Sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1377

A economia da atenção e a superficialização do jornalismo

O mundo sempre apresentou complexidades, mas a consolidação do ambiente digital alterou profundamente a forma como a realidade é mediada. No centro dessa transformação está o jornalismo, cada vez mais pressionado por uma lógica informacional marcada pela velocidade, viralidade e pela disputa permanente por atenção.

Não se trata de afirmar que o jornalismo tenha se tornado superficial de forma homogênea, mas de reconhecer que o ambiente digital instituiu incentivos estruturais que favorecem formatos mais imediatos, emocionais e simplificados, tendência que convive com práticas rigorosas, embora exerça influência crescente sobre o ecossistema informativo. Nesse contexto, a superficialidade deixa de ser apenas um efeito colateral das redes sociais e passa a influenciar diretamente a produção e o consumo de notícias.

Estudos em psicologia e sociologia da comunicação mostram que plataformas digitais frequentemente privilegiam conteúdos de alto impacto emocional e rápida circulação, em detrimento de abordagens analíticas e contextualizadas. Não se trata apenas de uma característica técnica: essa lógica algorítmica influencia comportamentos e padrões de atenção, redefine rotinas jornalísticas e estimula títulos sensacionalistas, enquadramentos simplificados e a exposição recorrente de episódios de violência, tragédia e conflito.

Nesse contexto, os títulos deixam de funcionar apenas como síntese informativa e passam a operar como gatilhos de atenção. Não é incomum que parte dos leitores se detenha apenas neles, formando julgamentos antes mesmo do contato com o conteúdo integral, comportamento recorrente no consumo digital de informação que favorece interpretações apressadas e descoladas da complexidade dos fatos.

Levantamentos sobre hábitos de leitura digital indicam que uma parcela significativa de usuários compartilha conteúdos sem acessar a matéria completa, evidenciando a centralidade das manchetes na formação de opinião online (Sundar et al., 2025).

A literatura científica em psicologia e comunicação aponta que a exposição repetida a conteúdos de alto impacto emocional pode estar associada à diminuição da sensibilidade afetiva e a processos de dessensibilização (Baumeister & Leary, 1995; Fiske, 2004).

Quando esse tipo de material se torna eixo central da cobertura, a questão deixa de ser apenas informativa e passa a ser também ética, pois o sofrimento tende a circular como mercadoria simbólica. Nesse cenário, tragédias surgem em sequência, muitas vezes sem contexto ou aprofundamento, compondo um fluxo contínuo que rapidamente substitui a indignação por novos estímulos. O resultado é um ambiente informacional em que a empatia não desaparece de imediato, mas pode se atenuar gradualmente sob o efeito da exposição reiterada.

Além disso, a lógica da validação digital, de cliques, compartilhamentos e métricas de engajamento, cria incentivos para que veículos e profissionais priorizem visibilidade imediata em detrimento da responsabilidade editorial. Essa dinâmica não pode ser atribuída apenas a escolhas individuais, mas a um modelo estrutural que aproxima o jornalismo das mesmas métricas que regem plataformas de entretenimento e redes sociais.

Mais do que uma disputa tecnológica, trata-se de um conflito estrutural entre critérios editoriais e métricas de desempenho. À medida que o jornalismo se orienta por lógica algorítmica e indicadores de engajamento, tende a priorizar impacto imediato em detrimento de análise, contexto e responsabilidade pública. O efeito desse deslocamento não se limita ao campo informativo: ele incide diretamente sobre a qualidade do debate público. A repetição de estímulos superficiais não apenas empobrece a compreensão coletiva da realidade, mas também altera a forma como o sofrimento humano ou animal é percebido, interpretado e julgado relevante pela sociedade.

Nesse cenário, discutir a qualidade da mediação jornalística não é apenas um debate profissional, mas uma questão central para a saúde informacional da vida pública.

Referências

Baumeister, R. F., & Leary, M. R. (1995). The need to belong: Desire for interpersonal attachments as a fundamental human motivation. Psychological Bulletin, 117(3), 497–529.

Fiske, S. T. (2004). Social beings: Core motives in social psychology. Hoboken, NJ: Wiley.

Sundar, S. S., et al. (2025). Sharing without clicking on news in social media. Nature Human Behaviour. https://www.nature.com/articles/s41562-024-02067-4

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Suzy Azevedo é jornalista formada, pós-graduada em Comunicação Informacional e autora de textos reflexivos sobre mídia, comportamento humano e questões sociais. Escreve sobre temas que impactam a forma como as pessoas pensam, se informam e se relacionam com o mundo.