Friday, 19 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1201

A hora do jornalismo de soluções

(Foto: Divulgação)

Tudo indica que, passado o auge da contaminação por coronavírus, cada país terá que enfrentar o difícil desafio de retomar as atividades econômicas em condições que inevitavelmente serão distintas das existentes antes da pandemia. E, neste novo contexto, o jornalismo passa a ser um mediador obrigatório na busca de soluções para dilemas que já existiam antes da covid-19 e de outros que surgiram depois.

O chamado jornalismo de soluções é uma modalidade de identificação, compartilhamento e disseminação de dados, fatos e eventos que aceleram a troca de informações entre os diversos protagonistas no esforço de retomar as atividades econômicas. A ênfase não é mais o hard news (literalmente, notícias duras, ou notícias de atualidade), embora este continue a ser uma função essencial; a mediação entre os agentes econômicos (empreendedores, assalariados e consumidores) torna-se a condição essencial para que todos superem as dificuldades surgidas em consequência do coronavírus.

É uma mudança considerável na cultura jornalística, pois implica a substituição da crença de que o jornalista sabe o que é bom para o público em geral pela ideia de que cabe a ele criar as condições para o diálogo entre os agentes econômicos, sem privilegiar nenhum deles. A troca horizontal de informações é uma necessidade decorrente do fato de que a realidade social e econômica tornou-se tão complexa que é impossível alguém ou alguma instituição saber o que é bom ou mau para uma comunidade.

O jornalismo de soluções proposto por instituições como a Solutions Journalism Network (Rede do Jornalismo de Soluções) é, na verdade, um novo nome para uma velha ideia. Esta modalidade de jornalismo é o desdobramento lógico das perguntas “o quê, quando, como, quem e por que”, que integram o beabá da profissão. Depois destas perguntas básicas, a grande questão é: o que faço ou fazemos com estas informações? No último século e meio de sua história, a imprensa evitou o jornalismo de soluções alegando a necessidade de ser isenta.

Hoje, nós temos uma avalanche de informações e de problemas, uma combinação extremamente desafiadora para o jornalismo. O tsunami de dados, fatos e eventos relacionados à covid-19 coloca o jornalismo no centro da polêmica porque recai sobre ele a expectativa de boa parte do público no que se refere à certificação de confiabilidade nas informações dadas pelas áreas científica e governamental. É o jornalismo de soluções sinalizando o que pode e o que não pode ser levado em conta na hora de tomar decisões.

As teorias de gestão corporativa já consagraram o princípio de que o “chão da fábrica” é tão imprescindível na busca de soluções para dilemas operacionais de uma empresa quanto a diretoria. A Toyota que o diga. Os especialistas em gestão já desenvolveram inúmeras técnicas de compartilhamento de informações e conhecimentos, mas todas elas são restritas a públicos reduzidos. O que temos hoje diante de nós é uma retomada global que só produzirá os resultados que precisamos se for feita de forma integrada, especialmente no nível local.

O apartheid noticioso local
O jornalismo é a área da comunicação historicamente especializada na formatação de informações visando captar a atenção das pessoas por meio da publicação de conteúdos de fácil compreensão, confiáveis, exatos e relevantes para seu público-alvo.

O que temos pela frente é a urgência em achar soluções tanto para questões planetárias, porque o mundo está hoje fortemente globalizado, como para as questões locais, pois é neste âmbito que as propostas serão checadas na prática. O jornalismo é indispensável nos dois planos, mas é no local que sua ausência é mais sentida e mais necessária. É no município ou na cidade que as grandes teorias serão aplicadas e não adianta nada elas serem teoricamente bem elaboradas se, na prática, as pessoas não colherem os resultados esperados.

O mundo globalizado tem a seu dispor um grande volume de dados, fatos e eventos necessários para decidir o que fazer com este material informativo. E é justamente isto que falta às pequenas e médias comunidades onde vive a maior parte da população mundial. Há uma enorme carência de fluxos noticiosos diversificados sobre questões locais, o que acaba gerando uma espécie de apartheid noticioso, que impede o desenvolvimento de soluções também locais.

Este déficit, materializado na expressão “deserto informativo”, torna-se especialmente crítico em situações como a criada pela covid-19 aqui no Brasil, quando o modelo de negócios de muitas empresas é alterado por fenômenos imprevistos, causando desorientação de empresários e insegurança entre assalariados. É em momentos como este que o jornalismo de soluções surge como instrumento para reordenar os fluxos informativos para gerar ações em benefício coletivo.

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Carlos Castilho é jornalista, graduado em mídias eletrônicas, com mestrado e doutorado em Jornalismo Digital e pós-doutorado em Jornalismo Local.