1.
O objetivo deste artigo é analisar a forma como o presidente do Senado Nacional, José Sarney, é enquadrado pela revista Época. O trabalho resulta da observação contínua das chamadas de capa desde a primeira menção ao caso (23/03 – ‘Congresso – O escândalo dos 300 diretores da Câmara e do Senado’) até a última (10/08 – ‘Senado – Como a crise virou briga de rua’), passando pelo perfil publicado em 27/07 com o título ’60 anos (de vícios) em 6 meses’, totalizando dez edições da revista. Para a análise do enquadramento, foram utilizados o material de titulação e chamadas de capa da revista Época – Editora Globo – envolvendo o ‘Caso Sarney’, de março a agosto de 2009, além de uma reportagem/perfil do presidente do Senado, publicada pelo mesmo veículo, na edição nº 584, de 27 de julho de 2009.
Antes de passar à análise dos produtos, deve-se explicar que a hipótese do enquadramento (framing), no âmbito das pesquisas sobre os efeitos da mídia, dedica-se a estudar como os artifícios utilizados pelos meios de comunicação influenciam a forma como o público formará a própria opinião acerca do fato. Vale ressaltar que a pesquisa em questão assimila-se de algum modo à hipótese do agendamento (agenda-setting), em que ‘a mídia, pela seleção, disposição e incidência de suas notícias, vem determinar os temas sobre os quais o público falará e discutirá’ (BARROS FILHO, 2001, p. 169). Por mais de cinco meses o assunto foi citado em pelo menos 10 capas da revista – que é semanal –, além de reportagens internas na maioria das edições neste intervalo de tempo.
Além do cenário político em que se inserem as reportagens sobre o caso, foi levado em conta também o contexto em que se encontra a revista Época, os pontos de vista e os preceitos editoriais do veículo. Para compor a análise, foram utilizados conceitos e trabalhos desenvolvidos pelos autores Robert Entman, Erving Goffman, Juliana Freire Gutmann e Débora Lopez.
Mauro Porto (2003), no artigo ‘A pesquisa sobre a recepção e os efeitos da mídia: propondo um enfoque integrado’, diz que:
‘O fundamental não é apenas definir quais são os temas que a mídia enfatiza, mas sim como estes temas são apresentados. Para ultrapassar essas deficiências, o conceito de enquadramento tem sido apresentado como um complemento importante ao paradigma do agendamento. Os novos estudos desta tradição que passaram a incorporar o conceito de enquadramento estabeleceram o chamado `segundo nível de efeitos´, que examina não só como a mídia afeta sobre o que o público pensa, mas principalmente como as pessoas pensam sobre os temas da agenda. (PORTO, 2003).’
2.
Hipótese do enquadramento (framing)O sociólogo Erving Goffman utilizou a metáfora do framing pela primeira vez, em 1974, para caracterizar a forma como as questões sociais são concebidas e interpretadas pelos indivíduos e a maneira como gerar significado para cada uma dessas questões.
No campo dos efeitos da mídia, o teórico Robert Entman (1993), ‘o framing, essencialmente, envolve a seleção e a saliência’. Para ele, ‘enquadrar é selecionar alguns aspectos de uma realidade percebida e fazer eles mais salientes no texto comunicativo de modo a promover uma definição particular de um problema, interpretação causal, avaliação moral e/ou um tratamento recomendado para o item descrito’ (ENTMAN, 1993, p. 52). A identificação do enquadramento exige definição de problema, verificação de personalização, identificação de causas, atores envolvidos e possíveis soluções para só então ser possível conceber a avaliação moral do caso.
O que se torna claro, à medida em que as análises de enquadramento são feitas, é que esta hipótese deriva do agenda-setting. Ou, pelo menos, as duas hipóteses se entrelaçam para chegar a conclusões parecidas. Ou seja: a mídia não apenas pauta o que deve ser pensando, mas também a forma como determinados devem ser encarados. É este o pressuposto apresentado por Maxwell McCombs (apud Lopez, 2009) e defendido por Juliana Freire Gutmann (2006) no artigo ‘Quadros narrativos pautados pela mídia: framing como segundo nível do agenda-setting?’:
A hipótese inicial deste debate leva a crer que o enquadramento pode ser pensado de modo mais razoável como um dos desdobramentos da teoria do agendamento, enquanto que o chamado agenda-setting de atributos, quando aplicado empiricamente, mostra-se como um modo de encaminhar uma questão e não uma ‘agenda’ propriamente dita. (GUTMANN, 2006,p. 28).
3.
Revista ÉpocaA revista Época é publicada semanalmente pela Editora Globo desde 1998. O primeiro exemplar chegou às bancas no dia 23 de maio do mesmo ano. Conforme a Aner (Associação Nacional dos Editores de Revistas), Época é a segunda revista semanal de maior circulação no país. Entre o período de janeiro a agosto de 2009, circularam 416.744 exemplares, perdendo apenas para a Veja, da Editora Abril, com 1.099.078 exemplares no mesmo período.
O corpo editorial da revista se apresenta como investigador e esclarecedor do complexo mundo contemporâneo. Ao defender o próprio ponto de vista, torna-se claro o caráter de extrema direita do veículo, o olhar absolutamente capitalista e a defesa de tais preceitos como alicerce para a construção de um país melhor. De acordo com o texto de ‘missão’ de Época, há dois Brasis. O ‘Brasil do A’, dinâmico, inovador e que pensa e age globalmente; e o ‘Brasil do B’, arcaico, paroquial, provinciano, onde o interesse público é secundário diante dos interesses sociais e de grupos. ‘Época luta pelo `Brasil do A´, inserido num mundo sem muros, globalizado’.
Na defesa do capitalismo, afirma que o empreendedorismo é essencial para o desenvolvimento do país e critica aqueles que hostilizam o lucro. ‘É triste constatar que o ambiente de negócios no Brasil ainda é tão hostil aos empreendedores. Burocracia em excesso, e por baixo de tudo o preconceito arcaico contra o lucro. O lucro gera riqueza, empregos, boas carreiras. Empresa que não lucra é empresa morta, e empresa morta significa desemprego, pobreza, desolação social. O lucro está também na base da responsabilidade social das empresas. Sem lucro e vigor, empresa nenhuma poderia praticar qualquer forma de retribuição à sociedade’ [informações acessadas no site oficial da revista Época, em 15 de novembro de 2009].
4. Breve histórico do caso
O estopim para o caso Sarney foram as 11 denúncias feitas ao Conselho de Ética do Senado – todas arquivadas, posteriormente – contra o senador. Dentre elas, cinco foram representações feitas por partidos, que o acusavam de vender terras sem pagar impostos. A quebra de decoro parlamentar era defendida por vários motivos: segundo o partido, o presidente do Senado omitiu um imóvel em sua declaração de bens à Justiça Eleitoral, usou recursos públicos de forma irregular por meio da Fundação José Sarney e mentiu ao prestar informações sobre a relação com a entidade. Também houve acusações nos casos da Petrobras (suposto desvio de dinheiro), dos atos secretos e do crédito consignado a funcionários do Senado; participação em negociação para dar emprego ao namorado da neta, Maria Beatriz; acusação de mentir no Plenário.
5.
Análise de Enquadramento5.1. Definição do problema
Os títulos e as chamadas de capa entre os dias 23 de março de 2009 e 10 de agosto do mesmo ano reafirmam o enquadramento concernido ao presidente do Senado, José Sarney na reportagem/perfil de 27 de julho, intitulada ’60 anos (de vícios) em 6 meses’.
O problema de pesquisa trata-se da maneira como José Sarney encara a política ao longo dos 60 anos de carreira. A discussão surge a partir da crise no Senado, deflagrada em fevereiro de 2009. São mencionados os problemas com os 300 diretores da Câmara e do Senado, o escândalo da babá do ex-diretor João Zoghbi, até o ponto alto da crise, quando o presidente da Casa é acusado de nepotismo e apadrinhamento.
‘Acredite quem quiser – Após a escandalosa revelação de que a Câmara e o Senado têm quase 300 diretores, Sarney e Temer tomam medidas moralizadoras. O difícil é crer que deem certo’ (Título da edição nº 566, de 23 de março de 2009)
O título da matéria é totalmente opinativo e desacredita a ação do presidente do Senado. Utilizando o sarcasmo para a construção da titulação do texto. A revista deixa evidente seu posicionamento perante o acontecimento, e sua opinião sobre os atores envolvidos. Os termos ‘Acredite quem quiser’ e ‘O difícil é crer que deem certo’ enfatizam e deixa claro como o veículo enquadra o tema determinando ao leitor como o assunto deve ser interpretado, tentando influenciar o público alvo da revista.
‘A fazenda Pericumã S.A. – A Justiça investiga a legalidade da aquisição por Sarney de terras próximas a Brasília, onde ele e outros sócios querem construir um condomínio de luxo’ (título da edição nº 585, de 3 de agosto de 2009).
Mesmo o título sendo mais informativo, a revista mostra seu posicionamento ao citar o nome do senador na titulação da matéria. Ao ligar o nome de Sarney a algo que pode ser ilícito, e qual o destino da aquisição, o veiculo tenta persuadir o leitor a desacreditar do caráter e honestidade de um dos representantes eleitos pela população. O enquadramento desse título isolado não possui tanta pertinência, porém, levando em consideração a forma como o caso foi agendado pela Época, fica evidente as intenções de incriminar o senador.
‘`Não vejo motivo para renunciar´ – Mesmo sob pressão, o senador José Sarney diz que não vai deixar a presidência do Congresso e agora se apoia em Lula para ficar no cargo’ (título da edição nº 580, de 29 de junho de 2009).
A revista utiliza um trecho da fala do próprio Sarney em seu título, que novamente dá um tom sarcástico ao título da matéria. O posicionamento do veículo fica claro, mesmo, não sendo tão explícito como no título anterior. Ao colocar uma citação, existe a tentativa de parecer neutro e também de exibir a opinião do presidente do senado, o que de certa forma o ridiculariza por supor que não haveria motivo para uma renúncia de sua parte.
‘Senado: Como a crise virou briga de rua’ (chamada de capa da edição nº 586, de 10 de agosto de 2009).
‘O beco dos valentões – Na disputa entre defensores e opositores de José Sarney na presidência, o Senado se rebaixa ao nível das brigas de rua’ (título da edição nº 586, de 10 de agosto de 2009).
A chamada de capa e título desta edição mostra a situação do Senado Federal no auge da crise. O veículo utiliza termos que remetem a violência como: ‘Briga de rua’, utilizado na chamada de capa, e ‘Beco dos valentões’, termo presente no titulo da matéria. É importante ressaltar, que novamente apenas o nome de José Sarney está exposto na titulação da matéria, e sendo apontado como motivo da chamada ‘briga de rua’.
O que foi possível perceber é que a revista Época, em seus elementos de titulação, enquadra o ‘caso Sarney’ de maneira totalmente opinativa, utilizando inclusive de sarcasmo para induzir o leitor contra o presidente do Senado, alterando algumas vezes o olhar do leitor sobre a matéria.
No perfil, são traçados os ‘vícios’ de política praticados durante 60 anos que vieram à tona em seis meses, como, por exemplo, é citado nos seguintes trechos da reportagem de 27 de julho:
‘Marcar patrimônio público com sobrenomes políticos é um costume mais antigo que os bigodes de José Sarney. Nos quase 60 anos em que esteve no poder, Sarney praticou esse e muitos outros vícios da política’ (trecho da reportagem ’60 anos (de vícios) em 6 meses, destacado como ‘olho’, de Ricardo Amaral, em 27 de julho de 2009, pag. 39).
O trecho anterior, marcado por grande ironia, mostra qual o verdadeiro problema apontado pela revista. O tom e a ordenação dos fatos explicam de que forma o apadrinhamento e a dita vaidade de Sarney são utilizados para tecer o raciocínio na reportagem, bem como dos títulos e chamadas de capa que se dedicam a tratar do assunto.
‘Telefonemas gravados pela Polícia Federal numa investigação sobre negócios do empresário Fernando Sarney – a Operação Boi Barrica – mostram que ele pediu ao pai que garantisse um emprego para Henrique Dias Bernardes, namorado de sua filha, Maria Beatriz’ (trecho da reportagem ’60 anos (de vícios) em 6 meses, de Ricardo Amaral, em 27 de julho de 2009, pag. 39).
As menções ao filho e à neta de José Sarney – Fernando e Beatriz Sarney, respectivamente – que ocorre ao longo da reportagem e durante o período em que o caso foi tratado é prova de que a questão familiar também é bastante problematizada pela revista. Para Época, o problema de corrupção de Sarney é um problema de família.
5.2. Personalização
A reportagem principal traça uma espécie de perfil do senador José Sarney. É citada, com bastante ironia, a quantidade de patrimônios públicos do Maranhão que ‘homenageiam’ o senador e seus familiares com certa incidência, deixando claro que a repetição dos termos ‘família’, ‘familiares’ serve para reafirmar a acusação.
A todo o momento tanto na matéria perfil quanto nos títulos, Sarney é tratado como a personagem principal da notícia. Seu nome é citado nos títulos sempre como o ator principal do fato, lhe atribuindo diretamente a responsabilidade e ligação entre os acontecimentos.
‘Na capital, São Luís, as crianças nascem na Maternidade Marly Sarney (a mulher do presidente do Senado) e são registradas no cartório do Fórum Desembargador Sarney Costa (o pai). Podem morar na Vila Kyola (a mãe) ou no bairro Zequinha Sarney (o filho), estudar na Unidade Integrada Roseana Sarney Murad (a filha) e mover ações no Fórum Trabalhista José Sarney (o próprio). Atravessando a Ponte José Sarney, que liga a Ilha de São Luís ao continente, podem ir a um dos 13 municípios com postos de saúde Fulano Sarney ou a um dos 19 em que há escolas Beltrano Sarney. Por exemplo, a cidade de Bom Jardim, onde a escola pública homenageia Fernanda Sarney, a bisneta de apenas 6 anos’ (trecho da reportagem ’60 anos (de vícios) em 6 meses, destacado como ‘olho’, de Ricardo Amaral, em 27 de julho de 2009, pag. 39).
5.3. Causas
O fator principal da reportagem trata do nepotismo praticado por José Sarney no Senado Federal e do envolvimento de parentes no caso. A causa que levou a revista a cobrir tal assunto foi o patamar que atingiram, diante da opinião pública, as acusações feitas ao senador José Sarney. Como não haveria de ser diferente numa revista com a posição de Época, o tom opinativo e a ironia fazem parte do contexto político em que se encontra a publicação. Neste caso, as acusações de corrupção, nepotismo e apadrinhamento, inseridas no histórico da carreira política de José Sarney, motivaram as publicações, as diversas chamadas de capa, os títulos ‘ácidos’ e a reportagem-perfil, que o acusa irônica e diretamente.
É divulgado o trecho de uma conversa entre ele e o filho, Fernando Sarney, em que este pede emprego para o namorado da filha (neta de Sarney). A conversa trouxe à tona os casos de apadrinhamento no Senado.
‘Tá bom, eu vou falar com ele’.
O presidente do Senado fala com o filho sobre nepotismo:
José Sarney – Olha, você não tinha me falado o negócio da Bia…
Fernando Sarney – Não, não. Ela falou comigo na sexta-feira.
José Sarney – Mas ele (Bernardo) entrou logo com pedido de demissão. Agora pra…
Fernando – Eu falei com o Agaciel.
José Sarney – Já falou com o Agaciel?
Fernando – Eu falei, falei.
José Sarney – Tá.
Fernando – Pedi para o Agaciel segurar com ele. Agaciel tá com dois currículos (do Bernardo e do Henrique) na mão dele, tá com tudo lá.
José Sarney – Tá bom, eu vou falar com ele’ (trecho da conversa de Sarney com o filho, publicado na reportagem ’60 anos (de vícios) em 6 meses’, de Ricardo Amaral, em 27 de julho de 209, pág. 40).
Neste trecho, único momento da reportagem-perfil em que declarações de Sarney aparecem explícitas – embora na forma de uma conversa gravada – funciona como prova da acusação a que o senador é submetido. A conversa com o filho é a fonte documental que sustenta o discurso de nepotismo e apadrinhamento, destacados nesta reportagem, nos títulos e nas chamadas analisadas por este trabalho.
Nas chamadas de capa, há menções às diferentes causas do problema e os desdobramentos: ‘Congresso – O escândalo dos 300 diretores da Câmara e do Senado’ (chamada de capa da edição nº 566, 26/03/2009); ‘Exclusiva – O diretor do Senado que usou sua própria ex-babá como laranja (chamada de capa da edição nº 571, 27/04/2009); ‘Escândalo da babá – O ex-diretor do Senado fala, acusa e dá nomes’ (chamada de capa da edição nº 572, 04/05/2009); ‘Tasso Jereissati – ‘Sarney representa hoje o inaceitável’’ (chamada de capa da edição nº 584, 27/07/2009).
5.4. Atores envolvidos
A revista não ouve nenhum dos citados durante a reportagem ’60 anos (de vícios) em 6 meses’. São usadas algumas declarações feitas em outras ocasiões, mas que não foram direcionadas ao repórter, tampouco com intenções de publicação. A escolha das fontes e a forma como estas estão dispostas no texto reafirmam a posição do veículo, que tem como objetivo mostrar os atos de corrupção cometidos pelo então senador José Sarney e pessoas próximas a ele ao longo da trajetória política. Porém, é necessário enfatizar que a revista não segue o princípio ético jornalístico que prima por conceder ‘voz’ a todos os envolvidos no conteúdo da matéria, optando assim pela falta na diversidade de fontes. Portanto, comporta-se de forma parcial e tendenciosa.
** José Sarney, senador – PMDB-AP, personagem principal da reportagem – não é ouvido em momento algum. No final, usa-se apenas o trecho de uma conversa entre ele e o filho, Fernando Sarney.
** Fernando Sarney, filho – também não é ouvido. Cita-se a conversa com o pai. No entanto, não há espaço para sua defesa;
** Deputado Domingos Dutra, senador – PT-MA, adversário do presidente do Senado e que disse que ‘No Maranhão, só não tem cemitério com o sobrenome da família porque morto não vota’ – A declaração não foi feita para a revista, apenas utilizada para reafirmar o discurso de acusação ao senador José Sarney.
** Agaciel Maia, ex-Diretor Geral do Senado conhecido como ’82º Senador’, nomeado em 1995 por Sarney e afastado este ano por conta do escândalo do número de diretores (181, mais que o dobro de senadores) – Foi citado por Fernando Sarney na conversa sobre o emprego para o namorado da filha, mas também não é ouvido para prestar esclarecimentos ou defesa;
** O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que defende Sarney – É utilizada uma declaração do presidente, mas que não foi feita para a revista: ‘O presidente Lula, a quem chefes petistas haviam pedido que fizesse silêncio sobre Sarney, saiu mais uma vez em defesa do aliado. ‘É preciso saber o tamanho do crime. Uma coisa é você matar, outra coisa é você roubar, outra coisa é você pedir um emprego’, disse Lula numa entrevista à Rádio Globo, lembrando que o Senado está investigando as denúncias’.
As chamadas de capa trazem mais três personagens. Outros seis surgem em reportagens internas em forma de entrevista ou declarações captadas de discursos. São eles:
** João Zoghbi, ex-diretor de Recursos Humanos do Senado – Surge por conta do escândalo da babá – Ele usou a própria, de 83 anos, como ‘laranja’ para receber dinheiro de um banco que faz negócios com o Senado. Zoghbi aparece em duas reportagens.
** Tasso Jereissati, senador – PSDB-CE – Amigo de José Sarney no passado, concede uma entrevista à Época dizendo que ‘O Sarney se apequenou’; Em ‘O beco dos valentões’, surge uma declaração do mesmo direcionada ao senador Renan Calheiros: ‘Cangaceiro. Cangaceiro de terceira categoria’.
** Pedro Simon, senador – PMDB-RS – Faz uma declaração para Renan Calheiros que também atinge Fernando Collor de Melo. ‘Vossa Excelência foi lá na China e fez o acordo com Collor’.
** Fernando Collor de Melo, ex-presidente da República, senador – PTB-AL – Aparece em chamada de capa da edição nº 586, de 10 de agosto de 2009, ao lado do texto ‘Como a crise virou briga de rua’. Na reportagem, Responde a Pedro Simon: ‘Quero que o senhor engula (as palavras) agora, as dirija e faça delas o uso que Vossa Excelência julgar conveniente’.
** Renan Calheiros, senador – PMDB-AL – Responde a Tasso Jereissati na edição nº 586, de 10 de agosto de 2009. ‘Coronel de m…, seu m…! Você é minoria com complexo de maioria’.
** Arthur Virgilio, senador – PSDB-AM – Responde ao discurso à fala de Sarney em discurso (‘Não tenho tido nenhum ato que desabone minha vida’), com as palavras: ‘Não quero ser grosseiro e dizer que Vossa Excelência faltou com a verdade’.
6.
Avaliação moralJosé Sarney é enquadrado na reportagem de Ricardo Amaral como um político cheio de vícios, corrupções e atos que envergonham a nação e ferem os princípios éticos, morais e constitucionais brasileiros. As chamadas de capa e os títulos não faltam com a ironia e sarcasmo, além de críticas para com o presidente do Senado. O título da reportagem da edição nº 583, de 20 de julho de 2009, ‘O perigo mora dentro de casa – A investigação da Polícia Federal sobre os negócios do filho Fernando Sarney voltam a ameaçar o presidente do Senado, José Sarney’, é exemplo disso, bem como a única capa dedicada ao assunto, na edição nº 581, de 04 de julho de 2009: ‘Pesquisa Exclusiva – O Congresso se olha no espelho’.
‘Quando aderiu ao PMDB e assumiu a Presidência da República, em 1985, no lugar de Tancredo Neves, Sarney já era visto como político de um passado que o país estava tentando superar. Era o ano da primeira edição do Rock in Rio’ (trecho da reportagem ’60 anos [de vícios] em 6 meses, destacado como ‘olho’, de Ricardo Amaral, em 27 de julho de 2009, pag. 40).
‘Quando José Sarney insistiu em manter-se no primeiro plano da política e das instituições, as lembranças que ele trouxe foram de um passado que o país rejeita: de nepotismo, compadrio, barganha de cargos e de confusão entre público e privado. É isso que está sendo revivido nos últimos seis meses – e que pode encerrar miseravelmente uma carreira política de quase 60 anos’ (trecho da reportagem ’60 anos [de vícios] em 6 meses, destacado como ‘olho’, de Ricardo Amaral, em 27 de julho de 2009, pag. 40).
O texto é irônico desde o título – ’60 anos (de vícios) em 6 meses’ – até o final, principalmente no trecho em que fala sobre a quantidade de patrimônios públicos no Maranhão que carregam o nome dos Sarney. Ao evocar o nome de batismo (José Ribamar), associando-o com o costume de batizar as crianças com o nome do ‘santo forte’ da região, também ironiza a índole do senador:
‘O nome de batismo é José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, mas pode chamar de Zé Sarney. José Ribamar era um nome comum no Maranhão, em 1930, quando o presidente do Senado nasceu, na cidade de Pinheiro. Era um tempo em que se batizavam os filhos com o nome do santo forte da região – Raimundos Nonatos, no Ceará; Geraldos Magelas, no norte de Minas, Josés Ribamares, no Maranhão e no Piauí’.
Além disso, cita acontecimentos históricos como o lançamento do Sputnik, pela União Soviética (URSS), a ida do homem à lua e o início da carreira de Michael Jackson como fatos contemporâneos à carreira política de José Sarney, assim como a Bossa Nova e a vitória brasileira da Copa da Suécia, para construir um sentido de longevidade, de modo pejorativo.
‘José Sarney já era deputado federal em 1957, quando a extinta União Soviética lançou ao espaço o Sputnik, o primeiro satélite artificial. Era governador quando o primeiro astronauta americano pisou na Lua, em 1969, e chefe da Arena em Brasília quando o pequeno Michael Jackson fazia vocais na banda dos irmãos mais velhos, em 1970.’
‘Ter sido contemporâneo da Bossa Nova, do Cinema Novo e da Seleção campeã da Copa da Suécia não desmerece ninguém. Muitos brasileiros do século 21 se recordam desses ícones como a melhor parte de um período encerrado da história – e a maioria só tem conhecimento deles por meio de filmes digitalizados.’
As imagens que ilustram a reportagem servem para contextualizar a carreira desde o início até o momento mais recente (a primeira, trata-se de um discurso como deputado federal em 1960, e a segunda, em Brasília, ainda no mês de julho, com a legenda ‘Uma longa carreira política marcada pelo compadrio e pelo nepotismo’. Nas duas fotografias, o bigode, sempre presente, também pode ser percebido como ironia, uma vez que, assim como o bigode, os atos de corrupção marcaram a vida política de Sarney. Ao longo do texto, o repórter cita: ‘Marcar patrimônio público com sobrenomes políticos é um costume mais antigo que os bigodes de Sarney.’
7.
Considerações finaisAtravés da análise dos títulos, chamadas de capa e da reportagem-perfil do presidente do Senado, José Sarney, pudemos identificar que a revista Época enquadrou o ‘Caso Sarney’ de maneira tendenciosa. A revista mostrou seguir o pressuposto apresentado por Maxwell McCombs (apud Lopez, 2009), de que a mídia não apenas pauta o que deve ser pensado, mas a forma como determinados assuntos devem ser pensados. Nesse caso, pauta o assunto da forma como espera que o público leitor de Época do encare, além de influenciar aqueles que, por ventura, ainda não pensam da mesma forma. A revista mostra que o real objetivo é influenciar a opinião dos leitores sobre o assunto da forma mais incisiva possível.
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Estudantes de Jornalismo da Faculdade Social da Bahia
