Friday, 19 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1201

CPI – uma falsa ideia de feminismo

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

A discussão central na CPI é quem são os culpados pela perda de controle do coronavírus no Brasil. A cada dia se torna mais evidente a responsabilidade principal do presidente Bolsonaro, de seus conselheiros diretos, no chamado gabinete paralelo, comandado, ao que tudo indica, pelo deputado Osmar Terra, e do ex-ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello.

Entre os participantes do gabinete paralelo havia a médica Nise Yamaguchi, especialista em imunologia e oncologia, uma das principais defensoras do uso da hidroxicloroquina na prevenção e tratamento das infecções por coronavírus. Sua participação no gabinete teria sido por iniciativa própria, ainda no começo do ano passado, para convencer Bolsonaro a manter no Ministério a indicação da hidroxicloroquina.

Na saída do ministro Luiz Henrique Mandetta, chegou a ser cotada para assumir o ministério. Com a demissão de Nelson Teich, novamente surgiu seu nome para substituí-lo, tendo havido mesmo um encontro de Yamaguchi com Bolsonaro, divulgado pela imprensa.

Pelas entrevistas da época, logo se podia fazer um perfil da médica como adepta das teorias de complô e conspirações ligadas ao surgimento do vírus, na linha dos negacionistas que apoiavam Donald Trump nos EUA, e mantendo ligações com o médico francês Didier Raoult, praticamente considerado como um charlatão pela imprensa francesa por insistir em defender o uso dos componentes do Kit Covid, tanto tempo defendido por Bolsonaro como “tratamento precoce”. Seu ardor na defesa da cloroquina teria valido mesmo uma suspensão de Yamaguchi, no hospital Albert Einstein, contrário ao uso desse medicamento.

Em síntese, a interrogação da médica na CPI foi das mais proveitosas por ter revelado fatos até ali ignorados. Porém, isso não desagradou só o governo Bolsonaro, assustado como Renan e Aziz conseguiam tirar de Yamaguchi declarações comprometedoras sobre o funcionamento do gabinete paralelo da presidência, ao qual Pazuello se submetia.

Como o relator insistia nas perguntas para obter respostas claras, houve a surpresa de a senadora Leila Barros intervir em favor da mulher Nise Yamaguchi. Jogadora de vôlei, Leila fez um passe contra, entregando simbolicamente a bola para a deputada Carla Zambelli, a ardorosa defensora da política sanitária de Bolsonaro. Foi um gesto feminista, mas no caso não era a mulher a interrogada, mas a cientista, médica e doutora defensora de produtos não adequados para a prevenção e cura do coronavírus. Feminismo de orelhada pode levar a desvios como esse.

Com sua insistência em promover e defender o uso da hidroxicloroquina, não se pode esquecer e se deve mesmo acentuar que a doutora Yamaguchi, formada em boas universidades e falando quatro idiomas, portanto, não uma simples mulher explorada no trabalho ou como dona-de-casa, era uma pessoa apta e capacitada para responder às perguntas da CPI. Mesmo porque — e isso não se pode ignorar- é uma entre os responsáveis pelo chamado genocídio que continua ocorrendo no Brasil.

Mas isso não foi tudo. Comovida pela cena da cientista negacionista submetida à insistência das perguntas de Renan e Aziz, uma atriz estrela da televisão se revoltou e, em nome da defesa das mulheres, decidiu lançar um tuíte, mesmo porque é feminista reconhecida pela ONU.
Uma catástrofe: “Show de horror e boçalidades na CPI da COVID. Certa ou errada… Não importa! Intimidação, coação… Fala interrompida… Mulher merece respeito em qualquer ambiente.”

É o feminismo versão verde-amarela! Coitada da doutora Yamaguchi, ela só queria fazer bem, mesmo se seu remédio não curava e podia matar. Naquele dia, ultrapassávamos 450 mil mortos. E vamos chegar a 700 mil e talvez mesmo ultrapassar.

Os bolsonaristas, que detestam feministas, adoraram! Assustada com a má repercussão entre seus fãs, até ali existentes entre direita e esquerda, Juliana Paes reincide, mas com classe, beleza, boa imagem, embora a falta de sincronização entre imagem e som, favoreça a hipótese de uma montagem posterior do vídeo.

Juliana Paes se enganou duas vezes — na primeira, quis defender a coitadinha da Nise Yamaguchi, membro do gabinete secreto e paralelo de Bolsonaro, composto só de charlatães, que nos levaram à tragédia da cloroquina. Por quê? Porque a coitadinha é mulher! Seria também “feminista” a senadora de “esquerda” Leila Barros que numa jogada de vôlei passou a bola para a direita, ao defender também a coitadinha da Nise Yamaguchi por ser mulher?

Será que deveríamos defender o Pazuello porque o coitado está velho, meio gagá, e não merece tantas críticas?

E a Juliana Paes perdeu a grande chance de ficar calada, pois sua retórica bem filmada torna-se ridícula com “os delírios comunistas de extrema-esquerda”. Onde? Alguém viu? Ah, Juliana, você está lendo muito fake news! Mas, pelo jeito, não viu o meio-milhão de mortos!

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.