Friday, 19 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1201

Terrorismo na pandemia: a nova ameaça

(Foto: Angelina Bambina/Shutterstock)

Já foi dito que a verdade é a primeira vítima em uma guerra. E se a guerra é apenas a continuidade da política por outros meios, como disse Carl von Clausewitz (em sua obra seminal Da guerra), a verdade seria também a principal vítima – tanto na guerra quanto na política. Assim sendo, a subversão dos fatos e a construção de mentiras são atos potencialmente destruidores, em larga escala: poderiam desorientar e levar a erros fatais populações inteiras. Podem ser considerados atos de guerra, portanto. Em guerras não convencionais, seriam atos terroristas.

Nessa pandemia mundial do coronavírus, estamos enfrentando, por suposto, uma guerra em termos jamais vistos, especialmente de natureza política. Logo, o apego aos fatos e ao bom senso, buscando a verdade, poderia salvar bilhões de vidas, de um ponto de vista mais amplo. Poderia salvar a economia, a sanidade mental e o bem-estar, em níveis mundiais. Essa reflexão aparentemente lógica parece razoável. Mas, na prática, estamos longe disso. Pior: a estrutura de difusão de informações, supostamente mais adequada para dirimir tal ameaça, seria a assim chamada imprensa tradicional – exercendo os níveis de responsabilidade desejáveis. Mas a imprensa encontra-se na linha de fogo, combatida de uma maneira impressionante. Em redes alternativas de informação, a imprensa tem sido vista, sistematicamente, como manipuladora de fatos e inimiga da verdade – e não como sua difusora.

No caso brasileiro (o que, de imediato, mais nos interessa), temos um alto grau de imprevisibilidade, de desinformação e de desorientação. São ingredientes para o caos, mas este ainda não se deu. Dará se, e quando, atingirmos altos níveis de infecção pelo vírus, que levem ao colapso do sistema público de saúde. Outros sistemas públicos podem também entrar em colapso. Citando somente o que foi noticiado a respeito do nosso vizinho sul-americano, o Equador, o país já estaria sofrendo um colapso no sistema funerário. Haveria várias dezenas, talvez centenas, de cadáveres insepultos. É difícil imaginar um quadro que cause tamanho horror.

Já que estamos, nós mesmos, sofrendo de informações desencontradas, talvez algum tipo de comparação seja adequado. No momento, a situação norte-americana, nesta pandemia, poderia se constituir no que seria o Brasil amanhã. E comparar Brasil e Estados Unidos tem sido um exercício bastante difundido historicamente – atualmente, talvez, ainda mais.

Citando apenas duas obras, Uma história do Brasil, de Thomas Skidmore (Paz e Terra, 4ª edição, 2003), e Formação do império americano, de Luiz A. Moniz Bandeira (Civilização Brasileira, 2009), temos, na primeira obra, um norte-americano escrevendo sobre o Brasil. Na segunda, um brasileiro escrevendo sobre os EUA. Ambas foram celebradas pela crítica, considerando as diferenças metodológicas (e ideológicas) observadas. No caso presente, dois aspectos revelam: primeiro, foram editadas antes do advento da “tirania” das redes sociais; além disso, são obras historiográficas que levam em conta, respeitosamente, fontes históricas alternativas, tais como os registros feitos pela imprensa, em geral.

As distinções entre EUA e Brasil são, provavelmente, tão grandes quanto suas semelhanças: em que pesem os fatos básicos de que ambos são países de dimensões continentais, têm um tempo histórico aproximado, foram colonizados por europeus e se encontram no Novo Mundo. A partir disso, qualquer abordagem gera controvérsias.

Entretanto, o contexto da pandemia do coronavírus trouxe alguns novos pontos de contato. Começando pela China. As relações de amor e ódio entre os três países têm sido objeto de atenção há algum tempo e não têm diminuído. Associa-se a isso a relevância econômica e comercial que a China tem para as outras duas nações, somada a impasses de ordem política. Finalmente, outra questão que se apresenta seriam as afinidades entre os atuais presidentes do Brasil e dos EUA, desenvolvidas recentemente. Estão alinhados de diversas maneiras. No que tange ao comportamento, salta aos olhos a relação tempestuosa que ambos têm com a imprensa e seus métodos de difusão de informações.

Mas, a partir de um certo momento, o alinhamento entre ambos mostrou divergências. Trump passou a tratar a pandemia seriamente e, hoje, os EUA têm, oficialmente, o maior número de contagiados, apresentando recordes mundiais de mortes diárias. No Brasil, ao contrário, Bolsonaro não apenas mostra uma conduta contraditória. Adota, em alguma medida, comportamentos terroristas.

Citando um único episódio de ação supostamente terrorista adotada por Bolsonaro, temos o vídeo ardilosamente gravado na Ceasa de Belo Horizonte, MG, na última semana de março. Promovendo o pânico entre a população, o vídeo denunciava o desabastecimento de alimentos na capital mineira. Bolsonaro acolheu o vídeo e o divulgou nas redes sociais, assumindo a responsabilidade por sua veracidade. Um helicóptero da reportagem dirigiu-se à Ceasa e constatou a fraude, mostrando um abastecimento normal de gêneros alimentícios. O vídeo foi censurado, retirado do ar, e o presidente viu-se obrigado a pedir desculpas. Pergunta: tais desculpas seriam pedidas se a reportagem não tivesse se dado ao trabalho de checar a informação? A Polícia Civil mineira abriu inquérito criminal para apurar o fato.

O célebre episódio de Orson Welles ao narrar uma suposta invasão alienígena, em 1938 (com base na obra de H. G. Wells), num programa de rádio, provocou o terror na Costa Leste norte-americana. Naquele momento, já se desenhava a Segunda Guerra Mundial, o que conferiu o clima correspondente. Desse exemplo, conclui-se que reações de massa, potencialmente histéricas e perigosas, não são novidade. Mas, diante dos bilhões de difusores manuais de notícias, à disposição de todos, sua envergadura seria, hoje, incalculável. No caso brasileiro, destaca-se o fato de que a principal autoridade da República se presta a posicionamentos irresponsáveis, com grande potencial de dano. Terrorismo?

Na história, o déjà-vu tem dúbia reputação. Karl Marx afirmou, no Dezoito brumário, que a história não se repete. Ocorre, uma primeira vez, como tragédia. Numa segunda edição, não passaria de uma farsa. Porém, no Brasil, tudo é muito específico…. Corremos o risco, nesse caso, de produzirmos, ao final, apenas uma comédia de mau gosto. Em tempo real e com cobertura mundial. Veremos.

***

Marco A. Andere Teixeira é historiador, advogado, cientista político e professor, especialista em Controle Externo e pós-graduando em Direito Administrativo pela UFMG.