Sunday, 14 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Os ataques à imprensa e a divisão da sociedade em tempos de pandemia

(Foto: Sérgio Lima/Poder360)

Seria muita ingenuidade acreditar que, com a temível pandemia do coronavírus, os brasileiros, separados pela chamada polarização ideológica, enfim se uniriam para combater um inimigo em comum. Nesse sentido, mesmo com a grave crise de saúde pública, podemos afirmar que dois fatores básicos explicam a impossibilidade de coesão em nossa sociedade. Tratam-se dos discursos inflamados do presidente da República, Jair Bolsonaro, e o próprio funcionamento do modo de produção capitalista.

Desde o início de seu mandato presidencial, Bolsonaro se sustenta na divisão da sociedade, pois governos de extrema-direita têm na constante criação de inimigos externos um de seus principais pilares.

Até meados do mês de março, com as divulgações dos primeiros casos de covid-19 no Brasil, havia um relativo consenso entre a população sobre a quarentena horizontal ser a melhor alternativa para evitar a rápida propagação do coronavírus.

Porém, esse relativo consenso mudou subitamente após um pronunciamento de Bolsonaro, em cadeia nacional, incentivar a população brasileira a romper o isolamento social.

Essa fala foi suficiente para o exército bolsonarista em todo país reivindicar o fim da quarentena, sob o argumento de “proteger a economia”. “Isolem os idosos, voltemos ao trabalho!”, foi o grito de guerra bolsonarista.

Já em relação ao modo de produção vigente, segundo fator que impede a coesão social no Brasil, o velho Marx dizia: no sistema capitalista, os interesses de patrões e empregados são inerentemente irreconciliáveis. A economia de mercado é um jogo de soma zero. Portanto, não há medidas que sejam simultaneamente benéficas para capitalistas e proletariado. “O que são milhares de mortos frente aos nossos prejuízos econômicos?”, pensaram muitos empresários Brasil afora.

As recentes carreatas pela reabertura total de todos os setores da economia, desrespeitando a quarentena sugerida pelas principais autoridades sanitárias, comprovam que os patrões não estão preocupados com a saúde ou a subsistência do trabalhador, mas em garantir seus lucros.

No entanto, foi nas redes sociais que os exércitos digitais bolsonaristas mais se mobilizaram. Fechados com o “mito”, unificaram seus discursos. Dispostos a defender o fim do isolamento social a todo custo, atacaram todos aqueles que consideravam contrários à sua posição.

Os bodes expiatórios da vez foram a Rede Globo, o governador de São Paulo, João Doria, e, como não poderia deixar de ser, os petistas (generalização bolsonarista para rotular quem pensa de forma diferente).

As críticas à Rede Globo estão relacionadas às matérias da emissora que condenaram o comportamento negligente de Jair Bolsonaro frente ao coronavírus.

Nessa lógica, não compactuar com um discurso que minimiza os efeitos nefastos de uma pandemia que assusta todo o planeta seria simplesmente “torcer contra o Brasil”.

Aliás, à exceção de quem está diretamente ligado à extrema-direita – como Ratinho, do SBT, José Luiz Datena, da Bandeirantes, e Tomé Abduch, da recém-criada CNN Brasil -, nenhum nome da grande mídia aprova as atitudes inconsequentes de Jair Bolsonaro.

Não por acaso, em 31 de março, jornalistas que acompanhavam a fala de Bolsonaro na saída do Palácio da Alvorada deixaram o local de entrevista após o presidente estimular seus apoiadores a xingar os repórteres. Em Duque de Caxias, uma equipe da InterTV Rio foi hostilizada por pessoas favoráveis à reabertura do comércio. O mesmo ocorreu em Minas Gerais, com uma repórter da TV Integração, afiliada local da Rede Globo.

Já os ataques a João Dória foram de acusações infundadas a ameaças de morte (conforme relatou o próprio governador paulista).

No Facebook e no WhatsApp, perfis conservadores compartilharam áudios, textos e vídeos fakes sobre um suposto decreto do governo de São Paulo para relacionar todos os óbitos no estado à covid-19.

Segundo os bolsonaristas, esse “decreto” tem por objetivo gerar pânico entre a população, forçar a continuação da quarentena, desestabilizar a economia e, consequentemente, provocar a queda da popularidade de Jair Bolsonaro, abrindo caminho para a eleição de João Doria para a presidência da República daqui a dois anos e meio.

É fato que João Doria têm aspirações em chegar ao Planalto. A queda da popularidade de Bolsonaro seria um fator favorável a isso. Entretanto, por mais que sejamos contrários à ideologia política de Doria, é fundamental denunciar as calúnias às quais ele tem sido vítima ultimamente.

Conforme o de costume, os petistas também estão no grupo daqueles que, segundo o exército bolsonarista, são responsáveis por “torcer contra o Brasil”.

Para os seguidores do “mito”, à revelia das vidas em risco, somente os “petistas que não gostam de trabalhar” são contrários ao fim da quarentena. Simples assim.

Desse modo, vai se configurando um bizarro cenário. Se antes os bolsonaristas já representavam um perigo para a frágil democracia brasileira, agora, ao incentivar aglomerações em um contexto de pandemia e hostilizar repórteres, também se transformaram em riscos para a saúde pública e para o livre exercício do jornalismo.

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Francisco Fernandes Ladeira é mestre em Geografia pela UFSJ. Autor dos livros A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes (parceria com Vicente de Paula Leão) e 10 anos de Observatório da Imprensa: a segunda década do século XXI sob o ponto de vista de um crítico midiático (em processo de edição), ambos pela editora CRV.