tática de Satanás” (no sentido contrário, a IURD foi alvo de uma fake news atribuindo à instituição a venda de um suposto álcool em gel ungido, no valor de quinhentos reais).

Em tempos de radicalizações ideológicas, negacionismos e pós-verdades, não poderiam faltar acusações infundadas à ciência, ataques à mídia e teorias da conspiração que associam o coronavírus a governos e políticos de esquerda. “Não é só a doença que se espalha pela China e por outros países. A desinformação também cresce em ritmo alarmante e teorias de conspiração se espalham pelas redes”, alertou o blogueiro Átila Nunes.

Um “comunicado de urgência a toda nação brasileira” alertava que o PT e a China comunista queriam que as pessoas saíssem de casa e pegassem coronavírus para que o “mito”, Jair Bolsonaro, sofresse impeachment e, consequentemente, Lula e Foro de São Paulo voltassem ao poder. O “informe” se encerra com a frase típica de boatos virtuais: “Repasse para todos os grupos”.

Evidentemente, não há como identificar a origem do comunicado acima; pode ter sido uma espécie de “pegadinha” para ludibriar o exercício bolsonarista virtual, mas, em se tratando de paranoia antipetista, não é de se duvidar que muita gente tenha repassado essa informação como se fosse verídica.

Ainda na onda xenófoba, um texto de autoria desconhecida mencionava uma suposta “Operação Xeque-Mate” feita pelo governo de Pequim para dominar a economia mundial. A estratégia consistiu em criar o coronavírus, espalhar pânico pelo planeta e, aproveitando-se da situação de crise, comprar ações de empresas estadunidenses e europeias a preços irrisórios. “Você não se lembra de um movimento tão brilhante na história do mercado de ações”, conclui o texto. Mais conspiratório, impossível.

Por sua vez, Ailton Benedito, secretário de Direitos Humanos da Procuradoria-Geral da República, também considera que o governo chinês esteja por trás da pandemia. “A cada epidemia de vírus originária na China, o mundo entra em crise econômica. Então, aquele país se recupera antes de todos os outros e se torna mais poderoso geopoliticamente”, acusou o secretário.

Como não poderia deixar de ser, movimentos negacionistas usaram a internet para manifestar seus posicionamentos em relação à pandemia do coronavírus.

Grupos de militantes antivacinação compartilharam várias mensagens no Telegram que duvidavam da própria existência da covid-19.

Guru da ala mais radical do bolsonarismo, o astrólogo Olavo de Carvalho usou suas redes sociais, acessadas por milhões de seguidores, para espalhar desinformações sobre a pandemia do coronavírus. Conforme contabilizou o Blog da Cidadania, somente em 16 de março Olavo fez pelo menos quatro postagens criticando a preocupação global com a doença, classificada por ele como uma “experiência social e psicológica”. Contrariando estudantes científicos, e, principalmente, os números de óbitos cada vez mais alarmantes, Olavo também questionou a informação de que a covid-19 possa causar mortes.

No Twitter, corroborando a tendência do guru bolsonarista, Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, classificou o isolamento social com o objetivo de conter a disseminação do coronavírus como a “maior imbecilidade da história da humanidade”, pois “confinaram 99% da população em casa para vencer um vírus que mata em torno de 1% dos infectados”. Para Camargo, a esquerda tem interesse em que as pessoas fiquem semanas ou meses sem trabalhar “porque insiste em derrubar o governo Bolsonaro”.

Seguindo essa corrente conspiratória, o jornal digital Poder 360 publicou um artigo que apresenta a pandemia do coronavírus como um “medo desnecessário alimentado pela mídia”. Qualquer semelhança com os polêmicos pronunciamentos em rede nacional de Jair Bolsonaro não é mera coincidência.

Diante dessa realidade, não é de se estranhar que o bloco intitulado Movimento Direita Conservadora garantia a participantes de um ato público na Avenida Paulista que a pandemia do coronavírus era uma mentira. Ainda em São Paulo, um manifestante segurava um cartaz com a frase “coronavírus pode até matar, já a corrupção, além de matar, tende a perpetuar. O mito quer mudar”.

Também há várias notícias falsas sobre as possíveis curas para a covid-19. A primeira se espalhou pela internet no formato de uma imagem, com a seguinte mensagem: “o coronavírus, antes de atingir os pulmões, permanece na garganta por quatro dias e, nesse período, a pessoa começa a tossir e sentir dores na garganta. Se essa pessoa beber muita água e fizer gargarejo com água morna, sal ou vinagre, isso eliminará o vírus”.

Para o bem da saúde pública, em entrevista para o site R7, o infectologista Evaldo Stanislau Affonso de Araújo, membro da diretoria da Sociedade Paulista de Infectologia, desmentiu a farsa: “Não existe isso. É bobagem. [O vírus] é aspirado e vai da parte superior para a inferior do trato pulmonar, mas isso é uma coisa instantânea”.

Não obstante, vídeos e textos com “notícias” sobre supostas curas e vacinas contra a covid-19 que já estariam sendo produzidas e aplicadas com certa frequência em países como Israel, China, Estados Unidos e Cuba também viralizaram nas redes sociais. Tanto esquerdistas quanto direitistas estão vulneráveis a espalhar boatos, desde que corroborem seu viés ideológico.

Outras inverdades exaustivamente compartilhadas no espaço virtual apontavam que a Ambev estaria distribuindo álcool gel gratuitamente, uma máscara com lenços umedecidos inventada na China preveniria a covid-19, espalhar cebola pela casa evitaria contágio e chá de erva-doce (por ser um dos componentes do medicamento Tamiflu, retroviral usado para casos de gripe) seria eficiente no combate ao coronavírus.

Porém, conforme esclareceu uma matéria da revista eletrônica Hospitais do Brasil, erva-doce não é componente do medicamento Tamiflu. Portanto, não é eficiente no combate ao coronavírus.

Ao Portal R7, o infectologista Evaldo Stanislau Affonso de Araújo confirmou que a Organização Mundial da Saúde não recomenda nenhum tipo de máscara de tecido ou improvisada. “Nenhuma pessoa que não tenha sintomas deve usar máscara. Apenas profissionais de saúde e quem está doente precisa usar”, destacou o infectologista.

Em relação à suposta distribuição de álcool gel, a Ambev elucidou: “Algumas mensagens estão circulando pelas redes sociais levando ao cadastro para retirada de álcool em gel em postos de recolhimento. Gostaríamos de alertar que nosso álcool em gel produzido será destinado para uso em hospitais públicos. Não clique em links suspeitos”.

No balneário capixaba de Guarapari, onde um decreto da prefeitura proibiu temporariamente a entrada de veículos de turismo no município, circulou nas redes sociais um vídeo com um suposto grupo de excursionistas (idosos em sua maioria) que teria violado a proibição feita pelo poder público.

Mesmo com a comprovação de que o vídeo foi registrado em uma data anterior ao decreto, não faltaram comentários “turismofóbicos” nas redes sociais, insinuando que os idosos vindos de outras cidades poderiam ser responsáveis por introduzir o coronavírus em Guarapari (até então, sem nenhum caso confirmado da pandemia).

Além do mais, é importante ressaltar que idosos constituem “a faixa etária mais vulnerável” aos efeitos da covid-19, mas “não são necessariamente os principais transmissores do vírus”. Trata-se de uma ignorância similar às pessoas que matam determinados macacos acreditando que, assim, estão contribuindo para a diminuição de casos de febre amarela.

Para o deleite dos místicos, também fizeram parte do arsenal de boatos virtuais supostas previsões sobre o coronavírus presentes em um livro de 1981, em escritos de Nostradamus do século XVI e em um episódio do desenho Os Simpsons da década de 1990.

Se algumas fake news possuem efeitos praticamente inócuos, como as citadas no parágrafo anterior, outras podem causar problemas seríssimos. O boato de que havia sido promulgada uma medida provisória que determinava a suspensão da aposentadoria dos idosos que saíssem às ruas em meio à pandemia do coronavírus trouxe transtornos desnecessários para várias pessoas de idade avançada, receosas com a possibilidade da perda de seus rendimentos mensais.

Não bastasse o momento extremamente conturbado pelo qual passamos, ainda temos que lidar com áudios que espalham o pânico entre a população, “denunciando”, por exemplo, que mais de mil pessoas estariam internadas com covid-19 em hospitais privados de São Paulo (a maioria em estado gravíssimo).

Já a falsa informação de que o uso de medicamentos que contém hidroxicloroquina e cloroquina seria uma medida eficiente para o tratamento da covid-19 provocou uma frenética corrida às farmácias. Resultado dessa imprudência: falta de alguns remédios e o consequente comprometimento do tratamento de saúde de muitas pessoas.

Levando em consideração esse caótico cenário de caos informacional, em um oportuno artigo publicado na anteriormente citada Hospitais do Brasil, a PHD em Pediatria pela USP Denise Lellis advertiu que temos três epidemias em andamento: coronavírus, informações duvidosas e medo. A primeira é a mais importante; na medida do possível, está sendo combatida. A segunda epidemia é um pouco mais difícil de evitar, pois a informação invade nossas vidas sem que estejamos procurando por ela. A terceira epidemia em andamento, relacionada ao medo, pode tanto ter uma base real como pode ser gerada de maneira paranoica pelo excesso de informações falsas.

Não por acaso, um comentário irônico num grupo de WhatsApp feito pelo meu primo definiu bem a atual situação: “observando o comportamento da internet esses dias, rola só uma certeza: o mundo tá bem demais. Com o tanto de ignorância, era para gente estar muito pior”. E, mesmo assim, 72% dos brasileiros se consideram bem informados sobre os últimos acontecimentos, segundo o Datafolha.

Realmente, não dá para ser otimista em um país onde os conteúdos dos áudios sensacionalistas compartilhados no WhatsApp e as falas do presidente da República não têm muitas diferenças.

Boatos virtuais à parte, é fato que não devemos nos apegar a “verdades absolutas”. Desde que minimamente plausível, qualquer hipótese pode ser aventada. O coronavírus pode ser uma arma biológica produzida por uma grande potência com objetivos escusos? Pode, mas, por enquanto, não há um único indício que confirme isso. Haverá algum medicamento ou vacina que traga a cura para a covid-19? Provavelmente, mas não em curto prazo. A pandemia matará milhões de pessoas? Caso não sejam tomadas as medidas necessárias – tanto por parte dos poderes públicos quanto do cidadão comum -, infelizmente poderá ocorrer.

Enquanto isso, cultivar bons hábitos de higiene, priorizar uma alimentação saudável, ter uma conduta pessoal coerente com a situação, manter a mente ativa, não acreditar em qualquer bobagem que se lê por aí e confiar nas informações produzidas por profissionais sérios do jornalismo e da ciência ainda são as melhores maneiras para lidar com esses tempos difíceis. Afinal de contas, seria absolutamente surreal pensar que as principais notícias sobre uma pandemia que preocupa todo o planeta nos chegariam através de áudios no celular ou de textos anônimos nas redes sociais. É importante que o bom senso prevaleça sempre.

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Francisco Fernandes Ladeira é mestre em Geografia pela UFSJ. Autor dos livros A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes (parceria com Vicente de Paula Leão) e 10 anos de Observatório da Imprensa: a segunda década do século XXI sob o ponto de vista de um crítico midiático (em processo de edição), ambos pela editora CRV.