Friday, 19 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1201

Imprensa que eu gamo

(Foto: Freepik)

Na semana do Dia do Jornalista, 7 de abril, ninguém acertou mais do que o bloco carnavalesco carioca Imprensa que eu Gamo, criado há 25 anos. Imprensa é a tábua de salvação dos náufragos na guerra da desinformação que contaminou a mídia. O finlandês responsável pelo maior programa do mundo contra fake news, Jussi Toivanen, afirmou na Veja (25 de março): “A mídia é o vaso condutor da democracia. Quando há intenção de ferir uma sociedade, a imprensa é o primeiro alvo”. A imprensa apanha, mas salva vidas, Cora Ronai reforçou em O Globo (2 de abril).

Estamos em guerra, e quem já cobriu guerras como eu sabe que, ali, todo mundo mente. Ésquilo, no século V a.C., já sabia: na guerra, a primeira vítima é a verdade. A imprensa profissional é o ovo de Colombo descoberto esta semana, três depois do confinamento que obrigou as pessoas a se informar para não morrer. Jornalismo é oposição e, nesta crise, virou ressurreição em entidades como a Associação Brasileira de Imprensa, que apresenta pelo menos cinco contas de WhatsApp vigilantes, instigantes, alertas. Ou os grupos de jornalistas em geral e o dos ex-Jornal do Brasil em particular. Jornalismo é oposição e, como disse José Eduardo Agualusa em O Globo (4 de abril), não há boas notícias falsas, “ler jornais, comprar jornais, transformou-se numa urgente forma de resistência contra a estupidez e o autoritarismo”. O mesmo periódico carioca já havia alertado: “Jornalismo profissional ganha força na pandemia” (30 de março). O Datafolha (25 de março) comparou o nível de confiança do público nas mídias profissionais (61%) com aquela depositada nas plataformas de redes sociais (12%). “O jornalista profissional é insubstituível neste momento, só ele pode separar fakes de news”, diz o jornalista Eugênio Bucci. Por horror à mentira ou por desobediência civil, o papel do jornalismo veio à tona. Quem sabe, agora, os veículos recomecem a contratar jornalistas profissionais, com diplomas que, obrigatoriamente, voltem a ser obrigatórios.

A desinformação mata como o vírus e os ataques só aumentam a consciência do valor do seu papel. Os jornalistas, confinados num chiqueirinho em frente ao Palácio da Alvorada, deram pela primeira vez as costas ao presidente que estimulava apoiadores a hostilizá-los.

Os tuítes de Bolsonaro, a defesa cega do “sangue do meu sangue”, o gabinete do vereador do Rio ao lado do seu, em Brasília, o tuíte de Carluxo avisando que Mourão conspira contra o pai – até onde a imprensa e os leitores aguentam? Presidente isolado, o bloco Moro, Mandetta e Guedes unido no combate à covid-19 contra Bolsonaro. Lá fora, líderes latinos, asiáticos, europeus – e até tu, Trump – se fecham na derrota do inimigo viral. The Economist (28 de março) rebatiza o presidente, BolsoNero. O impossível acontece, Lula e o governador de São Paulo, João Doria, juntos no combate ao vírus. Era Tancredo Neves quem dizia: votos você não tem, já teve.

Isolado? Não, em má companhia. O presidente do Turcomenistão baniu a palavra coronavírus do país, o presidente de Belarus receitou 100 ml de vodca para lavar o invasor invisível, Daniel Ortega convocou a população nicaraguense a participar da marcha “amor nos tempos da covid-19”.

Bolsonaro ataca quem pode. “Ele (Mandetta) precisa ter mais humildade, ouvir mais o presidente da República”, declarou à Jovem Pan sobre o ministro da Saúde, hoje o maior equilibrista do Planalto, que cometeu o pecado mortal de ter apoio de 76% dos brasileiros contra os seus 33%. Mas Bolsonaro ameaça “canetar” – para bom leitor, demitir Mandetta. Também para quem sabe ouvir, Mandetta ao vivo, em rede nacional no dia 6 de abril, explica que esteve mais apreensivo o dia todo e que voltou a ler O mito da caverna, de Platão. “E voltei a não entender”, disse. Na leitura dialética, o mito ressalta a relação entre a escuridão e a luz, ou a ignorância e o conhecimento. E mandou um recado velado: “quando eu sair daqui, toda a equipe sai, saímos todos juntos”.

Bolsonaro não se importa, flerta com o primeiro-ministro autoritário, controlador da imprensa, ultraconservador da Hungria e suspenso do Partido Popular Europeu por suas atitudes antidemocráticas. Porque Viktor Orbán acaba de aprovar, no Parlamento, uma lei que o permite governar por decreto por tempo indeterminado. De tanto Bolsonaro imitar Orbán e Trump, o líder da influente empresa de consultoria de negócios Eurásia, Ian Bremmer, concluiu: “Comparado a Bolsonaro, Trump parece um Churchill”.

“Não, não gosto que me mintam”, explicou Agualusa, e as mentiras de Bolsonaro são muitas:
“Vocês viram o que o presidente da OMS falou? Viram aí?”.

“O tratamento da covid-19, à base de hidroxicloroquina e azitromicina, tem se mostrado eficiente nos pacientes”.

“Pelo meu histórico de atleta, se fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar”.

“Porque não vai, no meu entender, conter a expansão (do vírus) desta forma muito rígida…sem histeria”.

”Nossa Amazônia é maior do que toda a Europa Ocidental e permanece praticamente intocada, prova de que somos um dos países que mais protegem o meio ambiente”.

“Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”.

“Estou quase na metade do segundo ano de mandato aqui, não tomei nenhuma medida contra a imprensa brasileira como o partido que tava lá atrás.”

Nas redes sociais, as críticas ao presidente superam o apoio, Facebook, Instagram, Twitter, todos barram posts contra a saúde ou os que negam o vírus, como já fizeram com Bolsonaro, com o pastor Silas Malafaia, o ideólogo da República Olavo de Carvalho, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, o senador Flávio Bolsonaro. Nicolás Maduro, da Venezuela, desafeto de Bolsonaro, defendeu “o uso de plantas medicinais” para matar o vírus e também teve o tuíte excluído. No Brasil, o STF sinaliza imposição de limites ao presidente. “É interessante que um presidente que se elegeu manipulando redes sociais, com base em robôs e ambientes pouco éticos, tenha chocado até mesmo o Facebook”, diz Bucci, embora, para o jornalista, apagar a mensagem abusiva é um erro que pode levar à desinformação histórica. “A memória social tende a esquecer, o certo seria carimbar os posts e não destruir provas, para que a população julgue o que foi escrito”.

O vírus já infectou 1,2 milhão de pessoas no mundo e matou mais de 60 mil. No Brasil, matou 553, mais de 12 mil casos. As consequências são funestas: em São Paulo, a cultura tem prejuízos estimados em 34,5 bilhões de reais; no país todo, os empregos podem diminuir em 57% – melhor aceitar a redução de 50% de salário, que pode chegar a 100%.

“A bolsa ou a vida?” é a pergunta que extrapola os comics e filmes de faroeste para, ainda, deixar o presidente em dúvida. Enquanto isso, os médicos estão diante de uma verdadeira escolha de Sofia nos hospitais desaparelhados. Salvar a jovem desmiolada de 25 anos ou o emérito cientista de 85? Só há respirador para um dos dois. No Brasil, 250 mortos ainda estão na fila para esperar confirmação da causa: não há testes suficientes. O resto da população pergunta quais são as chances de sobreviver se pegar o vírus e os parentes se fazem aquela pergunta já contida por Sófocles em Antígona cinco séculos a.C: que chance teremos de enterrar nossos mortos? Em uma semana, as mortes por covid-19 subiram 290%. Não faltam só leitos, faltam covas.

Sim, são perdas históricas para investidores e empresários, a venda de carros novos cai 90%. Recessão, inflação, deflação; o susto levou o economista Luiz Gonzaga Belluzzo a refletir, na Carta Capital (25 de março), que a crise do coronavírus operou o milagre de transformar neoliberais em keynesianos. Descobriram: “as pessoas fazem parte da economia. Eureka.” A euforia do mercado virou medo. As ações emergentes do governo, incluindo antecipação de benefícios e crédito, somam R$ 750 bilhões, 2,6% do PIB segundo Paulo Guedes – recluso, em casa.

A economia que estava “a um milímetro do paraíso”, segundo Guedes, capotou, e Elio Gaspari (Folha de S.Paulo,1º de abril) revela a importância e a lição para o mundo de uma rede pública de saúde como o SUS, até então o patinho feio da medicina nacional. Como socorrer os milhões de brasileiros sem planos milionários de saúde? E morreram de velhice ou descuido os 79 idosos do hospital paulista Sancta Maggiore, da rede Prevent Senior, que salvou com mensalidades justas os brasileiros de mais de 59 anos sem planos de saúde?

Os bancos vão ajudar? A elite vai sair do pedestal e se igualar aos norte-americanos e europeus que subsidiam cultura, saúde, tudo que pode beneficiar a sociedade além de enriquecer seus próprios bolsos? É querer muito pedir, durante a quarentena, a revogação do teto de gastos do governo, suspensão de ordens de despejo, um plano de garantia de emprego para todos, um benefício urgente para trabalhadores informais ou desempregados, anistia das contas de água, luz e gás? Ou deve-se ignorar por ser “coisa de esquerdista”, já que foi o pedido de Guilherme Boulos na Carta Capital?

Agora não há máscaras nem para os políticos e vai ser bom ver a classe sem máscaras, o próprio rosto. A doença da solidão deixou o streaming grátis – documentários, exposições, gastronomia -, fomentou sonhos de viajar, ensinou o do it yourself aos acomodados, permitiu um Zoom para falar com amigos e parentes que sempre estiveram ao seu lado, mas não dava para ver. Proliferam avisos virtuais de que vai ter Páscoa na quarentena, sim, porque falta endorfina na população estacionada no sofá de casa.

Quando isso acabar, o normal nunca mais vai ser o mesmo, o normal vai ser outro. O normal até vai reconhecer que a imprensa, os jornalistas profissionais, são essenciais para a democracia, ou você não saberia nada do que está escrito aqui.

P.S. No Dia do Jornalista, justo no meio da pandemia, só me ocorre pensar em Alberto Dines, morto há menos de dois anos, aos 86 anos, 65 praticando a profissão até o fim. A falta que ele faz só vai ser dimensionada quando for criado um instituto com seu nome, resgatando seus princípios, ética e projetos até o ano 3000, republicando seus livros, instituindo uma cátedra, oferecendo aos estudantes a pesquisa aos milhares de livros e documentos arquivados no escritório da Vila Madalena. Um resgate à dignidade da profissão, agora maltratada feito Geni.

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Norma Couri é jornalista.