Sunday, 14 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Lulu

Outro dia, alguns amigos da minha filha, de 15 anos, saíram de casa pedindo por favor que as meninas da turma deixassem boas avaliações sobre eles no aplicativo Lulu, a mais nova febre de quem usa celular e tem tempo sobrando para essas coisas. Elas prometeram que sim, mas não sei se fizeram. No Lulu, as avaliações são supostamente anônimas. Ninguém assina crítica nem elogio. Se não confiarem na palavra delas, nenhum rapaz vai jamais saber quem o avaliou. A não ser que trabalhe no Lulu ou seja um hacker poderoso.

O Lulu permite que mulheres que usam o Facebook classifiquem seus contatos naquela rede social com base em palavras-chave (acompanhadas de hashtags) que o software oferece previamente. Entre elas estão: #nãoquernadacomnada, #apaixonadopelaex, #perfeitoparaminhairmã, #bebesemcair, #feioarrumadinho, #lindotesãobonitoegostosão, #curteoromerobritto, #prefereovideogame, #semmedodeserfofo, #tocavuvuzela, #piormassagemdomundo, #maisbaratoquepãonachapa, #semlimites, #lavaroupa, #deletahistorico e #nãoliganodiaseguinte”.

Convenhamos que o software tem certo humor e permite boas risadas. Para elas. Quando os alvos dos comentários não são sujeitos tão importantes. Para elas. No momento.

Rapazes, não se preocupem

Consta que vingança é um dos motores dos comentários. Outro motor poderia ser o despiste. Fale mal de alguém para que fique subfaturado na praça, a ponto de ninguém querer adquiri-lo. Não estou exagerando. Um dos argumentos dos defensores do Lulu é o seguinte: se qualquer produto pode ter avaliações publicadas na internet, por que não os homens? Sim, eu disse produto. Não, eu não concordo. Aliás, detesto.

O Lulu não pertence ao Facebook, mas usa sua base de dados. Já temos rapazes surpreendidos ao saber que estavam sendo avaliados publicamente e nem poderiam verificar que avaliação estavam recebendo, a não ser que uma alma caridosa (ou odiosa) enviasse foto da tela do celular com sua nota e os adjetivos recebidos pelo gajo. O Lulu usa um truque antiquíssimo da internet, o tal do opt-out. Consiste no seguinte: todo mundo faz o que quiser com seu endereço de e-mail, seu perfil do Facebook, seu cadastro de loja etc. Até você reclamar, espernear, denunciar, processar ou qualquer coisa do gênero.

O oposto de opt-out é o opt-in, um sistema mais civilizado, daqueles que os marqueteiros desdenham porque é menos agressivo e, portanto, menos eficaz. O opt-in é a lógica que faz com que uma empresa só mande informações, promoções, boletins se você pedir. Essas variações de valores e perspectivas são típicas da internet, que glorifica a ruptura, a ruína de modelos de negócio (em inglês disruption). O Facebook cresceu e apareceu justamente porque há ali muita informação real, de pessoas reais. Só que, com o Lulu, transformou-se em ponte para o anonimato.

Rapazes, não se preocupem. Embora os números que o Lulu divulgue sejam grandes, muitas garotas não baixaram, não pretendem baixar e, se baixaram, foi só para espiar e ver como funciona, como eu. Como surgiu, há de morrer. Nenhuma empresa dura para sempre. Muito menos na internet.

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Marion Strecker é colunista da Folha de S.Paulo