Thursday, 11 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Facebook: Uma autocracia encurralada

Foto: APEC PERU 2016

O Facebook é a maior autocracia (*) do mundo, com nada menos do que quase três bilhões de membros. Mas apesar deste poder inédito na história humana, o império criado por Mark Zuckerberg virou alvo de uma coalizão heterogênea de interesses políticos, comerciais, ideológicos e culturais aglutinados de forma aleatória a partir das mudanças provocadas pela chegada da era digital.

O cerco à autocracia liderada por um jovem de 37 anos é mais uma escaramuça entre duas maneiras de ver o mundo em que a principal característica é a impossibilidade de usar os parâmetros atuais para avaliar uma crise como a que envolve a maior rede social do planeta. O enquadramento do Facebook no mundo atual tornou-se um desafio a todos nós, usuários e tomadores de decisões políticas, tecnológicas e econômicas.

É uma tarefa complexa porque o Facebook tanto pode ser visto como algo associado às práticas típicas de regimes medievais como a uma revolucionária utopia digital. A rede criada há menos de 18 anos virou um divisor de águas que embaralhou o contexto político-ideológico contemporâneo na medida em que posicionamentos ditos progressistas podem vir a assumir um formato conservador e vice-versa, dependendo do tema em debate.

Se partirmos da maneira como o Facebook usa o centralismo administrativo interno, definido como uma autocracia, estamos debatendo uma forma arcaica de poder unipessoal, de manejo antiético do sigilo dos dados cedidos gratuitamente pelos usuários e administrados por misteriosos algoritmos (robôs automáticos), bem como uma máquina de manipulação de informações com imprevisíveis consequências políticas, econômicas, sociais e culturais. Algo simplesmente assustador.

Mas se olharmos a empresa de Zuckerberg de outro ângulo, o das inovações tecnológicas da era digital, o panorama é diferente. Estamos diante do protótipo mais bem sucedido, até agora, de estruturas sociais baseadas na dinâmica comunicacional criada pelas novas tecnologias digitais de informação e comunicação (TICs). Os três bilhões de usuários da rede estão espalhados pelo mundo inteiro, livres para interagir entre si e limitados apenas pelos programas e equipamentos desenvolvidos pelo Facebook e administrados por um exército de algoritmos, responsáveis pelo controle do tráfego das mensagens entre usuários.

Questão de sobrevivência

Até agora o cerco ao Facebook era promovido por governos nacionais preocupados com o crescente poder da rede de interferir no debate político e por conglomerados jornalísticos assustados com a acelerada migração de audiências e anunciantes para a empresa de Mark Zuckerberg. Para a grande imprensa mundial tornou-se uma questão de vida ou morte parar a expansão do Facebook.

Mas desde o depoimento de Frances Haugen, ex-integrante da Equipe de Integração Cívica do Facebook, a rede social entrou também na mira das organizações de defesa da família e de proteção aos adolescentes nos Estados Unidos. A Equipe de Integração Cívica é um grupo formado por funcionários do Facebook encarregados de monitorar a relação ente a rede e seus usuários. Frances disse à imprensa norte-americana e depois em depoimento no Capitólio (Congresso dos EUA) que conteúdos divulgados pelo site Instagram (controlado pelo Facebook) provocam alterações nos hábitos alimentares, geram ansiedade, depressão e até suicídios entre meninas adolescentes. Foi um duríssimo golpe na imagem pública da empresa, que sentiu o impacto e reagiu com justificativas e desculpas quase encabuladas.

A ofensiva anti-Mark Zuckerberg saiu do terreno político e moral para entrar no espaço doméstico, o que de imediato elevou a temperatura do debate em torno dos malfeitos do Facebook. O que antes estava restrito a uma batalha entre lobistas, a partir das denúncias de Frances Haugen entrou para as conversas familiares na hora do jantar, semeando a possibilidade de uma migração de usuários rumo a redes concorrentes.

O vírus da dúvida sobre a integridade cívica e moral da autocracia chefiada por Mark Zuckerberg tornou-se mais agressivo em abril de 2021 quando Sophie Zhang, uma especialista em processamento de dados e ex-funcionária do Facebook, denunciou ao jornal britânico The Guardian a cumplicidade da rede com violações dos direitos humanos cometidas por governos de oito países, entre eles o Brasil.

O jornal The Wall Street Journal ( WSJ), integrante do mega conglomerado jornalístico News Corporation ampliou o cerco ao publicar, agora em setembro, uma série de reportagens com pesadas acusações ao complexo de empresas formado pelo Instagram, WhatsApp e Facebook. O bilionário australiano Rupert Murdoch é o dono da News Corporation e um obstinado desafeto de Zuckerberg, a quem acusa ser o pior inimigo dos grandes jornais mundiais. O Journal mostrou, baseado em documentos internos e depoimentos de funcionários do Facebook, como a empresa de Mark conhece os problemas causados pela veiculação de mensagens falsas ou distorcidas, mas os ignora deliberadamente.
Jeff Horowitrz, o autor da investigação publicada pelo WSJ, afirma que o dono do Facebook tem pleno conhecimento dos problemas e compartilha a decisão de ignorá-los. Garante também que a equipe de Mark criou um sistema chamado XCheck que privilegia a veiculação de mensagens postadas por clientes preferenciais, mesmo que elas violem as regras éticas e profissionais da rede. É a brecha por onde passam mensagens difamatórias, fake news e incitação à violência física ou moral, bem como postagens eleitorais notadamente de candidatos conservadores e ultradireitistas.

A exploração do usuário

O cerco à maior rede social virtual do planeta depois das últimas denúncias mudou de estratégia e agora foca mais na questão moral do que nas questões financeiras e políticas. O Facebook está sendo acusado de colocar os lucros acima da preocupação com os interesses, necessidades e o bem-estar de seus usuários. A obsessão com o faturamento alimenta a estratégia de usar recursos tecnológicos, éticos ou não, para estimular os likes, compartilhamentos e a permanência de visitantes pelo maior tempo possível na rede.

Para o cidadão comum, é indispensável eliminar o modelo de captura de dados de usuários que são convertidos em acervo informativo altamente valorizado e usado posteriormente para negócios bilionários. Os usuários cedem tudo gratuitamente e não participam dos lucros obtidos pelas empresas de Mark Zuckerberg, numa troca claramente desigual. Enquanto este esquema não for alterado, todas as redes sociais virtuais continuarão a faturar bilhões de dólares às custas de dados entregues de graça por seus usuários.

A batalha do Facebook ainda vai durar muito tempo porque ela ocorre num terreno minado por interesses político-eleitorais e empresariais envolvendo algumas das maiores corporações midiáticas do planeta. O cerco ao Facebook pode evoluir para o desmembramento da empresa, com a venda do Instagram e WhatsApp, ou para um complicadíssimo debate sobre a regulamentação das redes sociais virtuais. O mais provável é que este confronto terminará sem vencedores. A autocracia de Mark Zuckerberg pode sofrer duros golpes num futuro próximo, mas seus desafetos, especialmente na imprensa, dificilmente poderão cantar vitória, pois estão apenas tentando adiar o inevitável fim de um negócio outrora bilionário.

(*) Governo de um único homem, não necessariamente ditatorial.

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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.