Thursday, 30 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Cresce a classe média virtual

Encontrei algo nesta viagem à Índia com que nunca deparei antes: uma comunidade política inteiramente nova. “A classe média virtual” da Índia. Sua emergência explica muito a razão do aumento dos protestos sociais neste país, como também na China e Egito. É um das coisas mais estimulantes ocorrendo no planeta. Historicamente, associamos as revoluções democráticas à uma classe média que alcança uma certa renda per capita anual – digamos, US$ 10 mil –, de maneira que as pessoas se preocupam menos com alimentos básicos e habitação e mais em serem tratadas como cidadãos, com direitos e a poder opinar sobre o próprio futuro.

Na Índia, encontrei algo fascinante: uma propagação impressionante da informática na última década, por meio de celulares e tablets, reduziu os custos da conexão online e da educação – a tal ponto que muito mais indivíduos na Índia, China e Egito, mesmo ganhando poucos dólares por dia, têm acesso a tecnologias que eram privilégio da classe média. É por isso que a Índia hoje tem uma classe média de 300 milhões de pessoas e outra classe média virtual de 300 milhões que, embora ainda muito pobres, vêm reivindicando cada vez mais direitos, estradas, eletricidade, uma polícia não corrupta e uma boa governança. E isso vem pressionando como nunca os políticos. “Graças à tecnologia e à difusão do ensino, um número cada vez maior de pessoas está se capacitando na população de baixa renda, e elas pensam e agem como se fossem da classe média, exigindo segurança e dignidade e direitos de cidadania”, explica Khalid Malik, diretor do Human Development Report Office das Nações Unidas e autor do livro Why Has China Grown So Fast for So Long? (Por que a China cresceu tão rápido e por muito tempo?, em tradução livre). “É uma mudança espetacular. A Revolução Industrial envolveu 10 milhões de pessoas. Desta vez são alguns bilhões”, diz.

Tecnologias ainda estão no começo

E isso não está sendo estimulado somente pelos 900 milhões de celulares em uso na Índia ou pelos 400 milhões de blogueiros na China. O escritório da Agência para o Desenvolvimento Internacional dos EUA, em Nova Délhi, apresentou-me a um grupo de empreendedores sociais indianos que os EUA vêm ajudando e o poder das ferramentas que eles estão colocando nas mãos dessa classe média virtual da Índia a um preço baixíssimo é de cair o queixo.

A empresa Gram Power está criando microredes inteligentes e medidores inteligentes para fornecer energia segura e com capacidade de expansão para as áreas rurais do país, onde 600 milhões de indianos não dispõem de eletricidade regularmente (às vezes nenhuma) para trabalhar, ler e aprender. Ao preço de US$ 0,20 por dia, oferece aos camponeses um cartão pré-pago de eletricidade que garante energia elétrica para seus aparelhos domésticos. A Healthpoint Services fornece água potável para uma família de seis pessoas por US$ 0,05 por dia e também consultas via internet ao custo de US$ 0,20 a visita. A VisionSpring realiza exames e fornece óculos para a população pobre por US$ 2 a 3. O Institute for Reproductive Health, por meio de mensagens de texto, alerta as mulheres sobre seus dias férteis mensalmente, indicando quando o sexo sem proteção pode ser evitado para evitar uma gravidez indesejada. E a Digital Green está fornecendo sistemas de comunicação baratos para agricultores indianos e grupos de mulheres mostrando como conduzir melhor suas atividades por meio de filmes digitais projetados em terra batida.

Essas tecnologias ainda estão no começo, mas no caminho. E vêm permitindo a alguns milhões a mais de indianos sentir pelo menos que pertencem a uma classe média com o poder político que ela propicia, diz Nayan Chanda, que dirige o YaleGlobal Online Magazine e é coeditor do livro A World Connected: Globalization in the 21st Century (Um mundo conectado: Globalização no século 21, em tradução livre).

Direito ao diálogo

Em dezembro, uma indiana de 21 anos, cujo pai trabalha em dois turnos como despachante de bagagens no aeroporto ganhando US$ 200 para sua filha se tornar psicoterapeuta, foi estuprada por uma gangue num ônibus depois de sair de um cinema com seu amigo. A jovem morreu em consequência dos ferimentos. Ela era mais uma que pretendia se tornar membro dessa nova classe média virtual. O seu brutal estupro e sua morte provocaram protestos em todo o país. “Foi um dos momentos decisivos na história, em que o cidadão, até agora satisfeito com os ganhos econômicos, quer mais do que apenas conforto material,” afirma Chanda.

É também o caso da China. Em dezembro, observa Chanda, “quando um censor em Guangzou cometeu uma violação sem precedentes, alterando as premissas de um editorial de Ano Novo do jornal Southern Weekend e transformando-o num panegírico do Partido Comunista, os jornalistas chineses explodiram. Pela primeira vez, exigiram publicamente a renúncia do funcionário e o Twitter, o Weibo (rede social chinesa), pegaram fogo de raiva”. A Primavera Árabe foi desencadeada não por estudantes universitários da classe média, mas por um tunisiano vendedor de legumes que aspirava fazer parte dessa classe média e foi maltratado pela polícia corrupta.

Líderes, estejam atentos: seus concidadãos não precisam mais estar na classe média, em termos econômicos, para ter educação, instrumentos e uma mentalidade de classe média e achar que têm direito a um diálogo e a ser tratados como cidadãos com direitos reais e um governo decente.

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[Thomas L. Friedman é colunista do New York Times]