Thursday, 18 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Paz, Justiça e Instituições eficazes

Em um noticiário repleto de violência e injustiças, buscamos notícias e reportagens que promovessem a paz e a justiça social, neste caso em material produzido pela CNN Brasil. 

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), “os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável são um apelo global à ação para acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima e garantir que as pessoas, em todos os lugares, possam desfrutar de paz e de prosperidade”. O 16º Objetivo busca, através de 10 subtópicos, promover sociedades pacícas, ampliar o acesso à Justiça e construir instituições ecazes. É diante disso que se baseia esta observação de mídia, cujas análises foram feitas através de 23 notícias publicadas em duas semanas, entre os dias 06 a 19 de agosto de 2023, no site da CNN Brasil, mais especicamente, nas editorias Nacional e Internacional. Utilizou-se, na construção deste relatório, o senso crítico dos estudantes colaboradores para realizar as análises dos textos, a forma que eles foram abordados e se seguiram ou não o que rege o Objetivo 16 dos ODS.

As matérias nacionais analisadas:

  • “Projetos apoiados pela iniciativa privada têm poder transformador nas  favelas”;
  • “Acesso a recursos para ensino integral é ‘muito difícil’ para 61% dos dirigentes escolares, diz pesquisa”;
  • “Justiça de SP eleva para R$ 50 mil indenização a homem negro amarrado em moto por PM”;
  • “Caminhos para a Saúde, do Instituto CCR, realiza cerca de 50 mil atendimentos”;
  • “Homem que atacou creche em SC e matou 5 pessoas vai a julgamento nesta quarta-feira (9)”;
  • “Estudante é preso suspeito de abusar sexualmente de 300 crianças e adolescentes no PR”;
  • “MP pede extradição de brasileiro preso na Colômbia acusado de feminicídio”;
  • “Morador é morto após assalto na Cracolândia, em SP; testemunhas acusam usuário de drogas”;
  • “Parlamentar que agarrou e tentou beijar vereadora à força leva advertência e escapa de cassação em SC”. 

Matérias da editoria internacional analisadas:

  • “Iraque proíbe imprensa de usar a palavra ‘homossexualidade’ e obriga o termo ‘desvio sexual’ “;
  • “Ofensa racial foi motivo de confusão em doca nos Estados Unidos”;
  • “Papa alerta contra discriminação e violência por trás da inteligência artificial”;
  • “Candidato à Presidência do Equador é assassinado em Quito”;
  • “Papa Francisco: Igreja está aberta à população LGBTQIA+, mas há regras”;
  • “Presidente da Coreia do Norte adverte exército sobre possibilidade de guerra”;
  • “Livros didáticos do ensino médio da Rússia elogiam o conflito na Ucrânia”;
  • “ ‘Esperávamos menos resistência’: tropas ucranianas relatam desafios na luta contra o Exército russo”
  • “Biden e Lula falaram sobre Venezuela e Haiti durante conversa, diz Casa Branca”;
  • “Número de mortos em incêndios florestais no Havaí sobe para 106, diz governador”;
  • “25% da humanidade enfrenta estresse hídrico extremo; entenda o termo”;
  • “Quem são os suspeitos de assassinar o candidato à Presidência do Equador Fernando Villavicencio”;
  • “Violência política e insegurança perseguem o Equador enquanto cidadãos se preparam para votar”.

Conforme os assuntos abordados é que percebemos a grave crise política, social e econômica que não só o Brasil, mas o mundo todo vem enfrentando. Ao passo que a humanidade conquista significativos avanços científicos e tecnológicos, a luta pela paz, pelo desenvolvimento, pelo meio ambiente e por outros fatores que proporcionam uma maior qualidade de vida parece estar cada vez mais distante. Ao mesmo tempo que as notícias contemplam os ODS, fica evidente a ineficácia do governo e de instituições sociais em resolver essas questões.

A mídia, responsável principal pela difusão da informação, muitas vezes cumpre o seu papel e atua exatamente da forma como propõe. No entanto, em outros casos, é notório como faltam dados, explicações, contextualização e demais direcionamentos para garantir não apenas uma sociedade informada, mas, sobretudo, bem informada e conscientizada. A ausência     de especialistas e testemunhas nos assuntos cria uma forma superficial de fazer notícia, que acaba levando a diferentes formas de interpretação, cabendo, até mesmo, narrativas falsas e perigosas, tendo em vista o momento em que vivemos.

O caso mais claro para exemplificar essas observações é o da publicação intitulada “Número de mortos em incêndios florestais no Havaí sobe para 106, diz governador”. Esse texto aborda uma série de incêndios florestais que atingiram o estado do Havaí no dia 8 de agosto de 2023, deixando centenas de vítimas. A matéria fala sobre o número de fatalidades que não param de subir e sobre o quão difícil será para identificar os corpos. Os incêndios foram causados por uma combinação de fatores: linhas de energias que estavam ativas foram derrubadas por fortes ventos e a falta de água nos hidrantes atrasou o combate às chamas, que foram alimentadas por um furacão. Contudo, no meio da reportagem, o veículo traz dois vídeos descontextualizados sobre mudanças climáticas, um, inclusive, sendo de uma fala do Papa em relação ao tema. Isso cria uma abordagem sensacionalista e enganosa, já que, por mais que os fatores do clima tenham contribuído para o desastre, há outros fatos gravíssimos a serem explorados, como a falta de água nos hidrantes. Além disso, o sistema de sirenes da ilha ficou em completo silêncio enquanto o incêndio se alastrava, dificultando as comunicações entre os serviços de emergência.

Além disso, a notícia “ ‘Esperávamos menos resistência’: tropas ucranianas relatam desafios na luta contra o exército russo” trata sobre a contra-ofensiva das tropas ucranianas às investidas dos soldados russos. A CNN esteve por uma semana em Orikhiv, deixando claro que foi o primeiro veículo a acessar o local. Além disso, o veículo dá opiniões, como no trecho “a CNN viu uma melhora palpável no moral à medida que alguns avanços pareciam ser feitos” sem indicar qual especialista, e se foi algum especialista que fez o comentário. Além disso, o site utiliza estratégias de ficção para contar uma história real, o que pode, ou não, suavizar um fato ou confundir a audiência.

Com base no que analisamos, há que se melhorar a forma como a CNN e a mídia podem tratar as notícias, não utilizando o sensacionalismo para atrair espectadores; o uso de citações dentro dos contextos corretos e explicados para que seu sentido não seja alterado, assim como o aprofundamento e detalhamento dos fatos, ao contrário de uma rasa alusão a eles. Além disso, em alguns casos ocorre o uso de estratégias de ficção para contar uma história real, a emissão de opinião e a falta de fontes especializadas para embasar a explicação dos acontecimentos, o que é desfavorável. Entrevistar fontes especializadas sobre o tema e/ou assunto tratado, para que a opinião do leitor possa ser formada com base em conhecimentos concretos; falar mais sobre a violência política sofrida por governantes, deputados, senadores e afins, como por exemplo, notícias que falavam sobre o assassinato do candidato á presidência do Equador, Fernando Villavicencio.

Notas

Este artigo faz parte do conjunto de análises mensais sobre diversos veículos nacionais ou regionais produzidas pelo Observe, observatório de mídia da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, com foco nas coberturas e publicações a respeito dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, os ODS.

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Felipe Machado, Fernanda Sá, Maria Gabriela e Mariana Pesquero são alunos do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul