Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

O jornalismo contemporâneo e o negócio da arte

(Foto: Wilton Garcia – artista visual, pesquisador e professor da Fatec Itaquaquecetuba/SP – arquivo pessoal)

A produção cultural da arte no Brasil vai bem, embora passe por reivindicações ideológicas. Ultraconservadores acabam legitimando intenso valor aos desafios estéticos. É uma disputa acirrada. Esse paradoxo provoca discussões, conflitos e contradições. Mas, também resultados auspiciosos.

O mercado da arte no Brasil

O negócio da arte brasileira está crescendo. Os preços elevados das obras fomentam o capital financeiro, mas também o capital cultural e social. O que se vende não é apenas um quadro de pintura, uma fotografia ou uma escultura. Para além do status, quem compra arte adquire informação e poder.

As feiras de artes e os equipamentos culturais, cada vez mais se preparam para receber as novidades. Esses eventos e instituições assumem o campo criativo das exposições e compreendem temas recorrentes do cotidiano. Nesse caso, o sujeito torna-se tema da obra artística, demonstrando a emergência de seu protagonismo.

Assim, investir em arte tem surpreendido a economia criativa, ao abrir caminhos para profissionais da comunicação. O mercado brasileiro de arte está alinhado, então, quando se trata de propor um negócio forte da obra de arte como ativo para ganhar vantagem: rentabilidade e lucratividade.

Jornalismo contemporâneo

A cobertura jornalística sobre esse negócio traz as novidades para artistas, curadores, galeristas, colecionadores, advisors (especialistas), produtores culturais, entre outros. O que é notícia vale ouro nesse tipo de aplicação comercial. E o jornalismo se especializa conforme as demandas e as tendências, possibilitando ao jornalista a adentrar, ainda mais, nesse complexo universo (de ações, bolsa, investimento).

Se o papel do jornalismo é transformar o fato em notícia, o negócio da arte surge como situação instigante para se pensar acerca da produção cultural brasileira, uma vez que o jornalismo cultural cuida das matérias culturais envolvendo seu entorno. A prática jornalística serve com a informação ideal.

Pauta cultural

Há um esforço em constituir alternativas criativas para se pautar o cotidiano. O modo de aproximar jornalismo e curadoria, por exemplo, instiga a se pensar sobre novas profissões que, interdisciplinarmente, surgem conforme necessidade.

Por isso, a formação cultural, do/a estudante de jornalismo precisa ultrapassar a convencionalidade da profissão para dinamizar uma pauta cultural, capaz de agregar valor ao mundo contemporâneo. Esse tipo de pauta flerta com a diversidade cultural/sexual, étnico-racial, de gênero, geográfico e afins. Pesquisar aspectos flexíveis para a inclusão tangencia a pluralidade de vozes e olhares, antes, adormecidos.

Como artista visual e professor de comunicação, considero que o acesso à informação, no contemporâneo, torna-se um bem precioso. Afinal, a sociedade brasileira tem o direito de acessar a cultura, de forma digna.

Nesse contexto, elementos culturais desafiam artistas e intelectuais, visto que o negócio da arte solicita abertura e flexibilidade para dialogar com o/a Outro/a. Ao ampliar o repertório, o profissional do jornalismo alarga seu editorial cuja pauta baseia-se no processo de produção de conhecimento, informação e subjetividade. Desafio: você já está pronto para escrever sobre uma exposição?

Afrolatin+

A exposição Latinoamerica_negra_contemporânea, com curadoria do professor de jornalismo Luciano Maluly (ECA-USP), acontece no Memorial da América Latina, até o dia quatro de fevereiro de 2033. A mostra reúne 21 trabalhos criativos que focam a afrolatinidade.

Nas obras, as derivações étnico-raciais de mestiçagem e criolagem, entre traços indígenas e afrodescentes, destacam estados intermediários de negritudes xamânicas da América Latina. Tal condição antropofágica devora nossa cultura híbrida como mediação cultural, ao registrar vestígios de uma persona afrolatina. Das heranças ancestrais, vertentes afrolatinas abertas trazem a imagem cabocla, caipira, caiçara…

Na abertura da exposição, no dia 19/11 (sábado), haverá uma performance da artista visual, performer e escritora negra Terezinha Malaquias. É um evento que comemora a Consciência Negra no Brasil.

Serviço:

Exposição Latinoamerica_negra_contemporânea

Memorial da América Latina | Espaço Gabo

Avenida Mário de Andrade, 664 – Barra Funda

Inauguração: 19 de novembro, a partir das 11h

Visitação: De 20 de novembro a 4 de fevereiro de 2023

De terça a domingo, das 10h às 17h

Entrada gratuita

Classificação Livre

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Wilton Garcia é artista visual, doutor em Comunicação pela USP, pós-doutor em Multimeios pela Unicamp, professor da Fatec Itaquaquecetuba. wiltongarcia.com.br

Referências

MORIN, E. Conhecimento, ignorância, mistério. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2020.